The Good Place - 4ª temporada

Créditos da imagem: The Good Place/Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

The Good Place - 4ª temporada

Último ano emocionante solidifica série filosófica como uma das melhores e mais intrigantes comédias de todos os tempos

Nicolaos Garófalo
31.01.2020
12h10
Atualizada em
29.05.2020
13h49
Atualizada em 29.05.2020 às 13h49

Existe um padrão incômodo que domina o cenário das comédias produzidas para TV aberta americana. Com o passar das temporadas, personagens de sitcoms vão se tornando cada vez mais exagerados, até se tornarem meras caricaturas do que eram em seus episódios pilotos. Esse mal – uma muleta usada por produtores e roteiristas para causar risadas mais exageradas - pode ser visto até em séries consagradas como Friends, The Office, How I Met Your Mother e Seinfeld. É um alívio, então, quando temos a chance de assistir produções que quebrem esse padrão. Melhor ainda é quando, além dessa mudança, a série proporciona uma temática intrigante, revestida por um humor relevante e personagens extremamente carismáticos.

É com essas características raras que a comédia existencial The Good Place, série de Michael Schur (Brooklyn Nine-Nine) transmitida no Brasil pela Netflix, se tornou sucesso ao longo de suas quatro temporadas. Questionadora, a produção reverteu o processo de “caricaturização” de seus personagens, focando sempre em seus crescimentos pessoais e mostrando como sempre existe a chance para que as pessoas mudem e melhorem, desde que tenham o apoio correto. Em sua última temporada, a comédia atinge o ápice de seu existencialismo, com tramas ao mesmo tempo tocantes, surpreendentes e cheias de humor.

Se em 2016 Eleanor (Kristen Bell), Tahani (Jameela Jamil), Chidi (William Jackson Harper), Jason (Manny Jacinto) e Michael (Ted Danson) eram simples amontoados de características desagradáveis que destoavam de todo o mundo ao seu redor, os personagens chegam a 2020 como alguns dos protagonistas mais bem desenvolvidos da TV, com uma evolução real tendo se passado desde que chegaram pela primeira vez ao suposto Bom Lugar, embora ainda mantenham as características que os tornaram únicos e queridos.

Novamente dividida em duas partes, a temporada de The Good Place mostrou dois diferentes experimentos planejados pelo Esquadrão da Alma para salvar a humanidade da danação eterna no Mau Lugar. Se, na primeira metade, exibida ainda em 2019, a juíza Gen (a maravilhosamente hilária Maya Rudolph) decidiu eliminar completamente a raça humana por perder as esperanças em sua evolução em vida, os episódios de 2020 trouxeram uma representação assustadora das consequências que uma felicidade ininterrupta pode ter nas pessoas.

Com alguns dos capítulos mais inteligentes e bem escritos da série, a última temporada de The Good Place traz argumentos extremamente sólidos tanto para a salvação quanto para a extinção dos humanos, com roteiros tão impactantes quanto, bem, um soco no estômago. Característica básica da série, a última temporada traz uma nova reviravolta a cada episódio, seja no sequestro de Janet, mais uma vez interpretada à perfeição por D’Arcy Carden, ou no leve e despreocupado Chidi que acorda depois de Bearimys sem memória.

Mais uma vez, o humor de Schur e sua equipe não poupam ninguém. Desde a mídia obcecada pelo mundo das celebridades, representada por Wheaton (Brandon Scott Jones), à estrutura patriarcal e abusiva da sociedade, personificada em Brent (Benjamin Koldyke), nada nem ninguém está a salvo das críticas ácidas de The Good Place, relevantes de um jeito único no mundo da comédia.

O que não quer dizer que seu humor seja ofensivo. Embora dê espaço para caçoar sempre daqueles que se encontram no poder, a série baseia seu humor na relação entre o sexteto protagonista e nas situações bizarras enfrentadas pelo Esquadrão da Alma. A química entre o grupo, de modo geral, é absurda, a ponto do espectador esquecer que está vendo o trabalho de seis ótimos atores e não a relação real de um grupo de amigos.

Com tantos momentos hilários, destacar apenas uma atuação da quarta temporada de The Good Place é uma tarefa ingrata. Bell, Carden, Danson e Harper mostram um alcance emocional enorme e seus personagens mudam de expressão com a mesma naturalidade que Jacinto cede aos impulsos inocentes de Jason ou Jamil, cuja personalidade é oposta à de sua personagem, metralha nomes de amigos e parentes famosos de Tahani. Mesmo os coadjuvantes da série têm seus momentos de glória, com Rudolph entregando uma das atuações mais hilárias de sua carreira como Gen e Marc Evan Jackson trazendo muita personalidade ao diabólico Shawn, líder do Mau Lugar.

Mas é graças às difíceis questões filosóficas e às constantes montanhas-russas emocionais que The Good Place ficará marcada na história da televisão. Por incrível que pareça, sua visão do Paraíso é assustadoramente melancólica, causando uma reflexão profunda até no mais despreocupado dos espectadores. Ainda assim, a solução encontrada pela série é perfeitamente simples e o final dado a cada um de seus personagens – incluindo alguns demônios – parece tão correto que é quase impossível tentar imaginar um final alternativo para a comédia.

Quebrando desde seu primeiro episódio os padrões de uma sitcom comum, The Good Place chega ao fim com uma das melhores temporadas de um humorístico no século XXI. Seja pelo elenco, roteiro, humor ou simplesmente por seus cinco minutos finais, a série de Schur entra definitivamente para a história como uma das melhores comédias de todos os tempos.

Nota do Crítico
Excelente!