Ben Platt e Zoey Deutch em The Politician

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

The Politician – 2ª temporada

Novo ano da sátira política de Ryan Murphy tropeça em exageros, mas atuações fantásticas do elenco principal garantem diversão “maratonável”

Nicolaos Garófalo
22.06.2020
14h52

Ryan Murphy é uma máquina de fenômenos. Desde o lançamento de Nip/Tuck, o nome do produtor e roteirista está associado a séries carismáticas que, mesmo em seus piores episódios, proporcionam a medida certa de entretenimento. De Glee a American Horror Story, Murphy criou algumas das maiores febres televisivas do século XXI, sempre acompanhadas pela atenção do público e mídia especializada. The Politician, sua primeira série para a Netflix, seguiu à risca a fórmula de sucesso encontrada pelo produtor quando estreou, em 2019, misturando sátira política à história de amadurecimento. Em sua segunda temporada, a produção mantém a qualidade técnica atrativa do ano anterior, mas escorrega nos mesmos problemas e exageros.

A nova leva de episódios retoma a história exatamente onde ela foi deixada na primeira temporada: Payton (Ben Platt) reúne seu antigo comitê eleitoral para vencer as eleições para o senado estadual de Nova York contra a veterana Dede Standish (Judith Light). Ainda tentando se recuperar do mandato catastrófico como presidente do grêmio estudantil, o rapaz tenta comandar uma campanha mais honesta, mesmo que isso signifique sua derrota nas urnas.

Essa honestidade recém-adquirida por Payton, embora demonstre um necessário crescimento para o personagem, cria alguns problemas para a história da segunda temporada de The Politician. Com um protagonista menos exagerado, os roteiristas passaram todas as suas características superlativas para aqueles que o cercam, praticamente descartando o desenvolvimento que tiveram na primeira temporada. O principal exemplo disso é Georgina, interpretada por Gwyneth Paltrow. Já caricata nos episódios originais, a mãe de Payton agora se torna um amálgama de todos os estereótipos da classe média vazia com ideais políticos inalcançáveis.

Ao mesmo tempo, os escândalos criados pelos roteiristas tomam proporções gigantescas apenas por poucos minutos, sendo rapidamente substituídos por um novo golpe na tentativa de arrecadar votos. Ainda que essa sequência de acontecimentos dê uma dinâmica “maratonável” à temporada, ela apaga qualquer sentimento de urgência que deveria ser criado por provas de apropriação cultural ou escândalo sexual, tornando-as apenas notas de rodapé na história de The Politician.

Essas escorregadas do roteiro, no entanto, apenas reforçam os méritos do elenco. Em meio a tramas apressadas, Platt brilha mais uma vez e dá o tom certo que é acompanhado por Julia Schlaepfer, Lucy Boynton, Theo Germaine, Laura Dreyfuss e Rahne Jones. Diferentemente de Georgina, que parece uma personagem completamente nova neste segundo ano, o comitê de Payton tem uma evolução considerável e a série dá a cada ator o merecido espaço que não tiveram na primeira temporada, quando pareceram preteridos por Paltrow.

As adições ao elenco, aliás, deram a The Politician um brilhantismo digno de cinema. Ao lado da sempre fantástica Bette Midler, Judith Light entrega uma atuação cheia de nuances e dá vida a uma personagem extremamente realista e identificável, que mesmo assim não foge do tom satírico da série.

A crítica política de Murphy e dos co-criadores Brad Falchuk e Ian Brennan também surge mais forte e, consequentemente, mais pertinente ao mundo real. De maneira ácida, os roteiristas batem forte em candidatos de “medida única”, que focam todas as suas propostas em um único problema, mesmo quando a sociedade vive uma sequência de acontecimentos caóticos. Assim, Payton foca todas as suas atenções em políticas ambientais e, mesmo com um discurso raso, conquista uma Geração Z pseudo-engajada, mesmo ignorando questões raciais ou de gênero defendidas durante anos por sua opositora. O status de figura política superficial do rapaz é explorado a fundo no fantástico quinto episódio da temporada, que mostra uma mãe e uma filha de visões opostas brigando por causa das eleições.

Outro grande atrativo de The Politician é sua fotografia. Absurdamente bela e bem produzida, a série dá uma aula de jogos de câmera e design que muitos blockbusters apenas sonham reproduzir. Além disso, os diretores atribuem uma paleta de cores única para cada estação do ano que retratam, delineando a passagem do tempo sem a necessidade de marcadores definitivos em diálogos ou textos na tela.

Assim como a primeira temporada da série, The Politician está longe de ser perfeita. Como qualquer sátira que se perde na própria piada, a produção tende a escorregar em exageros e, de vez em quando, sua crítica parece vazia. No entanto, o carisma do elenco e o dinamismo da trama garantem o entretenimento típico dos seriados de Murphy e fazem com que as sete horas da série passem de maneira rápida e proveitosa.

Nota do Crítico
Bom