The Circle EUA - 2ª temporada

Créditos da imagem: Divulgação

Netflix

Crítica

The Circle EUA - 2ª temporada

Com um elenco incrível e muita estratégia, a segunda temporada de The Circle US fez do reality um dos mais complexos da atualidade

Henrique Haddefinir
06.05.2021
14h59

Em 2010, os cineastas Ariel Schulman e Henry Joost lançaram um documentário despretensioso que tornou popular um termo até então pouco explorado pela cultura norte-americana: catfish. A palavra (que não tem tradução para o português) é usada para designar o ato de se passar por outra pessoa na internet. Para que ela tenha seu sentido completo não basta somente ter um perfil fake em alguma rede social. O “catfishing” é um ato de envolvimento, exige dedicação e pode durar por anos a fio.

No documentário, Schulman e Joost acompanhavam a jornada do amigo Nev para finalmente conhecer pessoalmente uma mulher com quem ele já conversava há anos e por quem estava apaixonado. O problema é que o documentário começa com um intuito romântico e aos poucos vai se transformando num suspense, com Nev descobrindo os buracos na história de sua amada a cada novo passo que dão na direção desse encontro. Quando a verdade vem à tona, além de bizarra, ela expõe um problema que mesmo mais de 10 anos depois, ainda atormenta grande parte da sociedade virtual: a manipulação de expectativas e emoções em benefício próprio.

Com o sucesso do documentário, Catfish se tornou um programa de TV, em que o próprio Nev ajudava pessoas, desvendando para elas o que estava por trás de seus interesses românticos. O curioso é que os espectadores da atração passaram várias e várias temporadas sendo convencidos de que o “catfish” era um ato de egoísmo e desconsideração, que gerava mágoas e traumas profundos, muitas vezes provocados por pessoas que estavam tão feridas e machucadas quanto seus próprios alvos.

Entretanto, numa dessas viradas inesperadas provocadas pela simples ação do tempo, cá estamos com a segunda temporada do The Circle US, um reality show para testar as dinâmicas de popularidade entre estranhos que podem ou não, estar presentes nessa rede com suas verdadeiras personas. Em The Circle, o “catfish” é o elemento de diversão e o maior desafio de quem se propõe a praticá-lo. Todos os jogadores sabem que o perigo da mentira ronda entre eles, o que libera a produção de qualquer responsabilidade moral. Contudo, dentre todas as versões, a segunda temporada da versão americana trouxe à tona, pela primeira vez, a força e o risco de “pescar” a atenção alheia.

Chloe and Trevor

Depois de uma primeira temporada promissora e que funcionou muito mais nos afetos, o The Circle US corrigiu alguns problemas e encontrou um elenco que, em sua maioria, queria mesmo era ganhar o dinheiro. É claro que numa competição com gente de verdade envolvida, se todo mundo mentir o tempo todo a fórmula não funciona. Então participantes calculadamente sinceros foram providenciados para manter a dinâmica segura.

Porém, a brutal eliminação de Bryant logo no começo ditou o tom da temporada: discursos de honestidade e boas energias seriam descartados de primeira. Os participantes que chegaram para competir como catfishes jogavam com especial atenção aos detalhes, enquanto os que chegaram para jogar como si mesmos foram derrubando uns aos outros logo nos primeiros episódios. A imagem da final era emblemática: de um lado os eliminados, todos com perfis verdadeiros. Do outro lado, todos os catfishes, intactos nas posições de finalistas.

Além de dinâmicas que dessa vez agiram realmente para desestabilizar estratégias (o catfish desmascarado por causa de uma maquiagem mal feita foi genial), a produção corrigiu a ansiedade em inserir novos participantes no jogo até um ou dois episódios antes da final. Isso proporcionou ao público, e à própria rede social fictícia, uma maior organicidade. Mesmo John, o último a entrar, era um catfish criado a partir de dois participantes já eliminados. Um recurso que possivelmente será mais complicado de repetir sem passar pelo radar dos competidores, mas que melhorou o ritmo da temporada. John ainda ficou na última posição, o que continua sinalizando que participantes que entram mais tarde tem muitas dificuldades para realmente fazer parte do círculo.

É inegável que há uma camaradagem entre enganadores e enganados. Teriilisha e Savannah, por exemplo, protagonizaram o pior dos barracos e na final ainda não estavam resolvidas. Mas, ambas tinham perfis reais. Trevor, o mais estável dos “mentirosos”, fez o jogo emocional mais eficiente e arriscado do programa, mas no jantar em que todos se encontraram, não houve um só momento de tensão. Até mesmo Courtney, que jogou com os próprios aliados de forma brutal, foi absolvido. Isso porque apesar de ter um perfil verdadeiro, o rapaz agia com a dissimulação de um catfish.

No meio disso tudo havia a história de Chloe. Ex participante de outro reality da Netflix (Brincando com Fogo), ela tem o tipo de personalidade que vira ouro em qualquer produção. Extremamente sexualizada, mas ingênua e carismática, ela surge na tela quase como uma Marilyn contemporânea. Duvida da própria inteligência o tempo todo (o que não deveria fazer), mas foi a única mulher com um perfil verdadeiro a chegar na final.

Chloe foi a primeira participante do The Circle a viver o programa por uma ótica sentimental e a se tornar uma “vítima” de suas diretrizes. Madura, ela reagiu bem à revelação de que seu interesse amoroso não estava sendo sincero com ela. Mas, toda sua trajetória no programa foi pautada pela afeição que desenvolveu por ele. Suas decisões foram tomadas pensando nisso e as expectativas do encontro e de um possível romance eram claramente verdadeiras. Apesar de todas as boas intenções da pessoa por trás de Trevor, seus discursos em nome do “jogo limpo” pareciam deslocados da realidade. Jogo limpo, limpo mesmo, foi só Chloe quem fez.

Também por isso, ver Chloe e Trevor disputando lado a lado o primeiro lugar dessa segunda temporada, fez com que realmente houvesse um “círculo” sendo fechado. A “falsidade permitida” do programa, enfim, é o que o torna tão fascinante e complexo. Contudo, será mesmo que estamos diante de um concurso de popularidade? Na maioria do tempo, parece muito mais que essa é uma competição de blefes.

The Circle EUA
Em andamento (2020- )
The Circle EUA
Em andamento (2020- )

Duração: 2 temporadas

Nota do Crítico
Excelente!

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