Julie e os Fantasmas, série brasileira que foi adaptada pela Netflix em Julie and the Phantoms

Créditos da imagem: Julie e os Fantasmas/Divulgação

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Julie and the Phantoms | Como a série brasileira se compara com a adaptação

Revisitamos a versão nacional do novo hit da Netflix, contamos quais as principais diferenças e como foi o último episódio

Henrique Haddefinir
27.09.2020
20h38

Quando Julie e os Fantasmas estreou na Band em 17 de outubro de 2011, provavelmente ninguém envolvido com o projeto imaginaria que quase dez anos depois a televisão teria evoluído para os serviços de streaming, e que no mais pioneiro deles uma versão americana da mesma série estrearia com ares de grande produção, fazendo o caminho inverso: o Brasil era quem buscava por modelos passíveis de reprodução, mas agora eram os gringos que vinham pedir permissão para usar as nossas asas. É claro que a própria Julie e os Fantasmas já era uma tentativa de invocar os deuses dos musicais adolescentes. Mas, fatos são fatos. Os “copiados” fomos nós.

O sucesso da versão americana trouxe à tona uma curiosidade natural acerca da versão brasileira. Julie e os Fantasmas era exibida primeiro na Band e alguns dias depois na Nickelodeon. A série era produzida pela Mixer e tanto a rede aberta quanto a fechada formavam uma parceria para colocar a atração de pé. A concorrência em torno do gênero era imensa na época. High School Musical já tinha acontecido, Glee estava no ar, eram muitas atenções e uma linguagem nacional com uma severa limitação orçamentária e muito pouco cuidado na direção artística. Julie e os Fantasmas teve uma única temporada de 26 episódios, que foi dividida em duas partes.

Aqueles que quiserem conhecer completamente a série não vão precisar passar tanto tempo em frente ao player, mas aqui já nos adiantamos e separamos as principais diferenças entre as duas obras; e com direito a um plus: no final do texto, contamos para vocês como a série nacional terminou.

Julie / Julie

Julie e os Fantasmas/Divulgação

A série brasileira, criada por Paula Knudsen, Tiago Mello e Fábio Danesi tem uma premissa hollywoodiana, mas pintada com cores frias. O ambiente hiper colorido do High School americano aqui dá lugar a uma realidade de ensino médio brasileiro, onde a maioria das escolas exige uniformes e ninguém pode ficar por aí dando uma de Marissa Cooper. A primeira grande diferença entre ela e a adaptação de Kenny Ortega é que a nossa classe média é muito diferente da classe média dos Estados Unidos. O clima é outro.

A Julie vivida por Mariana Lessa se muda para uma casa nova, enquanto a Julie de Madison Reyes já mora na casa onde tudo acontece há um tempo. Nos fundos da casa da Julie brasileira há um quarto separado e é lá que ela dorme. No primeiro episódio da versão americana Julie está afastada da música depois da morte da mãe, enquanto na versão brasileira Julie nunca tentou trabalhar com música, embora esse sempre tenha sido seu sonho. Quando ela tenta fazer uma audição para vocalista de uma banda, ela se complica, é humilhada e decide desistir de tudo.

No Brasil, Julie era apaixonada por Nicolas (Michel Joelsas). A Julie americana é apaixonada por Nick (Sacha Carlson). Ambas não são muito boas em administrar esses sentimentos, mas a versão brasileira se dedica muito mais a explorar esse romance. Há episódios inteiros focados totalmente nisso. É por causa de Nicolas que Julie se dá mal na audição e chega em casa arrasada. Ao tocar um disco de vinil antigo, os fantasmas surgem para ela; e estão neles as maiores diferenças entre as duas produções.

Fantasmas / Phantoms

Julie e os Fantasmas

Quase tudo com relação aos fantasmas é muito diferente. Semelhante mesmo apenas o fato de que são três, e que um deles, Daniel (Bruno Sigrist), é apaixonado por Julie. Enquanto na versão americana a banda dos meninos se chamava Sunset Curve e tinha uma vibe muito juvenil; a banda da versão brasileira se chamava Apolo 81 e existiu nos anos 80, o que influenciou não só esse título (numa década cheia de grandes missões espaciais) quanto o visual deles. Os fantasmas brasileiros tem cabelos exagerados, lápis preto nos olhos e passam uma energia mais adulta e sombria. O figurino também é bastante oitentista e eles usam uma maquiagem pálida durante a série inteira. Não é impossível compará-los com integrantes do The Cure.

Os fantasmas da Julie americana só transmitem a ideia de morte porque atravessam as coisas (efeito que a versão brasileira tem limitações para explorar). Os meninos tem a pele ótima, são muito alegres e trocam o tempo todo de roupa, coisa que os fantasmas brasileiros não fazem. As mortes deles também foram diferentes: os americanos morreram com cachorro-quente estragado quando começavam a fazer sucesso, já os brasileiros morreram atropelados tentando imitar a capa do álbum dos Beatles e nunca foram conhecidos.

