Imagem de Troco em Dobro

Créditos da imagem: Troco em Dobro/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Troco em Dobro

Veia cômica do elenco entrega bons momentos, mas não resolve o problema da previsibilidade

André Zuliani
08.03.2020
10h07

Mark Wahlberg é o tipo de ator que evita correr riscos. Não estamos falando aqui de riscos reais - seu currículo é prova de que filmes de ação são sua especialidade. A verdade é que, mesmo quando estrela comédias, seus personagens têm quase sempre as mesmas características: turrão, sério e irônico; entre socos e chutes, uma piadinha para quebrar o gelo. Pontuar isso não é menosprezar o seu talento - e Wahlberg tem uma indicação ao Oscar para prová-lo. O problema dessa falta de pluralidade é a impressão de estarmos vendo a mesma interpretação: o policial carrancudo ou o justiceiro injustiçado. Troco em Dobro (Spenser Confidential), seu primeiro longa original na Netflix, segue o mesmo caminho.

A trama é uma adaptação livre do romance Wonderland, escrito por Ace Atkins e que continua a história do detetive Spenser, criado por Robert B. Parker e protagonista de uma série de livros. No filme, Wahlberg dá vida ao personagem: um policial com um forte código moral. Durante a investigação do assassinato de uma mulher, ele começa a acreditar que o chefe de polícia de seu distrito John Boylan (Michael Gaston) está envolvido no caso. Ao confrontar seu superior, Spenser o agride e é condenado a cinco anos de prisão.

Logo nos primeiros minutos já compreendemos que se trata de um filme com a cara do ator. Sua imponência ao enfrentar o chefe é característica de seus personagens e a introdução termina com a piadinha que não poderia faltar, quando Spenser responde à juíza que o sentenciou: Ele mereceu. Após cumprir sua pena, o agora ex-policial tenta retomar a vida e retorna para seu “lar”, um quarto alugado na casa de Henry (Alan Arkin), seu antigo treinador de boxe. Antes que conseguisse se aconchegar na cama, percebe que não é o único morando no local e agora divide quarto com Falcão (Winston Duke), um brutamonte de poucas palavras que se tornou o novo aprendiz de seu mentor. No dia seguinte à sua saída, descobre-se que, na mesma noite, Boylan foi assassinado sob circunstâncias suspeitas, e um policial, o qual ele sabia ser honesto, também foi encontrado morto. Aqui nos deparamos com mais um elemento de suas produções: domado por um agudo senso de justiça, Spenser decide investigar por conta própria o que está acontecendo. Para isso, ele conta com a ajuda de Falcão, Henry e sua ex-namorada, Cissy (Iliza Shlesinger).

Wahlberg não poderia estar mais confortável em Troco em Dobro. Além de viver um personagem familiar, é sua quinta colaboração com o cineasta Peter Berg. Em comparação com as quatro anteriores, pouco mudou: umas com mais piadas, outras com menos, mas sempre com o herói que está lá para salvar o dia. Até a cidade onde a trama é situada faz com que ator e diretor se sintam em casa. Nascido e criado em Boston, o astro protagonizou O Dia do Atentado, longa dirigido por Berg sobre o ataque terrorista à famosa Maratona de Boston, em 2013.

Estar em uma grande zona de conforto rende bons momentos à adaptação. A veia cômica do elenco é um alento - e a experiência de Wahlberg e Arkin em comédias facilita o entrosamento. Até mesmo o veterano ator, que possui uma carreira mais diversa em comparação ao protagonista, parece estar reinterpretando um personagem conhecido, fazendo piadas em relação à idade avançada (como em O Método Kominsky) e lembrando um treinador de boxe septuagenário (o rabugento Louis de Acerto de Contas). As cenas de ação também têm méritos por não depender sempre de efeitos visuais. Acostumados com combates, Wahlberg e Duke abusam de seus condicionamentos físicos para entregar coreografias de lutas bem sincronizadas.

Como diria o famigerado funk de Thiaguinho MT: piadas estão ok, cenas de luta estão ok. O produto final, no entanto, fica aquém do que esses detalhes poderiam proporcionar. Previsibilidade não necessariamente significa que um filme seja ruim, o problema é quando quase todos os elementos que o sustentam são previsíveis. Diferente de O Dia do Atentado, Troco em Dobro não é baseado em fatos, mas é possível entender quem é o vilão e para onde a história está sendo conduzida sem ser necessária uma visita ao Google. Em certo momento, sua moralidade chega a beirar o irreal, com direito a frases clichês como é o certo a se fazer”.

Sem surpresas, o final ainda deixa espaço para o que pode ser o início de uma nova franquia à la A Hora do Rush. Histórias não faltam: a série escrita por Parker contém dezenas de livros sobre Spenser - resta saber se o público ainda terá em interesse em ver Mark Wahlberg sendo Mark Wahlberg.

Nota do Crítico
Regular