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Ícaro | Documentário da Netflix explica ausência da Rússia em Tóquio 2020

Vencedor do Oscar de 2018 ajuda a entender quão sério foi o uso de doping por atletas do país

Flávio Pinto
29.07.2021
16h27

Quem está acompanhando os Jogos Olimpícos de Tóquio 2020 já deve ter notado algumas coisas estranhas. Não estamos falando somente do fuso-horário que nos obriga a ficar até altas horas da madrugada, e ter quer praticamente trabalhar na manhã seguinte igual a um dos zumbis de The Walking Dead — que até pode valer a pena, como foi o caso de quando acompanhamos a vitória de Rayssa Leal, a nossa fadinha —, mas já repararam em uma sigla dominante, e até então nunca vista, chamada ROC na tabela geral das medalhas? Ou o fato de tocarem Tchaikovsky quando algum atleta russo sobe no pódio, e não o hino do país?  

Isso vem acontecendo porque, em 2019, a Agência Mundial Antidoping (Wada) excluiu o país de todas as principais competições esportivas mundiais pelos próximos quatro anos (até 2023) por fraudar uma série de exames antidoping, aqueles que determinam se atletas recorrem a drogas ou qualquer substância capaz de dar um up no seu desempenho. Comitê Olímpico Internacional (COI) acatou a decisão, contudo, acabou achando injusto todos os atletas da região serem punidos. Sabem em Grey's Anatomy, quando o Chief quis punir todos os residentes do Seattle Grace Hospital porque a Izzie cortou o fio do LVAD do Denny Duquette? Injusto, mesmo você nunca tendo visto a um episódio da série, você sabe que é.

Por isso, foi permitido somente que os atletas não envolvidos no escândalo fossem permitidos de participar nos jogos deste ano, contanto que não fizessem referência ao país. Isto é, que não levassem a bandeira ou tocassem o hino nacional. Mas essa investigação começou antes disso, e há um documentário da Netflix que pode ajudar a explicar muito bem os principais motivos pelos quais o país da vodka e da Sputnik V estão com esse problemão com o COI: Ícaro, dirigido por Bryan Fogel (O Dissidente).

A produção nasceu de um experimento da mente do diretor, que resolveu investigar sobre o esquema de doping envolvendo o ex-ciclista Lance Armstrong, aquele que fez você usar uma pulseirinha amarela de borracha no início dos anos 2000, e o maior recordista da história da competição Tour de France, até que confessou o uso de drogas para aumentar seu desempenho enquanto atleta, teve todos os seus títulos cancelados e foi banido para sempre do esporte. 

Para entender como as drogas aumentariam seu desempenho, Fogel resolve entender e copiar a rotina de doping do ex-atleta. Para isso, ele recorre à ajuda do informante Grigory Rodchenkov, justamente o químico responsável pelo laboratório antidoping autorizado pelo COI para fiscalizar os atletas do país de Tchaikovsky. E em uma reviravolta digna de um dos melhores episódios de Succession, só que da vida real, Rodchenkov foi o cérebro por trás do coquetel de anabolizantes responsável por transformar a Rússia no Rambo das Olimpíadas de Inverno de 2014. 

O documentário gerou repercussão internacional e o recorte jornalístico fez de Ícaro um sucesso iminente. Somente a exibição do seu trailer durante uma reunião de fevereiro de 2018 da Comissão de Helsinque dos EUA fez com que o advogado Jim Walden insistisse um momento para falar sobre a necessidade de melhorar ainda mais a fiscalização da Agência Mundial Antidopagem e do COI. Ícaro também venceu o Oscar como melhor documentário, uma das grandes surpresas da noite de 2018 (era esperado que a despedida-pronta da cineasta Agnès VardaVisages, villages, levasse o ouro, tanto que a organização convidou as feministas declaradas Laura Dern e Greta Gerwig para apresentar a categoria).

Ao receber a estatueta, Fogel agradeceu à Rodchenkov e disse: “Dedicamos este prêmio ao Dr. Grigory Rodchenkov, nosso destemido denunciante que agora vive em grande perigo. Esperamos que 'Ícaro' seja um alerta - sim, sobre a Rússia, mas mais do que isso, sobre a importância de dizer a verdade, agora mais do que nunca”. Ainda sob ameaças de morte pelo governo russo, Grigory está escondido nos EUA desde 2015. 

Esse grande emaranhado apresentado em Ícaro ajuda bem a explicar os motivos pelos quais o WADA e o COI agiram bem ao excluir todos os envolvidos no escândalo político e esportivo de Tóquio 2020. Continue assistindo às Olimpíadas e torcendo pelo Brasil. Também veja um trailer de Ícaro abaixo, que está disponível por completo na Netflix

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