Imagem das protagonistas de Valeria

Créditos da imagem: Valeria/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Valeria - 1ª temporada

Com ares de Sex and The City, série espanhola acerta ao mostrar os vários problemas da vida adulta

Camila Sousa
12.05.2020
16h22

Em um primeiro momento, não é difícil comparar Valeria, nova série espanhola da Netflix, com a clássica Sex and The City. A trama mostra quatro amigas entre 20 e poucos e 30 anos, que lidam com todos os desafios dessa época da vida. A protagonista é uma escritora que sonha em viver do seu trabalho (Carrie/Valeria); há uma amiga que gosta (muito) de ficar com vários rapazes (Samantha/Lola); outra é mais séria e lida com questões na carreira (Miranda/Nerea) e a última é agitada e um pouco distraída, mas com bom coração (Charlotte/Carmen). No entanto, tais semelhanças não impedem que a série encontre sua personalidade própria e faça um retrato muito fiel e divertido da realidade dessas mulheres.

Começando com a protagonista, Valeria (Diana Gómez) é bem diferente de Carrie Bradshaw e traz discussões muito interessantes jamais abordadas na outra produção. Casada com Adrián (Ibrahim Al Shami J.) há alguns anos, a personagem vive um momento de desconexão com o companheiro. Se antes os dois passavam momentos divertidos juntos, agora há receio em cada frase dita, um medo interno de que uma palavra seja mal interpretada e leve à uma grande briga.

Tal desgaste faz com que ela se sinta atraída por Víctor (Maxi Iglesias), alguém que parece lhe ouvir e compreender de uma forma diferente, entregando tudo o que Valeria não encontra mais em seu relacionamento. O triângulo amoroso é uma parte grande da primeira temporada da série, rendendo momentos de tensão, sensualidade e humor, especialmente quando Valeria tenta se esquivar de Víctor e os dois têm momentos engraçados de desencontros. No entanto, o maior acerto da produção é sair do óbvio e mostrar como o momento vivido por ela vai além de questões no relacionamento.

A crise com Adrián, na verdade, reflete um momento de mudança de vida. Valeria está cansada das dificuldades para se tornar uma escritora publicada e de sucesso; está cansada de ser considerada “perdida” por sua família aparentemente perfeita; está cansada, acima de tudo, das pressões de como uma mulher perto dos 30 anos deve ser, com família, filhos e sucesso na carreira. Na vida real, é muito difícil conquistar todas essas coisas e a protagonista está esgotada de ser julgada mais por seus erros do que por seus acertos.

A forma como o triângulo romântico se encerra também é certeira, focando especialmente em o que Valeria quer para seu novo momento de vida. Para os mais românticos, a série também faz um belo retrato sobre como o amor começa e termina, passando por fases difíceis, até o momento em que a ruptura é inevitável, ainda que ela doa totalmente. A criadora María López Castaño (Tierra de Lobos) tem muita sensibilidade ao retratar tal momento, que com certeza gera identificação com qualquer pessoa que tenha passado por isso.

Julgamentos e amizades

Se o primeiro pilar da série é o triângulo romântico entre Valeria, Adrían e Víctor, o segundo é a amizade entre as protagonistas, que também passa longe de ser perfeita. Valeria, Lola, Carmen e Nerea brigam por vários motivos, muitas vezes julgam umas às outras em momentos de conflito, mas o seriado deixa claro que todas estão dispostas a se perdoar no final do dia. Cada uma delas está lá pela outra e isso dificilmente vai mudar. Enquanto o amor muitas vezes nasce e morre, a amizade tem um poder de transformação imenso.

Ter mulheres diferentes no centro da narrativa também ajuda Valeria a diversificar as discussões. Começando por Lola, a personagem de Silma López tem uma grande questão com sua mãe, que deixou a família para seguir um sonho na carreira. A questão é agridoce e traz um questionamento difícil: a mãe de Lola errou ao abandonar a família, mas ela também não teria direito a seguir seus sonhos? A ausência, claro, causou efeitos na jovem, que tem um momento intenso de confronto e deixa claro como busca suprir a falta da mãe em várias outras coisas.

A narrativa de Nerea (Teresa Riott) é focada em sua carreira, ainda totalmente ligada aos pais, e ao fato da personagem ser lésbica e ainda não ter revelado isso a eles. Com Nerea, Valeria discute preconceito, inclusive de pessoas próximas, e identidade. Quando começa a se interessar por mulheres, a personagem sente a necessidade de estar mais perto disso e conviver com outras lésbicas. Em muitos momentos, Nerea se sente perdida em discussões trazidas por Valeria e sente que as amigas a afastaram também. Como dito anteriormente, tudo é resolvido entre elas no final, mas o tema é um dos mais enriquecedores da temporada.

Já a espevitada Carmen (Paula Malia) traz à tona as diversas inseguranças com as quais mulheres crescem, muitas vezes impostas por padrões da sociedade, e que podem custar muito caro em momentos decisivos. Quando se envolve com alguém do trabalho, Carmen teme que seu sucesso ofusque o amado, que pode se sentir “diminuído” por isso. No entanto, o rapaz não sofre da mesma preocupação e aceita sem pestanejar o que acha que é melhor para ele. O carisma da personagem dá tons divertidos à discussão, mas os olhos mais atentos vão perceber que há muitas camadas nessa trama.

Valeria também encontra momentos para ser divertida e sensual, mostrando cenas de sexo sem pudor ou receio de focar no prazer de suas protagonistas. Em um mundo em que tramas adolescentes tomam conta dos serviços de streaming, falando sobre uma época que realmente é cheia de dificuldades, é reconfortante ver uma série que não tem medo de falar também sobre as alegrias e dramas de ser uma mulher perto dos 30 anos. Se ganhar uma 2ª temporada, Valeria tem potencial para se aprofundar em vários outros temas relevantes, mesclando o drama e o humor na medida certa. 

Nota do Crítico
Ótimo