Henry Cavill como Geralt de Rivia em The Witcher, da Netflix

Créditos da imagem: The Witcher/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

The Witcher - 1ª Temporada

Série da Netflix é uma ótima adaptação da obra de Andrzej Sapkowski, fiel ao ponto de herdar até os problemas dos contos originais

Arthur Eloi
20.12.2019
18h39
Atualizada em
20.12.2019
18h58
Atualizada em 20.12.2019 às 18h58

The Witcher é um caso inusitado de sucesso. A saga começou sem pretensão alguma, com o autor Andrzej Sapkowski criando o bruxo Geralt de Rivia e seu universo apenas para participar de um concurso de contos. Para complicar mais, tudo isso aconteceu durante a década de 1980 na Polônia, isolada do resto do mundo. O fato de que a história rodou o globo, ganhou uma prestigiada trilogia de videogames e, agora, uma série estrelada por Henry Cavill na Netflix, é um enorme marco de sorte e talento.

Para a primeira temporada, a trama revisita justamente a origem de tudo: os vários contos que Sapkowski escreveu até o começo da década de 1990, compilados em O Último Desejo e A Espada do Destino. O foco é a figura de Geralt (Cavill), um mutante altamente habilidoso em combate, que presta serviços de matador de monstros e outras criaturas mágicas para quem precisa (e paga). Há certa simplicidade conceitual no bruxo que o faz adaptável para toda situação, o que cria um vasto potencial narrativo. Então o autor - e a série, por extensão - complica as coisas ao fazer com que os demais personagens menosprezem e tentem manipular a moralidade do protagonista. Isso é o que rendeu tantas histórias na literatura, e o seriado honra tal conceito ao encaixar o máximo de contos que consegue.

Cada capítulo adapta uma trama, e introduz novos rostos, lugares e situações para o bruxo encarar. Isso ajuda a desenvolver o personagem em uma variedade de cenários, e também dá ritmo intenso ao programa. Sempre em movimento, Geralt pega contratos em uma vila, ou então atua de guarda-costas para um banquete real. Há bastante riqueza narrativa nesse formato. O que dá consistência à tudo é a atuação de Cavill, em um papel que pode não parecer, mas é bastante delicado: pelas mutações o protagonista não é extremamente expressivo, porém compensa com certo charme niilista e um humor sombrio e cético. O ator mostra que entende a essência do que deveria ser Geralt, mesmo que sua entrega soe bastante com a de Dougle Cockle, voz do matador de monstros na trilogia da CD Projekt RED. A Netflix garante que se inspirou apenas nos livros, mas é certo que os games moldaram a performance de Cavill, um fã assumido de The Witcher 3: Wild Hunt. A estética da série também remete aos cenários e artes conceituais do estúdio polonês - o que nem de longe é ruim, já que ajuda a criar consistência no imaginário popular da franquia sem entrar no território de cópia.

Mesmo assim, a importância dos livros para o programa é muito maior, quase dominadora. The Witcher é uma adaptação extremamente fiel ao trabalho de Sapkowski, e usa até mesmo passagens das obras originais, como o monólogo do bruxo sobre a natureza do mal em “O Mal Menor”. Enquanto isso cria um prato cheio para os fãs, também resulta nos maiores problemas do seriado. Acontece que o autor polonês não era exatamente um escritor quando criou esse universo, apenas um leitor ávido. Isso fica evidente nas primeiras obras, que têm dificuldades em estabelecer os temas como subtexto ao invés de escancará-los. A série segue isso religiosamente, o que resulta em muitos diálogos óbvios e explicativos. Não é preciso saber previamente que a saga é motivada por família e destino; todos os personagens fazem questão de ressaltar isso diversas vezes por episódio, por exemplo.

Assim como a Espada do Destino, a fidelidade na adaptação tem dois gumes: mantê-la significa maior aceitação dos fãs e melhor entendimento da essência da obra original para os novatos, mas também traz incompatibilidades naturais entre diferentes formatos. Aqui, isso é visto na forma como o texto frequentemente soa carregado e discursivo. Felizmente a produção busca muitas formas de compensar esse preciosismo, como usar o bardo Jaskier (Joey Batey) como um meta-alívio cômico, que comenta a seriedade do protagonista e as viradas do roteiro.

O esforço da showrunner e roteirista-chefe Lauren Hissrich não pode ser menosprezado tão facilmente, e é especialmente sentido no destaque que Yennefer (Anya Chalotra) e Ciri (Freya Allan) recebem aqui, já que tal espaço só apareceria mais adiante, caso o ritmo natural dos livros fosse seguido. Aqui, porém, as duas ganham linhas temporais paralelas à do bruxo, com cada episódio efetivamente separado em três tramas, sob a promessa de eventual junção. Da mesma forma que ver Geralt em diversas situações passa um melhor entendimento de quem ele é, acompanhar a origem de Yen - criação do programa, algo pouco explorado na obra original - e o desespero de Ciri reforçam o desenvolvimento dessas personagens vitais com o tempo e atenção que precisam. A feiticeira de Chalotra é um destaque por si só. Mesmo com um currículo de poucas minisséries britânicas, a atriz segura a barra até em emocionais monólogos, de poucos cortes, e mostra que não deve nada nem ao colega de elenco mais veterano. Allan não brilha tanto assim, mas convence o suficiente para deixar fãs veteranos animados pelos altos e baixos que a garota enfrentará no futuro. Tudo combinado, The Witcher demonstra ter o mesmo carinho por todos os seus três núcleos.

Outro acerto da produção são as excelentes cenas de ação. Como dito, Sapkowski não era muito experiente em seus primeiros trabalhos, algo que foi se desenvolvendo ao ritmo que escrevia mais e mais romances. As lutas dos contos, portanto, são um pouco confusas, com o autor afirmando que Geralt é alguém ágil e habilidoso, mas através de descrições truncadas. Na TV a briga ganha atenção extra já que Cavill (que fez as próprias cenas) e a equipe criam um estilo próprio pro bruxo, que combina violência de precisão cirúrgica com movimentação quase artística, ainda que não tão exagerada e cheia de saltos e piruetas como o escritor polonês visualizou.

No fim das contas, o saldo de The Witcher é bastante positivo. A série pende mais pro lado da obra original, mas traz elementos próprios o suficiente para ter voz própria, especialmente na forma como ordena os contos em uma única trama. Essa estrutura traz uma dinâmica que é rara em produções medievais, e mostra que o foco aqui não é na política (como Game of Thrones) ou em grandes eventos (como em Vikings), mas sim em personagens. A família improvisada de Geralt, Yennefer e Ciri é o enorme coração da franquia, e o seriado entende bem isso com sólido desenvolvimento de todos e atores claramente apaixonados pelos papéis. Não é a toa que Sapkowski, conhecido por ser ranzinza com as adaptações de seu trabalho, deu sua benção ao projeto, chegando até a visitar o set e se reunir diversas vezes com a showrunner. A já garantida segunda temporada deve mudar bastante ao tomar um formato mais linear, graças à progressão da história a partir do romance O Sangue dos Elfos. Isso não deve ser motivo de preocupação: Hissrich e sua equipe demonstraram carinho e entendimento profundo pelo material-base. Os fãs podem não só ficar tranquilos como também ansiosos por todo o drama, violência, monstros e traições que vêm por aí.

Nota do Crítico
Ótimo