Cena de De Volta às Raízes (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de De Volta às Raízes (Reprodução)

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De Volta às Raízes vende bem seu paraíso, mas não sabe fazer uma boa novela nele

Protagonistas carismáticos e locação charmosa ficam perdidos em meio a equívocos do texto

Omelete
5 min de leitura
09.01.2024, às 13H35
ATUALIZADA EM 15.02.2024, ÀS 14H21
ATUALIZADA EM 15.02.2024, ÀS 14H21

O mundo das comédias românticas (e especialmente o mundo dos telefilmes românticos) está entupido de histórias sobre jovens profissionais urbanos que, por um motivo ou por outro, precisam retornar às cidadezinhas fim-de-mundo onde nasceram, onde invariavelmente encontram (ou reencontram) um grande amor, além de aprender (ou reaprender) o valor da vida mais tranquila e da comunidade mais unida desses lugares. É um chavão que se tornou pervasivo por ser fácil de reproduzir, é claro, mas também por conversar bem com dois públicos distintos: o jovem que saiu do ninho para encarar a vida cheia de ansiedades da grande cidade, e o interiorano de meia-idade que acredita piamente na pureza superior do modo de vida provinciano.

De Volta às Raízes, k-drama que tem escalado o top 10 da Netflix nas últimas semanas, quer transportar esse clichê bem-sucedido para o contexto da novelinha sul-coreana. É claro que ele não é o primeiro a fazer isso (o romance “campestre” já é quase um subgênero da produção televisiva do país), mas ainda é curioso compará-lo com suas contrapartes estadunidenses, especificamente pelo que ele faz de muito melhor do que eles: nos convencer de que a vida na cidadezinha para onde sua protagonista está voltando a contragosto de fato tem seus charmes.

Ambientada em Samdal-ri, um vilarejo tranquilo na ilha de Jeju, destino turístico famoso da Coreia do Sul, De Volta às Raízes encontra uma miríade de prazeres estéticos e dramáticos na sua locação. O diretor Cha Young-hoon (Clima do Amor) tira o melhor das paisagens litorâneas paradisíacas da série - se precisamos acompanhar um ônibus viajando pela cidadezinha, ele trata de fazê-lo através de uma tomada aérea que destaca as estradinhas ladeadas pelo mar azulíssimo de Jeju; se nosso protagonista está refletindo sobre o passado durante uma pausa do trabalho, pode apostar que ele fará isso no topo de uma colina com visão privilegiada do horizonte e da pista de decolagem do aeroporto local, os aviões despontando diante de um Sol escaldante (mas nunca sufocante).

A roteirista Kwon Hye-joo (Uma Segunda Chance), enquanto isso, sabe quais espaços frequentar e quais atividades nos mostrar para que Samdal-ri pareça mesmo um local encantador de se viver. São estabelecimentos familiares onde se vende de tudo e se trabalha em equipes pequenas e próximas, incluindo a mão de obra imigrante; grupos de cidadãos mais velhos que mantém viva uma tradição de respeito à natureza diante da depredação do turismo e da urbanização; ruas estreitas salpicadas por casas de família, onde vizinhos de longa data se visitam no meio da tarde e ninguém tranca seus portões durante o dia; festas de rua que mobilizam vizinhanças e ocupam espaços públicos com muita música e comida.

É um esforço persuasivo, enfim, que inexiste nos romancezinhos provinciais de Natal ou Dia dos Namorados que a Lifetime, o Hallmark Channel e a própria Netflix produzem aos montes todos os anos. Tanto por seu orçamento irrisório quanto por seu baixíssimo esforço expressivo, esses filmes frequentemente mostram a vida interiorana dos EUA como uma sucessão interminavelmente chata de escritórios quadradões de parede cor-de-creme ou - no máximo - casinhas e casarões decorados com a mesma medida de personalidade empregada na loja de móveis classe média localizada no shopping mais perto de você. 

Pouco sabemos ou entendemos da vida comunitária desses lugares, e portanto pouco empatizamos com a eventual decisão final da protagonista, que invariavelmente resolve largar sua existência urbana independente em favor de sua recém-descoberta preferência pelo interior. No caso de De Volta às Raízes, se a fotógrafa Cho Sam-dal (Shin Hye-sun, de Vejo Você na Próxima Vida) escolher mesmo ficar na ilha de Jeju… bom, eu não seria capaz de culpá-la. Uma pena, portanto, que toda a dramaturgia que a série coloca ao redor desse dilema seja tão pouco inspirada.

Quando ensaia um humor pastelão, por exemplo (o que faz de forma intermitente durante os episódios iniciais), a série perde a mão da caricatura e esbarra na indignidade. É o que acontece quando a protagonista Cho toma um porre logo depois de ser traída pelo namorado e chega no apartamento que divide com as três irmãs implorando por mais álcool. Shin Hye-sun se mostra uma daquelas atrizes que mergulham admiravelmente fundo naquilo que os roteiros pedem delas, esperneando pelo chão acarpetado do apartamento como uma criança contrariada só para depois cair num choro magoado que, se convence um pouco que seja, é por mérito da intérprete, e não do texto.

Em outro momento, dois amigos de longa data das irmãs as descrevem para um novato em Samdal-ri, caracterizando-as como “a forte, a louca e a atrevida”. Aqui, De Volta às Raízes filma as cenas descritas pelos amigos como uma história em quadrinhos ou filme de artes marciais dos anos 80, com as atrizes congeladas em poses ridículas em um canto da tela enquanto os eventos das suas infâncias se desenrolam em outro. Essa tentativa de encobrir de humor a forma como recorre a estereótipos cansados de feminilidade é típica da preguiça narrativa que se mostra quando a série se aproxima de outros gêneros.

Cena de De Volta às Raízes (Reprodução)
Cena de De Volta às Raízes (Reprodução)

No drama social, ela esbarra timidamente em uma discussão sobre o discurso tóxico das redes sociais, e ainda rascunha algo sobre as relações de trabalho que deterioram em um contexto de pressão capitalista pelo sucesso a qualquer preço. Mas a crueza e falta de insight dessas desventuras temáticas da série, que poderiam se passar por ousadias folhetinescas em outro contexto (afinal, novelas sempre tiveram a prerrogativa de levantar questões sociais, ao invés de realmente explorá-las), aqui soam como disfarce pouco convincente para uma visão sorrateiramente conservadora das situações e personagens que integram sua trama. 

Enfim, De Volta às Raízes simplesmente não encontra nenhuma base narrativa sólida na qual apoiar a sua exploração de um filão já tão saturado, e portanto tão desesperadamente necessitado de histórias que o façam vital novamente. Ao menos nesse início de temporada, a astúcia marketeira da sua ambientação faz pouco para redimir esta novelinha que não acerta o básico da receita de sucesso que está seguindo.

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