Pôster de Três Metros Acima do Céu

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Netflix

Crítica

Três Metros Acima do Céu - 1ª temporada

Nova série da Netflix é adaptação genérica e sem substância de best-seller italiano

André Zuliani
10.05.2020
12h55
Atualizada em
11.05.2020
11h10
Atualizada em 11.05.2020 às 11h10

Três Metros Acima do Céu é uma série que você já assistiu antes. Mesmo que deixemos de lado o fato de ser uma adaptação do best-seller homônimo do escritor italiano Federico Moccia – um grande sucesso entre os jovens da Itália -, a história de um casal de mundos diferentes que se apaixona instantaneamente já foi contada e recontada inúmeras vezes. Se a produção da Netflix se diferencia por ser uma releitura atual do livro de Moccia, a sensação ao assistirmos aos oito episódios é de estarmos vendo mais uma série teen dos EUA – e de qualidade questionável.

Desenvolvida pelos showrunners Anita Rivaroli e Mirko Cetrangolo, a adaptação do serviço de streaming repaginou até mesmo os nomes dos personagens do romance. A trama sai da capital Roma e vai para o litoral Adriático italiano, famoso por suas belas praias muito procuradas por turistas. Essa nova versão da história é responsável por mudanças interessantes na narrativa. Aqui, a protagonista Summer (Rebecca Coco Edogamhe) é negra em uma cidade quase 100% branca. Ela vive com sua mãe, Isa (Abgail Boucher), e sua irmã, Blue (Alice Ann Edogamhe), em uma cidadezinha litorânea que ganha vida apenas durante o verão europeu. Diferente de seus melhores amigos Edo (Giovanni Maini) e Sofia (Amanda Campana), Summer não se sente à vontade com a chegada da estação e procura um emprego temporário para evitar passar suas férias na praia. A história do seu verão muda quando ela conhece o motoqueiro Alessandro (Ludovico Tersigni), um prodígio do motociclismo que desiste de competir após o trauma de um grave acidente.

Em termos de comparação, mesmo que seja uma releitura atualizada de um livro lançado em 1992, Três Metros Acima do Céu se aproxima mais de séries como The O.C. e Dawson’s Creek (e, por que não, Barrados no Baile?), lançadas a muitos anos, do que qualquer outra produção mais recente. E mesmo com temais atuais como o romance inter-racial entre Summer e Ale ou as relações homo afetivas de Sofia, o enredo principal carece de substância para atrair um interesse maior por seus personagens. A aproximação do casal principal é feita de maneira forçada, quase perceptível, e custa ao público acreditar que apenas uma conversa de poucos diálogos foi o bastante para criar a atração que deveria carregar a trama principal.

Com oito episódios, o desenvolvimento genérico de diversos personagens deixa a narrativa arrastada, como se os roteiristas sentissem a necessidade de adicionar coadjuvantes apenas para que alguém do elenco principal não ficasse sem um par romântico. As exceções ficam por conta de Sofia e Dario (Andrea Lattanzi), o melhor amigo mecânico de Ale. Amanda Campana cria uma personagem multifacetada, que enfrenta questões interessantes ao desenvolver sua sexualidade ao mesmo tempo em que tenta lutar com a paixão não correspondida de seu grande amor. Já Lattanzi, além de um dos mais carismáticos de todo o elenco, tem espaço para humanizar o seu personagem e mostrar que sua sensibilidade tem muito mais a acrescentar do que a rebeldia do protagonista.

Por ser gravada em uma cidade costeira, a produção abusa das paisagens ensolaradas do litoral Adriático e de paletas coloridas para entregar uma das melhores fotografias de qualquer série teen do serviço de streaming. A trilha sonora também tem um papel de destaque na narrativa ao se encarregar de nos transitar pelas diferentes emoções da protagonista e estabelecer um paralelo de sua personalidade - um jazz antigo nos momentos de tristeza, um pop italiano nos bons momentos com os amigos. Summer, que por sua vez ganhou o nome em homenagem à música “Summertime” (também é o título em inglês da série), eternizada nas vozes de Louis Armstrong e Ella Fitzgerald. Já Blue, a irmã mais nova, recebeu o nome pelo clássico disco Kind of Blue, de Miles Davis.

Diferente do livro de Moccia, Três Metros Acima do Céu explora o drama do amor adolescente nas várias facetas que encontramos durante um romance de verão. Há o casal que se apaixona sem pensar no amanhã, o que valoriza o poliamor, o que vive a experiência com a consciência de que será finita. Quando as relações entre os personagens se tornam bem estabelecidas, a produção ganha estabilidade e encaminha uma conclusão mais realista e sóbria do que foi exibido antes. Se grande parte da narrativa foi genérica, o amadurecimento dos personagens se torna palpável em seus momentos finais. A vida, como explicada em breve diálogo, não acaba ao final da estação: “Os verões passam, os sentimentos passam e a gente cresce”.

Nota do Crítico
Regular