Olivia Colman como Rainha Elizabeth em The Crown

Créditos da imagem: The Crown/Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

The Crown - 3ª temporada

Com novo elenco, série da Netflix aprofunda conflitos e faz um grandioso estudo sobre a vida dentro dos palácios

Camila Sousa
17.11.2019
12h10

As duas primeiras temporadas de The Crown fizeram um ótimo trabalho ao apresentar o começo do reinado de Elizabeth II. Interpretada na época por Claire Foy, a monarca foi mostrada com todos seus defeitos e qualidades, revelando ao mundo um pouco de como é sua vida privada. Assim, a terceira temporada tinha o grande desafio de mostrar o desenvolvimento deste reinado. Com um salto temporal e um elenco mais velho, The Crown escolheu utilizar grandes acontecimentos da Inglaterra para mostrar quem é a Rainha Elizabeth vários anos após sua coroação.

Claro que uma das mudanças mais esperadas pelos fãs é o novo elenco e ele não decepciona. Olivia Colman entrega uma Elizabeth segura, mas nem por isso desprovida de emoção. Em vários momentos a atriz reflete sentimentos com um olhar, uma mexida de boca ou um aceno de cabeça. Não cabe a alguém que interpreta a rainha ter uma atuação exagerada. Exatamente por isso é incrível ver como Colman expressa todas as emoções necessárias na segunda camada. Isso fica mais evidente no primeiro episódio, especialmente para acostumar o público sobre como Colman conduzirá a personagem. Depois disso, a atriz simplesmente brilha.

Há várias cenas emocionantes na terceira temporada de The Crown, mas Colman merece maior destaque em uma, quando revela sua paixão por cavalos. A monarca viaja aos Estados Unidos para estudar sobre a criação dos animais e revela que essa é a grande paixão de sua vida. Se não tivesse se tornado rainha, Elizabeth provavelmente trabalharia cuidando dos animais. Ao fazer essa revelação para um de seus funcionários - este também apaixonado por cavalos - a personagem deixa claro toda a sua melancolia sobre a vida que poderia ter tido. Elizabeth teve mais sorte do que muitos na Família Real ao se casar com o homem que escolheu, mas isso não quer dizer que ela também não abriu mão de sonhos para estar no trono. Como a própria governante gosta de dizer, a monarquia não existe para ter opinião própria. Para fazer parte, é necessário deixar de lado vários pontos de sua personalidade. Elizabeth deixa claro que essa é uma dor latente, que vai acompanhá-la durante toda a vida.

Como dito acima, The Crown usa vários eventos para dar andamento à temporada, desenvolver personagens e mostrar como foi a evolução da Inglaterra durante os anos. Desde um espião russo infiltrado no Palácio de Buckingham, até um documentário sobre a Família Real, passando por um grande acidente em uma escola, todos os eventos mostram como Elizabeth se comporta frente aos problemas e que tipo de monarca ela quer ser. Há uma passagem interessante, inclusive, em que a personagem diz que sempre teve dificuldade em expressar sentimentos, ao que é respondida que isso é algo bom para um governante, já que nenhum país deve ser comandado com “histeria”. Elizabeth sabe claramente quem é e o que pode oferecer ao seu reino, mas ela ainda se questiona por ser alguém tão segura e “pé no chão”, especialmente em comparação com a irmã, Margareth.

O lugar de Margareth

Falar sobre a irmã da rainha na temporada merece um destaque à parte. Helena Bonham Carter foi a escolha perfeita para dar vida à uma Margareth mais madura e triste. Há momentos em que a personagem brilha com sua simpatia e outros em que se afunda em uma grande melancolia, especialmente pelo seu relacionamento conturbado com Tony. No entanto, o que a temporada mais pontua são as diferenças entre Margareth e Elizabeth. Enquanto a rainha tem dificuldade em estabelecer uma boa comunicação com os Estados Unidos, por exemplo, a princesa consegue o feito em uma viagem de férias em que encanta a todos, incluindo o presidente, durante uma festa.

