Os melhores filmes de 2020 da Netflix que você não viu

Créditos da imagem: Netflix/Reprodução

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Os melhores filmes de 2020 da Netflix que você não viu

A produção fora do eixo hollywoodiano teve nos streamings um ano para brilhar

Marcelo Hessel
18.12.2020
14h04
Atualizada em
18.12.2020
14h18
Atualizada em 18.12.2020 às 14h18

Ainda que seja um ano trágico para as salas de exibição, 2020 não foi perdido na produção audiovisual, que inclusive permitiu nos meios digitais que muitos festivais chegassem a mais pessoas, de forma frequentemente gratuita. Sem a possibilidade de ir ao cinema, a pandemia fez os holofotes se virarem para os streamings, e muita coisa pode ter passado batido nos catálogos dos serviços mais populares, especialmente os filmes feitos fora de Hollywood. Na lista abaixo, pegamos oito filmes dentre os melhores que a Netflix lançou em 2020 e que talvez tenham passado abaixo do seu radar.

O que Ficou para Trás

Netflix/Divulgação

Um sinal dos tempos é que o gênero do terror prospera no cinema mundial para dar conta de um mal-estar generalizado. Neste primeiro longa do roteirista e diretor inglês Remi Weekes, o cinema de horror se presta a lidar com o drama dos refugiados de guerra, e a história acompanha um casal do Sudão que chega à Inglaterra e não consegue se emancipar do seu passado de tragédias recentes. Weekes inverte a lógica dos filmes de casa mal-assombrada: aqui, são os protagonistas que carregam dentro de si as assombrações. O que Ficou para Trás faz o básico e também tem algo a mais: sabe trazer para dentro do gênero as sensibilidades da cultura africana (central para definir a dinâmica entre os vivos e os mortos no filme) e ainda manda um par de ótimos sustos para acompanhar.

Secreto e Proibido

Netflix/Divulgação

Além das obras de ficção de Ryan Murphy, a Netflix tem em seu catálogo dois documentários sobre história e cultura gay com a assinatura do produtor, Secreto e Proibido e Atrás da Estante. Embora trate de uma história bem comovente (a relação de duas mulheres nos EUA que por sete décadas tiveram que esconder sua homossexualidade), Secreto e Proibido acaba se revelando bem interessante também por aquilo que revela de dinâmicas familiares e do paternalismo com a terceira idade. Que o casal Terry e Pat seja tratado como uma unidade disfuncional (nas intervenções da família para o bem de "Tia Terry") só depois das duas assumirem a relação gay é uma daquelas ironias da vida que, registrada na tela, ganha uma dimensão dramática singular.

A Ligação

Netflix/Divulgação

O trabalho de Lee Chung-hyun poderia ser só mais um suspense sul-coreano sobre jogo de gato e rato com assassinos em série, não fosse sua premissa, uma espécie de A Casa do Lago do mal. Tanto a fantasia de viagem no tempo quanto as reviravoltas policiais estão a serviço de um conto moral bem definido e bem conhecido, sobre a nossa responsabilidade com as decisões que tomamos na vida, mas a viagem tresloucada que Lee sugere para chegar lá é o que torna A Ligação bem irresistível. 

 

The Forty-Year Old Version

Netflix/Divulgação

A premissa por si só já parece irresistível: depois de ganhar um prêmio de dramaturga promissora aos 30 anos, Radha Blank chega aos 40 sem decolar profissionalmente, e ela então decide fazer um filme - sua estreia como diretora - em torno dessa crise. A escolha pela fotografia em preto-e-branco e pela autobiografia confessional alinham o filme a uma certa tradição do cinema americano de prestígio, mas Blank escapa da armadilha da pompa ao colocar muito vigorosamente o rap no centro da ação. É por meio da música, do improviso e da energia criativa que ela transforma o filme numa válvula de escape de frustrações e também numa peça de resistência, contra as forças que diluem e se apropriam do discurso negro para perpetuar seu poder político, econômico e social.

Lost Girls

Netflix/Divulgação

Os órfãos de Mindhunter podem ter neste filme inspirado em fatos, sobre a morte de seis mulheres na região de Long Island, um substituto digno. O filme dirigido por Liz Garbus visivelmente paga tributo a David Fincher nas suas escolhas de fotografia - cujos tons esverdeados ressaltam a morbidez - e de exploração psicológica. Lost Girls não é um marco do gênero, mas entrega um thriller decente com um bem-vindo ponto de vista feminino e corajosas escolhas de anti-clímax, tudo encabeçado pela sempre sólida atuação da atriz Amy Ryan.

As Mortes de Dick Johnson

Netflix/Divulgação

Um dos documentários mais elogiados de 2020, o filme da diretora Kirsten Johnson acompanha o drama pessoal do seu pai, que depois de perder a esposa com Alzheimer também desenvolve a doença. A “solução” encontrada pela filha para aliviar a dor da família é então registrar em filme os últimos anos da memória de Dick Johnson, ao mesmo tempo em que encena de brincadeira as tais mortes do pai, para desarmar a seriedade do luto antecipado. Tese e prática se encontram em momentos muito potentes: no papel essa elegia dos ritos de passagem já soa emocionante, e na prática, quando o luto é vivido mesmo em cena, ela se mostra realmente comovente. Um triunfo da capacidade de enfrentar a morte de frente.

 

Ya no Estoy Aquí

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Ulisses é o correlato mexicano do adolescente brasileiro que se expressa pelo passinho e faz dessa subcultura uma filosofia de vida. Como seu próprio nome já sugere, ele protagoniza uma viagem homérica, no caso uma travessia ilegal aos EUA que o deixa vulnerável em território estrangeiro. O filme de Fernando Frías de la Parra consegue oxigenar a história batida do imigrante com uma narrativa visual bem marcante, cuja estrutura não-linear exige que o público atente para as cores e formas do protagonista e seu entorno para acompanhar essa odisseia pivete sobre identidade, geografia, apagamento cultural e resistência.

 

Crip Camp

O documentário americano se vende como a história pouco conhecida de um acampamento de férias nos EUA voltado para pessoas com necessidades especiais, mas esse é só o primeiro ato. A partir de uma temporada no Camp Jened nos anos 1960, personagens variados (de paraplégicos a pessoas com danos cerebrais mais severos) passam a protagonizar o movimento pelos direitos civis dos cadeirantes, que se estende por décadas no país. No fim, o filme acaba construindo um relato muito poderoso e emocional sobre a força da coletividade, sobre como reconhecer-se em outras pessoas e humanizá-las é um meio importante de transformar a alteridade em cidadania.

 

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