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As principais referências e easter eggs de Round 6

Personagens e suas trajetórias foram enriquecidos com detalhes

Henrique Haddefinir
09.10.2021
15h54
Atualizada em
11.10.2021
09h48
Atualizada em 11.10.2021 às 09h48

Round 6 tem nas mãos um sucesso maior do que todos nós podíamos prever. Sua trama foi construída em torno de códigos de torture porn, de gore, de ação e violência extremas, todos parentes próximos do horror enquanto gênero, mas cheios de influências ramificadas, que vem desde o drama humano sólido até as pitadas de reality show, de estudo sociológico e até de cinema snuff (onde pessoas eram mortas de verdade em frente às câmeras). Apesar do apelo imediato que vem da tensão e da tortura psicológica, todos os personagens da série foram embasados com referências que os aprofundaram ainda mais.

É interessante notar como absolutamente todas as cenas e todos os desdobramentos tem uma razão de ser, tem um intuito e um reflexo futuro. Tudo em Round 6 parte do micro para o macro, do pequeno para o grande, do imenso para o incontrolável. Cada passo, cada movimento, cada morte, aparece na história com referências prévias, com recorrências perceptíveis, que podem não ser evidentes, mas compõem o quadro geral de uma produção que sabe, detalhadamente, que história pretende contar.

O Vermelho e o Azul

Vamos levar em consideração, por exemplo, o encontro de Gi-Hun (Lee Jung-jae) com o recrutador do jogo. Nesse encontro, o estranho propõe um jogo para Gi-Hun: ele tem que escolher entre duas cartas – uma vermelha e outra azul – e, mesmo sem saber, essa escolha pode determinar que tipo de envolvimento o personagem terá na competição que está por vir. É muito curioso porque, provavelmente, essa escolha define papeis de força e de resignação na hora de aceitar a empreitada. Gi-Hun demonstrou ser um jogador-parasita, submisso. Contudo, no mundo do Squid Game, esses não são atributos necessariamente ruins.

Assim que Gi-Hun escolhe a carta azul, o pequeno jogo entre ele e o recrutador começa. Notem que esse jogo é uma versão micro do que vai acontecer na ilha quando Gi-Hun for para a competição principal. Quando Gi-Hun ganha uma rodada, ele ganha dinheiro. Quando ele perde, o recrutador o esbofeteia, com força. Na ilha, a vitória também dá dinheiro, só que em muita quantidade, já que o jogo em si é jogado por muita gente e oferece muitos riscos. A derrota é proporcional aos ganhos e vai do tapa na cara para o tiro na cabeça. E assim como Gi-Hun aceita os tapas em nome de uns trocados, ele também aceita a possibilidade do tiro em nome da fortuna.

A pergunta é: será que se ele tivesse escolhido a carta vermelha, alguma coisa teria mudado? Vamos pensar novamente na dinâmica entre os soldados e os participantes. Embora os soldados fossem os algozes dos participantes, eles só tinham um privilégio: se cumprissem ordens sairiam vivos, sem competição, sem risco. Mas, eles não estavam em uma posição tão diferente assim. Eles ainda eram números, carcaças sem rosto, servindo a um entretenimento sádico. Eles, inclusive, dormiam em celas, como numa prisão. Além disso, azul e vermelho são cores primárias. Do azul pode se criar o verde (a cor dos uniformes dos participantes) e do vermelho pode se criar o rosa (a cor dos uniformes dos soldados). Será que se Gi-Hun tivesse escolhido a carta vermelha, ele não acabaria sendo recrutado como soldado?

O Início e o Fim

Gi-Hun entra no jogo e seu número é o 456. Ele é o último a topar a competição. Quando chega na ilha, ele faz amizade com Oh II-nam (Oh Yeoung-su), o número 001, primeiro a topar o jogo. Fica estabelecida, então, uma oposição entre ambos, que, ao mesmo tempo, também é complementar. O jogo nasceu com Oh II-nam, ele foi o número 1, sempre. E o jogo pode terminar com Gi-Hun, o último vencedor, que está disposto a exterminar a competição do mapa. Se os dois forem pai e filho, o ciclo se fecha ainda mais.

