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Rua do Medo pode unir millennials e geração Z em torno do horror

Trilogia da Netflix chega com uma proposta de reciclagem à prova de cringe

Marcelo Hessel
25.06.2021
11h00
Atualizada em
16.07.2021
15h24
Atualizada em 16.07.2021 às 15h24

Do mesmo jeito que a Netflix usa seu algoritmo para traçar tendências de gosto, é possível tentar antever, do lado de cá, o que vai ser sucesso entre as estreias da plataforma? Se eu pudesse apostar, diria que Rua do Medo tem potencial para virar o fenômeno do mês - mesmo porque a Netflix vai inovar na distribuição da trilogia, soltando um filme por semana, nos dias 2, 9 e 16 de julho.

Embora eles se passem em anos muito distintos - 1994, 1978 e 1666 - os filmes não são independentes entre si, e a trama de um leva para o seguinte, como uma trilogia mesmo. O fio narrativo é a história de uma bruxa desencavada de tempos em tempos na cidadezinha de Shadyside, legando uma maldição para jovens incautos, pois quem tem contato com o sangue da bruxa passa a ser perseguido por estereótipos de slasher movies (como o caipira mudo com um machado, a gostosa esfaqueadora e a personificação encapuzada da caveira da morte).

Logo de cara, Rua do Medo se parece com Stranger Things nessa disposição de bater referências no liquidificador e devolvê-las como um pacote irônico, de consumo imediato e descartável, em que se assume a reciclagem estilizada de fórmulas, tons e situações. Assumir isso é parte central da proposta, porque a partir daí Rua do Medo não precisa mais se justificar e pode se divertir consigo mesmo sem pudores, jogando com regras “antigas” do cinema de horror. Há um cheiro de Sam Raimi e Wes Craven no ar, tanto na disposição para o gore quanto para a autoironia, e a própria Netflix já descobriu que essa abordagem funciona em outros terrores autorreferentes de veia oitentista, como A Babá.

Quem espera uma adaptação mais fiel aos livros de R.L. Stine deve se surpreender, portanto. Este Rua do Medo visivelmente está longe de ser um Goosebumps; enquanto os livros de Stine feitos para crianças e pré-adolescentes focavam mais na surpresa e menos na sensação “real” do perigo, a trilogia na Netflix trata o susto e o pavor como uma coisa só. Já pelos trailers dá pra antever que é uma adaptação muito mais sanguinolenta e crua do que a leveza dos livros sugeria, e a classificação indicativa, de 18 anos, está aí para confirmar.

Por mais que os fenômenos de audiência sejam momentâneos, semana a semana, de alguma forma eles sempre pegam alguma tendência de comportamento do público. Qual vai ser o zeitgeist de Rua do Medo? Ora, não seria outro senão a disputa mortal entre millennials e geração Z para definir quem é mais vergonhoso nos seus gostos e modos. Por uma coincidência mais que oportuna, a Netflix está estreando a trilogia bem no meio da discussão do cringe, e ao aderir ao “mau gosto” do cinema de horror visceral Rua do Medo oferece uma válvula de escape nessa treta geracional, capaz de unir a todos numa mesma máquina engordurada de moer referência.

 

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