Contudo, a diferença mais gritante está no que dá à série sua identidade. Quando a Julie americana toca com os fantasmas eles se tornam visíveis para os humanos como se fossem hologramas. Isso não acontece na versão brasileira. Quando a nossa Julie toca com os fantasmas eles só se tornam visíveis porque são cobertos com outras roupas e usam máscaras de animais (o que acontece lá pelo episódio 7). Ou seja, ainda que com todos os problemas orçamentários, os roteiros brasileiros se preocuparam mais com o mínimo de coerência.

Band / Netflix

A mudança no tom das narrativas modernas também afeta a comparação entre as duas obras. A Julie de Madison é determinada, tem uma presença marcante e o fato de ser uma cantora de verdade transmite mais segurança. Mariana Lessa, a Julie brasileira, é uma atriz que canta e isso acabou se refletindo no tom das canções, que são mais minimalistas e sem o senso de espetáculo que a versão americana sustenta. A nossa Julie também é muito mais insegura e sua narrativa se apoia demais em sua vida amorosa.

Outro traço muito marcante dessa diferença de abordagens narrativas está na própria escalação. O elenco de Julie e os Fantasmas é impressionantemente branco, enquanto o de Julie and the Phantoms revela talentos de diversas etnias. Além disso, embora o texto brasileiro seja melhor que o americano em vários momentos, ele não é defendido por atores realmente dirigidos. Como acontece muito no nosso território, os diretores dirigem a cena e não os artistas. Todo o elenco de Julie e os Fantasmas é apático, inexpressivo e monocórdio.

Julie e os... que estão em volta

A versão americana da série repetiu quase todo o time de coadjuvantes. A Julie brasileira também vive com o pai e o irmão esperto, mas o pai da versão americana reproduz um modelo recorrente em comédias familiares e está sempre disponível para conversas profundas e otimismo infinito. A melhor amiga da Julie brasileira também está ali para o que der e vier, mas Bia (Samya Pascotto) não foi concebida da mesma maneira que Flyn (Jadah Marie), com as cores fortes de um alívio cômico moderno. A rival de Julie, Thalita (Milena Martines), ocupa a posição que fica com Carrie (Savannah Lee May) na versão estadunidense. Contudo, o plot que envolve o pai de Carrie como um dos membros antigos da banda não existe.

Em Julie and the Phantoms o ator Cheyenne Jackson tem uma importante posição de vilão, mas em Julie e os Fantasmas os meninos mortos não sofrem esse tipo de perseguição. A série brasileira, na verdade, trabalha com a ideia de regras que os fantasmas precisam seguir e que são fiscalizadas por uma espécie de "polícia espectral". Eles não podem aparecer para os humanos, por exemplo, ou sofrerão punições. Essa também foi uma forma de conseguir limitar as ações dos fantasmas ao mínimo exigido dos efeitos especiais.

Começo / Final

Com apenas 26 episódios no ar, Julie e os Fantasmas fez o que podia para continuar se contando gastando o mínimo para tirar o máximo. Enquanto os números musicais da versão americana são grandiosos e a história se permite viagens mais eloquentes pela fantasia, a versão brasileira se engessou no enredo romântico e o último episódio exibido na Band em 4 de maio de 2012 pareceu um final de novela que se resolveu em menos de 22 minutos.

Basicamente, toda a ação do finale de Julie e os Fantasmas se baseou na resolução do triângulo amoroso entre Julie, Daniel e Nicolas. O texto da produção até que enveredou pela questão metafísica que a paixão entre um fantasma e uma viva conseguia invocar. Mas, sem saída para justificar a concretude desse romance, os roteiristas resolveram fazer Daniel, o fantasma, agir com inconsequência e egoísmo, assustando Nicolas e o ameaçando, para afastá-lo da amada. Assim, o enredo buscava uma torcida do público por Nicolas, já que uma interação entre Julie e Daniel era impossível em muitas escalas.

Então, aconteceu como em toda novelinha juvenil que se preze. Nicolas se afastou, Daniel se sentiu culpado, Nicolas se arrependeu, desistiu e se declarou para Julie. Ela o beijou no pátio do colégio e numa conversa rápida e simples, no quarto da protagonista, Daniel aceitou o namoro da amada com seu rival e ainda permaneceu na banda. Sua ação inconsequente de manipular um vivo para seus próprios objetivos não encontrou consequências e a história terminou abrupta, como se fosse a coisa mais fácil do mundo resolver uma paixão impossível com um papo de 2 minutos.

Assim, sem cara de final, Julie e os Fantasmas chegou ao final. A versão americana vai claramente explorar as mesmas possibilidades de envolvimento romântico. Mas, considerando que os fantasmas trocam de roupa, que seus instrumentos somem e aparecem com eles e que seus espectros só atravessam coisas quando convém, não é impossível que o final também siga em outra direção, encontrando uma maneira de tornar realidade o amor entre Julie e Luke. Novos fãs terão a chance de acompanhar esse dilema e fãs antigos de assistirem um novo fim. Porém, se a série continuar seguindo a correnteza das histórias do nosso tempo, talvez tenhamos a sorte de ver uma terceira possibilidade: Julie vai ser uma estrela... e ponto.

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