The End of the F***ing World - 2ª temporada

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

The End of the F***ing World - 2ª temporada

Série justifica seu retorno e troca a tragédia perfeita pela realidade

Natália Bridi
12.11.2019
15h11
Atualizada em
12.11.2019
15h36
Atualizada em 12.11.2019 às 15h36

Se a primeira temporada de The End of the F***ing World  funciona como uma metáfora perfeita para os desesperos da adolescência, quando tudo parece o fim do mundo, o segundo ano da série britânica se constrói em torno do processo de amadurecimento. A fuga tragicômica e romântica, por vezes sangrenta, se transforma em pura melancolia. 

[Cuidado com spoilers sobre a segunda temporada de The End of the F***ing World

Quando a 2ª temporada foi anunciada, a reação geral foi agridoce. Ainda que tenha sido um sucesso de público, o primeiro ano seguia fielmente, salvo algumas mudanças pontuais, o arco da HQ de Charles Forsman, o que tornava nebuloso o caminho que daria continuidade à história de James (Alex Lawther) e Alyssa (Jessica Barden). Daí a mudança gritante de tom entre uma temporada e outra, ainda que, de certa forma, esse novo arco dê mais força ao primeiro. Antes idealizado dentro da sua excentricidade — um psicopata em formação e sua potencial vítima embarcam em uma fuga existencial e descobrem o amor —, o roteiro de Charlie Covell agora é elaborado em torno da origem de atos antes apresentados como pura ingenuidade adolescente em um contexto problemático de abuso e depressão. Nesse processo, James e Alyssa encaram traumas e aprendem a lidar com os problemas ao invés de fugir.

Dois anos se passaram desde o “fim do mundo”. Alyssa tem dificuldades com a volta à normalidade enquanto James passa por uma lenta e dolorosa recuperação depois de um tiro quase fatal. “Foi um final adequado. Uma história de amor fadada ao fracasso, uma tragédia perfeita. E acabei não morrendo”, bem explica o ex-aspirante a psicopata. A série responde ao questionamento sobre a sua nova temporada atestando que a pompa da tragédia shakespeariana (ou tarantinesca, seguindo a referência a Amor à Queima-Roupa do primeiro ano) é um caminho fácil, ainda que bastante dramático, já continuar vivendo é bem mais complicado. 

Para tornar ainda mais clara essa premissa, a série apresenta Bonnie (Naomi Ackie). Tão desesperada por apoio quanto a dupla protagonista, ela não teve a mesma sorte. Encontrou sua resposta no Professor Clive Koch, o mesmo que tentou estuprar Alyssa e foi morto por James. Transformada em assassina pelo ciúmes, ela quer punir aqueles que a privaram da sua única forma de afeto. Assim, enquanto o casal aprende como continuar com suas vidas, Bonnie planeja matá-los. É uma forma da série continuar com a sua “fórmula”, explorando comportamentos extremos, ao mesmo tempo em que, pelo contraste entre Bonnie, Alyssa e James, estabelece as reflexões necessárias para trocar a tragédia por otimismo. Nesse caminho de amadurecimento, essa é uma temporada mais lenta, menos coesa. Ainda que Naomi Ackie seja uma revelação na construção da sua personagem, ela é mais um recurso narrativo da jornada dos protagonistas do que parte essencial da história. 

Situada no Reino Unido, mas construída em torno de arquétipos norte-americanos, The End of the F***ing World comporta seus exageros em um universo surreal (precisamente fotografado e editado), o que inesperadamente fortalece seus comentários sobre a saúde mental dos seus personagens. Assim como James não era um psicopata e sim um garoto atordoado pelo suicídio da mãe e a depressão do pai, Bonnie não é apenas uma assassina. A solidão é um terreno fértil para atos desesperados, diz a série. E é justamente a cumplicidade encontrada entre James e Alyssa que muda o curso das suas histórias. “Preciso de muito tempo. E de ajuda psicológica. E devo umas dez mil libras para a minha mãe”, diz Alyssa ao retribuir o amor de James. Sai a tragédia perfeita, fica a realidade.

Nota do Crítico
Bom