The English Game

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

The English Game

Minissérie da Netflix do criador de Downton Abbey retorna às origens do futebol moderno para contar história sobre a divisão de classes na Inglaterra do final do século XIX

André Zuliani
23.03.2020
21h55

Futebol é considerado por muitos o esporte mais popular do mundo. Paixão que atinge milhões de pessoas no planeta, capaz de realizar sonhos inalcançáveis e, claro, envolver uma enorme quantidade de dinheiro. É curioso, portanto, que a Netflix não tenha um grande número de produções originais baseadas em um produto com tantas possibilidades, afinal, histórias jamais vão faltar. The English Game, minissérie britânica baseada em fatos idealizada por Julian Fellowes, o criador da aclamada Downton Abbey, chegou para suprir um pouco do vazio que os fãs do esporte sentem ao acessar a plataforma.

A trama de seis episódios começa em 1879 e é centrada em dois dos principais responsáveis pela profissionalização do futebol no mundo: Fergus Suter (Kevin Guthrie), um operário de classe baixa nascido em Glasgow, na Escócia, e Arthur Kinnaird (Edward Holcroft), lorde de família rica do sul da Inglaterra. Muito conhecido pelo seu talento com a bola nos pés, Suter, ao lado do amigo Jimmy Love (James Harkness), é convidado por James Walsh (Craig Parkinson), o dono de uma usina produtora de algodão em Darwen, pequena cidade da região de Lancashire, no norte do país inglês, para jogar no time local. A diferença é que ambos receberiam salários para representar o time na FA Cup (Copa da Inglaterra, no Brasil), campeonato mais importante da Associação. No final da década de 1870, o futebol ainda era amador e conhecido por ser um “jogo de cavalheiros”. Com o esporte dominado pela elite, as regras não permitiam que jogadores fossem pagos para jogar.

Por ser um drama histórico, é interessante ver como eram os jogos em seus primórdios. Os uniformes sem numeração, a pesada bola de capotão passando de pé em pé e a ausência de várias regras atuais tornam as partidas tão amadoras quanto as que vemos em jogos de bairro hoje em dia. Mesmo com toda a precariedade da época, a produção é prejudicada pela falta de investimento nos embates entre os times. Nem os personagens principais convencem que são realmente bons jogadores, o que torna as cenas um pouco cômicas – e dão um pouco de pena dos goleiros.

Apesar de a história girar em torno do futebol, The English Game é muito mais sobre as diferenças entre classes que marcavam a Inglaterra no final do século XIX. Assim como Fellowes soube explorar o tema muito bem em Downton Abbey, fazendo o contraponto da aristocracia britânica centrada na família Crawley e seus empregados, a minissérie faz um ótimo estudo social sobre como esse esporte era ao mesmo tempo tão valorizado pela classe operária e os ricos do Sul. Enquanto Fergus e seus companheiros jogavam para dar um motivo para a população de Darwen sorrir em meio às graves e cortes de salários, os cavalheiros amigos de Arthur jogavam pelo prazer, o que não significava que amavam menos o esporte que criaram.

Unir ambas as tramas - futebol e disputa de classes – acaba afetando o andamento da narrativa. Os três primeiros episódios são carregados de acontecimentos que determinam novos rumos para a história, o que torna complicada a identificação com muito do que está acontecendo. Fergus mal chega à Darwen e já é elevado ao patamar de ídolo, sem ao menos mostrar o seu talento em mais do que uma boa partida. E não é só o desenvolvimento da parte esportiva do personagem que acaba sendo prejudicado. Com um passado complicado na Escócia, demoramos a entender o que o motivou a aceitar o convite de Walsh e suas escolhas do início. A evolução do seu relacionamento com Martha Almond (Niamh Walsh), uma mãe solteira abandonada pela alta sociedade também é afetado, apesar da personagem ter uma das melhores tramas paralelas da produção. Já Arthur e todo o arco envolvendo sua esposa, Alma, e a perda do primeiro filho são explorados com mais intensidade, o que ajuda na criação de mais empatia com o personagem em relação ao outro protagonista. O capitão do time de elite Old Etonians nunca foi um mero esnobe, apesar de conviver com vários. Sua evolução é agradável de acompanhar, principalmente quando observamos os problemas da classe baixa aos olhos de quem sempre viveu no luxo.

Mesmo com os problemas iniciais, a parte final de The English Game ajusta algumas de suas arestas e entrega uma conclusão convincente. Com toques de novela, não é absurdo dizer que a minissérie é uma Downton Abbey voltada para os fãs do esporte. Com o futebol evoluindo ano após ano, a aposta da Netflix em retornar ao início de tudo é uma boa forma de suprir o espaço sem jogos em tempos de pandemia.

Nota do Crítico
Bom