Há algo de ligeiramente deselegante em usar um clichê tão grande na dramaturgia da série. Mas, é inegável que há algumas pistas disso espalhadas pelos episódios. A maior delas é a ligação entre eles, por si só. Acontece desde o primeiro momento e segue firme até o desafio das bolas de gude, quando as memórias que eles compartilham são poeticamente próximas. E há pistas mais práticas, como o fato de que a data de nascimento de Gi-Hun não é a que ele digita como senha no caixa eletrônico e sim a que aparece nos documentos encontrados pelo policial infiltrado.

Não temos absolutamente nenhum detalhe acerca de como um separou-se do outro, caso essa paternidade seja mesmo real. Mas, sabemos que pessoas envolvidas nos jogos podem acabar ficando presas a ele (como o irmão do policial) e que isso representa, é claro, o abandono da vida como a conhecemos do lado de fora. Se Oh II-nam foi o criador do jogo, ele pode ter deixado tudo para trás em nome desse processo. O mesmo que Gi-Hun, na cena final, parece disposto a fazer em nome da destruição dele (abandonando a filha, inclusive). O número 001 abandonou o filho para criar o jogo. O número 456 abandona a filha para destruí-lo. Início e fim, pai e filho... ou simplesmente grandes opostos. Genial, não é?

Retardatários

Já sabíamos desde o começo que o Squid Game era um jogo em que apenas um vencedor triunfaria vivo. É claro que o roteiro poderia ter encontrado formas de manter alguns personagens, mas a credibilidade da história seria abalada. Foi um alívio perceber que o criador da série não foi por esse caminho e cada um dos competidores, dos rivais de Gi-Hun, teve seu fim. E mesmo sendo apenas carniças nessa trajetória, os roteiros encontraram formas de aprofundá-los o máximo possível.

Essa atenção apareceu de uma maneira sutil, mas igualmente interessante. No episódio dedicado a mostrar como eram as vidas dos que desistiram do jogo após a primeira etapa, alguns dos participantes foram acompanhados de perto. Pudemos conhecer um pouco mais da vida de cada um, enquanto o roteiro desse episódio colocava-os em alguma situação limite. Quando chegaram até momentos cruciais dessas narrativas paralelas, a morte de cada um deles surgiu em correlações minimalistas, mas inegáveis. Em pleno episódio 2, fomos tendo flashes de qual seria o destino de algumas dessas figuras.

A jogadora número 067 quase cortou a garganta de um homem e esse foi exatamente seu destino no penúltimo episódio. O jogador número 101, o gângster, precisou pular de uma ponte para escapar da vingança dos homens para quem devia. Mais tarde, na etapa da ponte de vidro, foi em uma queda que ele se despediu do jogo. O próprio Sang-woo (Park Hae-soo), que encontrou seu destino na chuva da última etapa, apareceu nesse episódio de terno, dentro de uma banheira, reproduzindo o mesmo quadro de derrota. Por fim, a morte de Ali (Anupam Tripathi), que foi a mais chocante e emocional, deu sua pista quando ele, do lado de fora, roubou, fugiu e deixou um homem para morrer, do mesmo jeito que ele foi enganado e abandonado na partida de bolas-de-gude.

Esses panoramas enriquecem muito o resultado final. A série já tem dados técnicos sensacionais, como o pouquíssimo CGI nos efeitos especiais, o número exato de 456 pessoas formando o primeiro desafio, os cenários gigantescos, as máscaras formando uma hierarquia de acordo com as texturas (quando mais relevo e textura mais alto o cargo) e por aí vai. Contudo, também estamos diante de uma excelência em narrativa textual, que fez com que aquelas pessoas (tratadas como se fossem só um contingente) pudessem ser dimensionadas.

A competição foi criada nas mais crueis bases do capitalismo, no que existe de mais sombrio no exercício da curiosidade... Nós não resistimos ao voyerismo. Colocamos nossas máscaras, ligamos nossos monitores, escolhemos ângulos e torcemos pela desgraça do objeto da nossa fascinação. Também somos a audiência do horror. Somos VIP's.

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