A brilhante My Name prova: mania de séries coreanas não deveria parar em Round 6

Créditos da imagem: Han So-hee em cena de My Name (Reprodução)

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A brilhante My Name prova: mania de séries coreanas não deveria parar em Round 6

Novo k-drama da Netflix é história policial tensa, envolvente, brutal e com cenas de ação fantásticas

Caio Coletti
15.10.2021
15h49
Atualizada em
18.10.2021
09h17
Atualizada em 18.10.2021 às 09h17

Os 20 primeiros minutos de My Name são uma aula de dramaturgia. Enquanto acompanhamos a jovem Ji-woo (Han So-hee) sofrer bullying na escola e ser “escoltada” pela polícia, que está a procura do seu pai mafioso desaparecido, Dong-hoon (Yoon Kyung-ho), a série vai cuidadosamente nos inserindo em seu mundo, minuciosamente estilizado em fotografia de tons severos, longos takes com a câmera em movimento e transições espertas de cenário. Este é um mundo sujo, granulado, e sem dúvida violento - mas distintamente dramático, obviamente televisivo, e indisposto a negar isso.

Essa construção visual detalhista, por sua vez, permite que o desespero da personagem, sua vida inerte de adolescente abandonada à própria sorte, sua fragilidade emocional de garota que sente falta do pai, se torne palpável para o espectador em muito pouco tempo. É então que My Name desfere o seu golpe mortal (e não vale qualificar isso como um spoiler, visto que está na própria sinopse da série): Dong-hoon é morto por um homem encapuzado enquanto a filha, incapaz de ajudá-lo, está presa do outro lado de uma porta trancada - evento que engatilha a busca por vingança da nossa protagonista.

A partir daí, a nova série coreana da Netflix se mostra uma história policial espetacular, dona de um roteiro (de Kim Ba-da) que lida com todas as suas reviravoltas de maneira habilidosa - e elas são muitas! Como é do feitio da dramaturgia da Coreia do Sul, os primeiros episódios de My Name são estruturados de maneira sutilmente diferente do que estamos acostumados na TV americana, trabalhando em cada capítulo para chegar a um clímax que não é resolvido nele, nem só no final da temporada, mas nos minutos do capítulo seguinte.

Assim, a trama da série nunca chega a um ponto inerte, e o espectador nunca sente que está apenas esperando por algo. Ao invés disso, My Name faz revoluções em torno de si mesma para empurrar os personagens à frente, desenrolando as relações complicadas entre eles e os mistérios da trama em um ritmo que mantém o espectador pendurado em cada cena.

Esse envolvimento é crédito também de um elenco sólido, liderado por uma Han So-hee que comunica, com os olhos, até mais do que está no texto da série - sua Ji-woo passa por uma jornada transformadora, mesmo só nos primeiros episódios da temporada, e a atriz elabora cada passo dessa transformação com uma mistura impecavelmente equilibrada de franqueza emocional e confiança. É ainda melhor quando ela aparece ao lado de Yoon Kyung-ho, que (mesmo com poucos momentos em cena, incluindo flashbacks) deixa uma impressão bastante forte ao viver o pai da protagonista.

O ingrediente final dessa alquimia perfeita de My Name é a direção virtuosa de Kim Jin-min (responsável por Extracurricular, outro k-drama da Netflix), que escapa de armadilhas fáceis do gênero policial e continua nos surpreendendo conforme as sequências, tanto as de ação quanto as mais dramáticas, se desenrolam. 

Em uma invasão policial a um navio, por exemplo, ele abusa de câmeras em primeira pessoa para referenciar a linguagem dos videogames e inserir o espectador na ação; já em uma montagem usada para indicar a passagem do tempo, esbanja elegância ao usar letreiros apagados por trás de silhuetas em alto contraste; e, ao reintroduzir um vilão no terceiro episódio, Jin-min faz com que ele olhe diretamente para a câmera e fale como se estivesse se dirigindo a nós. O resultado desses e muitos outros momentos é que My Name nunca se torna esteticamente previsível.

O novo k-drama da Netflix não é uma repetição do mega-hit Round 6 - apesar de também sombrio, e inclinado ao uso de quantidades copiosas de sangue cenográfico, falta-lhe a ambientação distópica e o afiado viés social. Para os milhões que se viram fisgados pela TV coreana com a obra de Dong-hyuk Hwang, no entanto, My Name é uma oportunidade perfeita para revelar de vez a riqueza, a diversidade e a excelência da dramaturgia do país asiático.

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