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Pai em Dobro | Estreia de Maisa na Netflix é encontro entre gerações X e Z

Conversamos com o elenco do filme sobre as relações entre os personagens e o choque de gerações na obra

Henrique Haddefinir
14.01.2021
15h09

O primeiro material promocional do filme Pai Em Dobro causou duas reações muito fortes no público que já esperava pela chegada de Maisa à Netflix: metade dos interessados achou que o filme falaria sobre o encontro da jovem Vicenza com pais gays, e a outra metade fez provocações com o enredo ligeiramente parecido com o de Mamma Mia, musical estrelado por Meryl Streep em 2008, que narrava a jornada de Amanda Seyfried para descobrir qual dos três ex-namorados da mãe era seu pai. Essa comparação inclusive foi feita muito mais pelo público americano do que pelo brasileiro. De fato, a história criada pela escritora Thalita Rebouças tem suas semelhanças com o clássico hollywoodiano, mas elas são muito menos marcantes que as expectativas sugerem.

Pai em Dobro é uma história sobre laços familiares e busca pela identidade, o que é absolutamente inevitável e recorrente em histórias sobre pessoas que buscam a verdade sobre os próprios progenitores. Na trama, a jovem Vicenza (Maisa) passou a vida toda querendo saber quem era seu pai. A mãe, Raion (Laila Zaid), criou a menina numa comunidade hippie e se recusa a revelar o segredo mesmo quando a filha faz 18 anos. Vicenza, então, aproveita que a mãe parte numa viagem para a Índia e segue para o Rio de Janeiro em busca de respostas. Lá ela se depara com Paco (Eduardo Moscovis) e, logo em seguida, com Geovanni (Marcelo Médici), deixando aberta para o espectador a pergunta que carrega o filme inteiro: qual dos dois é seu pai?

“Todas as referências da Vicenza são referências que eu não tenho. Então, a primeira coisa que eu tive que fazer foi me esvaziar”, respondeu Maisa quando perguntada sobre como tinha sido viver uma personagem que, mesmo muito jovem, não foi criada sob os códigos da Geração Z - aquela nascida entre os anos 1990 e os anos 2000. Esse é um ponto importante sobre o longa, que sofre um pouco com essa mutação. Thalita é uma escritora especializada em falar com adolescentes, mas o filme – ainda que protagonizado por uma adolescente – é cercado de adultos de meia-idade, o que resulta numa fragilidade narrativa às vezes incômoda: Vicenza tem um celular, mas chama um elevador de “caixa que voa”.

Maisa também revelou uma preparação com ioga e meditação para ajudar no processo de construção da protagonista. O Brasil está acostumado a ver comunidades hippies sendo retratadas na TV, em quase todos os casos pelo viés da comédia, e Pai em Dobro não tinha nenhum interesse em fugir dessa curva. Toda a abordagem desse estilo de vida é feita com um ar jocoso, com um olhar distanciado, como o de alguém que realmente “só ouviu falar” ou que entrou em contato para criar um personagem. A jornada de Vicenza não está onde ela nasceu, e sim no Rio de Janeiro, onde estão as respostas para sua origem.

Maisa e Eduardo Moscovis em cena de Pai em Dobro
Suzanna Tierie/Netflix

Elogios a Maisa

Eduardo Moscovis e Marcelo Médici, os pais, foram só elogios para a estrela do longa. “É impossível não se apaixonar pela Maisa”, disse Moscovis quando falou sobre a experiência com a jovem colega. No filme ele vive Paco, o pai boêmio, artista plástico decadente que tem o perfil típico de quem vai “renascer” depois do convívio com a suposta filha. Já o Geovanni de Marcelo Médici está na outra ponta dessa estratégia. Ele vive um workaholic, super prático e cheio de problemas para lidar com emoções. Marcelo, aliás, já estava familiarizado com o trabalho da roteirista: “Eu já conhecia o trabalho da Thalita por causa de uma afilhada minha, que é muito fã dela”.

As declarações de Marcelo sobre Maisa ainda foram mais longe, exemplificando bem o tamanho da força da atriz perante o próprio público e perante o cenário midiático como um todo: “A Maísa é madura, mas ao mesmo tempo tem a idade que ela tem. Uma adolescente de 17 anos, com a carga de fama, de poder de fogo que a Maisa tem nessa questão toda do público, que é um público diferente. É impressionante... Um dia eu falei uma coisa com ela no twitter, ela me respondeu e nunca mais eu consegui ler nada, porque foram milhões de retuítes. E eu me peguei pensando que já não podia escrever mais tanta besteira, porque são muitos jovens e que agora também me seguem”.

Essa dinâmica talvez seja o grande ganho do longa. O público que segue Eduardo e Marcelo conhece o universo de Vicenza. O público que segue Maisa, não. O filme, espertamente, prefere se apegar à nostalgia ao invés da modernidade, com a comunidade hippie, os valores ingênuos da protagonista e até o Carnaval de blocos do Rio de Janeiro tomando a frente do desenvolvimento dramatúrgico. É bastante curioso perceber que, embora os nomes de Maisa e de Thalita sejam chamativos para a Geração Z, o que sustenta o filme são códigos da Geração X, são modos, comportamentos e manifestações artísticas características de um passado incomum às obras do gênero.

Enfim, para os que ficaram curiosos com as diferenças entre o filme e a versão literária (lançada logo em seguida ao anúncio da estreia), Thalita Rebouças mandou um recado: “Todo esse processo foi muito novo pra mim. Pela primeira vez eu escrevi já sabendo a cara que os personagens teriam. As diferenças são poucas, mas é claro que eu aumentei um pouco a história. Contei um pouco mais sobre o passado dos personagens adultos, falei um pouco mais sobre o Ameba Desnuda... Fiquei muito feliz com o resultado e quero fazer isso sempre agora”.

Pai em Dobro chega à Netflix nesta sexta (15) aqui no Brasil e também em quase 200 países. 

Maisa e Marcelo Médici em cena de Pai em Dobro
Suzanna Tierie/Netflix

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