Ellie Kemper e Daniel Radcliffe em Kimmy vs. the Reverend

Créditos da imagem: Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy x Reverendo

Netflix

Crítica

Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy x Reverendo

Especial interativo aquece o coração com o retorno do humor certeiro e adorável da série, mas não dá muita brecha para o espectador mudar de verdade os rumos da história

Mariana Canhisares
11.08.2020
16h39

Em um dos episódios finais de Unbreakable Kimmy Schmidt, a otimista protagonista (Ellie Kemper) e Titus (Tituss Burgess) imaginam como seriam suas vidas se tivessem tomado decisões diferentes, isto é, se ela não tivesse entrado na van do Reverendo (Jon Hamm) e ele tivesse perdido o teste para O Rei Leão na Broadway. A resposta foi simples: eles seriam outras pessoas - Sr. e Sra. Héteroman, para ser mais específica -, mas seus caminhos se cruzariam de qualquer maneira. Por causa dos “ensinamentos” da Cosmetologia, paródia da controversa Cientologia, eles até acreditariam ser donos do próprio destino, porém no fundo seu encontro era inevitável. Eles não tinham escolha de verdade.

A interatividade do especial inédito da série, intitulado Kimmy x Reverendo, funciona mais ou menos na mesma lógica. Ainda que a produção ofereça alternativas numerosas ao longo da trama da investigação de Kimmy sobre um possível novo bunker com mais mulheres toupeiras, nenhuma decisão muda significativamente o final da história. O destino é, em última instância, o mesmo.

Em linhas gerais (há, sim, exceções), o especial usa os pontos de escolha como oportunidades de oferecer mais variedade de piadas ao espectador, fazendo somente pequenos desvios no seu itinerário. Por exemplo, escolher entre esperar o Uber ou ir andando não muda de verdade os rumos da aventura de Kimmy e Titus. Dependendo da sua decisão, você vai ter um caminho mais burocrático ou um resultado, no mínimo, inesperado - principalmente, se você insistir nele. No entanto, mesmo indo na alternativa menos convencional você será redirecionado para a opção “correta”.

Quando o rebobinar não é automático, personagens da série aparecem na sua tela julgando suas decisões. “Você fez a escolha errada” e “como você é irresponsável!”, dizem eles antes de te oferecerem uma segunda chance. Estes momentos, embora claramente tenham uma função cômica, acabam enfatizando que há sim uma narrativa pré-determinada a se acompanhar.

Dito isso, vale notar que Kimmy x Reverendo é bem menos frustrante que o filme interativo de Black Mirror, Bandersnatch. Primeiro, pelo óbvio carisma do mundo e dos personagens criados por Tina Fey e Robert Carlock. Depois, porque o uso do recurso para fazer piadas meta funciona. Com a acidez de figuras como Titus e o descaramento de alguns trechos do roteiro - Lillian (Carol Kane) e Cyndee (Sara Chase) lembrando quem é quem para o espectador, por exemplo -, a experiência se torna efetivamente divertida. E, como consequência, todo o “rebobina e faz de novo” fica menos cansativo.

No entanto, a sensação de uma pretensa interatividade se mantém, principalmente se o espectador teve qualquer experiência prévia com jogos como Life Strange, em que realmente uma decisão muda completamente o rumo da vida da personagem. Com a “gamificação” sendo feita pela metade, é difícil não se questionar sobre a necessidade desse recurso. Se a história tem um desenvolvimento pré-definido, por que não fazer apenas mais um episódio?

Interatividade à parte, como é bom revisitar a vida colorida de Kimmy Schmidt. É verdade que a história em si não desenvolve a protagonista e seus amigos para além do que foi feito nas quatro temporadas da série. Na realidade, o especial parece até um último capítulo de novela, trazendo a tradicional última cartada do vilão e um casamento para celebrar a vitória da mocinha. Mas os trocadilhos acidentalmente sujos da personagem de Kemper, as táticas de guerrilha de Lillian para resolver problemas mundanos, a atitude de diva de Titus e a ambição atrapalhada de Jacqueline estavam fazendo falta, e tê-los novamente em um episódio inédito aquece o coração.

Não bastasse isso, a adição de Daniel Radcliffe foi brilhante. Interpretando o noivo de Kimmy, o príncipe Frederick, o ator se encaixou perfeitamente ao ritmo do elenco e mostrou, mais uma vez, que leva muito jeito para a comédia. Se fosse a intenção de Fey e Carlock continuar a série, seria um absurdo não incluir o ator nos novos episódios. É como se ele sempre tivesse feito parte do grupo.

Ainda que sofra com as experimentações da Netflix e seu projeto de interatividade, o especial dá à Kimmy o felizes para sempre que ela merece. Pode não ser a despedida perfeita para personagens tão adorados, mas certamente é uma bela maneira de celebrar o legado de uma comédia tão original que, com o absurdo e a acidez, nos ensinou a ser mais otimistas.

Nota do Crítico
Bom