Elizabeth é polida e se preocupa em manter sua imagem intacta, já Margareth age por impulso, ri alto e fala palavrões. É curioso como a série coloca tais diferenças, levando o público a questionar quem está certa. Elizabeth precisa sim manter uma figura austera como Rainha da Inglaterra, para dar confiança ao país, ao povo e ao governo. No entanto, fica uma parcela de dúvida de como seria o reinado de Margareth, se ela fosse a irmã mais velha. A forma como The Crown faz isso é a mais lúdica possível, com um flashback mostrando Margareth ainda criança, após conversar com a irmã, pedindo para ficar com a coroa.

Há vários diálogos muito bem conduzidos por Bonham Carter, que mostram o descontentamento em ficar sempre em segundo lugar. Até quando pede para ter mais responsabilidade em assuntos oficiais, a princesa tem o pedido negado, já que Elizabeth não confia na irmã para cuidar de grandes questões. É uma relação conturbada. Os episódios finais deixam claro que as duas irmãs se amam fortemente, mas o fantasma do ressentimento trazido pela coroa sempre vai pairar sobre elas.

A melancolia de Charles

A terceira temporada de The Crown não é perfeita e tem alguns altos e baixos. Enquanto os primeiros e últimos episódios são instigantes, o meio é um pouco mais lento e sem ritmo, causando certo cansaço no público, já que cada episódio tem quase 1h de duração. Porém, a parte boa de uma duração tão longa é que há tempo para desenvolver personagens conhecidos do público, como o Príncipe Charles. Diferente do homem que apareceu em tabloides por todo o mundo na época do relacionamento com Diana, o Charles interpretado por Josh O’Connor é um jovem cheio de sonhos e entusiasmo. Fã de teatro, dedicado e sensível, ele é uma figura muito mais afetada pelas dores trazidas pela monarquia.

O primeiro episódio dedicado a ele é sobre seu estudo para se tornar Príncipe de Gales. A produção mostra como há uma rixa antiga entre o País de Gales e o resto do Reino Unido, já que eles não se sentem representados. Mesmo que exista um príncipe, este só visita o local antes de ser nomeado e dificilmente retorna. Essa conjuntura torna a visita de Charles bastante conturbada. As reações à sua chegada em Gales são mistas e ele precisa lidar com uma grande desaprovação. No entanto, ao invés de virar as costas ou correr do local o mais rápido possível, o príncipe escolhe entender a origem de tanto ódio e percebe que o povo daquele local tem certa razão.

Tal enredo estabelece que Charles tem uma personalidade mais forte do que a mãe. Além de mudar um discurso por conta própria, ficar amigo do ex-rei Eduardo VIII (aquele que abdicou do trono por amor), o jovem também começa um romance com Camila Shand, conhecida posteriormente como Camilla Parker Bowles. A simples menção ao nome da personagem já causa furor no público, já que o relacionamento dos dois foi amplamente divulgado na mídia. Mas o que The Crown mostra é como Camilla deu a Charles uma confiança que ele nunca teve. Ao invés de ter medo e abaixar a cabeça, o príncipe enfrenta sua mãe pela primeira vez em nome de Camilla. É exatamente por isso que a separação dos dois soa tão dolorosa.

No começo, a série brinca com a percepção do público ao indicar que Elizabeth agiu errado com o filho e foi culpada pela separação. Mas a verdade é que a rainha não queria separar um amor verdadeiro. Foi a confusão entre Camilla e Andrew Parker Bowles, acima de tudo, que levou ao fim do relacionamento entre os dois, já deixando portas abertas para a apresentação da Princesa Diana na quarta temporada. No entanto, mesmo que a monarquia não tenha sido culpada pelo que aconteceu, Charles permanece ressentido e acredita que a coroa é antiquada e não tem espaço para novas ideias, algo que é verdadeiro de muitas formas.

O ponto escolhido para terminar a terceira temporada é o Jubileu de Prata da Rainha, celebrando os 25 anos de reinado. O evento acontece após diversos problemas na vida Elizabeth que, ainda assim, aparece altiva e feliz diante de seus súditos. Como a própria Margareth afirma no episódio, a monarquia é responsável por criar diversas narrativas em seu povo, sejam elas felizes ou tristes. O que isso traz à Elizabeth é que ele precisa carregar todo o peso do que está acontecendo em segundo plano e entregar ao seu povo uma figura em quem eles podem confiar. É um desfecho agridoce, que combina muito bem com a história da Casa de Windsor.

Nota do Crítico
Ótimo