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Quem é KondZilla, o idealizador da série Sintonia, da Netflix

Produção com ideia original do artista mostra o dia a dia de jovens na periferia

Camila Sousa
10.08.2019
18h38

Quem não acompanha o mundo do funk talvez nunca tenha ouvido falar do KondZilla, nome artístico do produtor Konrad Dantas. Mas o canal do YouTube que leva esse nome é o maior do Brasil, com quase 51 milhões de inscritos, na frente de YouTubers conhecidos, como Whindersson Nunes (na segunda colocação) e Felipe Neto (em terceiro). Durante um dos painéis mais disputados da Rio2C, o "Kond" contou sua história e justificou o lema "favela venceu".

Konrad Dantas cresceu na Favela do Santo Antônio, no Guarujá. Quando sua mãe morreu em 2008, ele recebeu o seguro de vida dela e com esse dinheiro foi para São Paulo estudar cinema 3D. Na época, ele cantava rap e já sabia da importância do funk para as pessoas que vivem na favela, mas percebia que o gênero não tinha grandes clipes, a não ser de artistas apoiados por gravadoras. "Na época, a maioria dos vídeos de funk da periferia eram feitos mostrando produtos. Então se a música citava uma marca, aparecia aquele produto no vídeo. Como eu já tinha estudado um pouquinho de cinema, pensei: qualquer coisa que eu fizer aqui vai dar certo", revelou o Kond, arrancando risadas e aplausos da plateia no Rio de Janeiro.

KondZilla começou sua trajetória na época em que o chamado funk ostentação dava os primeiros passos. Saindo o litoral para a capital paulista, ele produziu dois clipes de grande impacto na cena da época ("Megane", de MC Boy do Charmes e "Tá Patrão", do MC Guimê) e percebeu que mostrar itens de consumo era algo importante. "Esses videoclipes começaram a ser o meu olhar sobre uma periferia que eu não conhecida e ainda estava explorando. Era o olhar de um forasteiro, alguém de fora, encontrando os signos que a galera queria passar dentro daquele vídeo. O que eu pensei foi: se está todo mundo mostrando, eu preciso registrar esse signo".

KondZilla no lançamento de Sintonia

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Para ele, as mudanças econômicas do Brasil na época e a ascensão do YouTube também contribuíram para o crescimento. "Isso aconteceu em 2011. Era o Lula que tava aí, ascensão da classe C, inclusão digital. As marcas de tablets precisavam produzir aqui e isso potencializou a nossa entrega, caminhando junto com o crescimento do YouTube. Essa é uma plataforma democrática, onde você pode expor sua arte, seu talento, seu trabalho, sem passar pela aprovação de ninguém. Quem aprova é o público, sem ‘jabá’ pra rádio".

Depois de trabalhar rapidamente com o Charlie Brown Jr. em 2011, KondZilla voltou para os vídeos de funk e deu andamento ao império que, como ele mesmo define, vai além da música e busca se conectar com o comportamento do jovem da favela, algo em que a série Sintonia se encaixa muito bem. O próprio Konrad mudou muito sua carreira no decorrer dos anos. Além dos videoclipes, ele também fez campanhas publicitárias e foi contratado pela Conspiração Filmes, onde hoje é diretor.

Tantas mudanças também fizeram o produtor ter um olhar diferente para os materiais veiculados no canal KondZilla. Ele explica que após o lançamento de "Baile de Favela", a empresa tomou a decisão de não divulgar mais conteúdos com palavrões, armas e letras que fizessem objetificação da mulher. Com isso, segundo o próprio Kond, o número de assinantes aumentou e o conteúdo do funk entrou em contato com pessoas de vivências diferentes, que não se identificavam com as outras letras. "Mas também pagamos o preço. Até então a KondZilla não tinha concorrentes, mas quando falei aos meus clientes que não faria mais conteúdos com palavrão, arma e objetificação da mulher, a concorrência surgiu".

Com o lançamento de Sintonia na Netflix, que leva seus conteúdos originais para diversos países, KondZilla dá mais um passo em sua jornada para levar o funk ao mundo e provar que, sim, a favela venceu. "Sou muito grato ao Rio de Janeiro por ter inventado o funk e fico mais feliz ainda em perceber que isso não é só um gênero musical. Isso está se tornando um movimento musical. O funk não tem que ficar só aqui. Ele é global, uma manifestação cultural e social".