Elenco de The Boys in the Band

Créditos da imagem: The Boys in the Band/Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

The Boys in the Band

Adaptação do espetáculo da Broadway é poderosa, envolvente e provocativamente anacrônica

Henrique Haddefinir
01.10.2020
10h48

A adaptação de The Boys in the Band para o Netflix foi divulgada com manchetes que sublinham um pequeno detalhe: os personagens gays estavam sendo interpretados, pela primeira vez, por um elenco inteiro de homens célebres e também abertamente gays. Entre os nomes temos Jim Parsons, Zachary Quinto, Matt Bomer; enfim, nomes que estão diretamente nas trincheiras da mídia especializada, o que acabou provocando esse tipo de atenção. Pode parecer loucura que manchetes como essa ainda sejam usadas em 2020 como forma de atrair cliques. Mas o fato é que a homossexualidade ocupa uma posição de debate, de nascente cultural e ainda de curiosidade.

A peça estreou na Broadway em 1968, escrita por Mart Crowley, que morreu esse ano, em março; e não teve tempo de ver o filme pronto. Contudo, não foi a primeira vez que o espetáculo passou por essa transição. Em 1970 o diretor William Friedkin (o mesmo de O Exorcista) dirigiu a primeira adaptação e o filme apesar de ter recebido algumas críticas positivas, não se marcou na temporada de premiações. A peça chegou a ter uma continuação em 2002 (The Men From The Boys), mas ela foi rejeitada pelo público e pela imprensa. O caminho para a realização de um novo filme veio depois que Ryan Murphy produziu a remontagem do texto original, em 2018; e decidiu levar a história para o Netflix usando o mesmo elenco da Broadway. A remontagem venceu o Tony de 2019 e tanto ela quanto o filme foram dirigidos por Joe Mantello.

A presença de Ryan Murphy nos créditos da produção acabaram eclipsando o fato de que ainda que o nome dele estivesse lá, o roteiro era do próprio Mart e a direção era de Mantello. Mesmo não tendo se envolvido artisticamente em nada, a ideia de levar para o Netflix a adaptação de uma peça sobre gays e feita por gays tem tudo a ver com a marca de Murphy. Desde que seu nome virou referência de sucesso, ele tem trabalhado ativamente para levar minorias para a frente criativa de todos os seus títulos. Sem essa marca por trás do anúncio da adaptação, talvez o impacto midiático que ela provocou não fosse o mesmo. Murphy é conhecido por contar histórias peculiares e por levantar o nome de seus atores.

A decisão de não transportar a trama para o ano de 2020 foi parte do grande plano de revelar como o anacronismo flertava com a reconstrução de uma época que parecia oposta e ao mesmo tempo complementar à nossa. Os gays de 2020 podem enfrentar menos problemas sociais que os de 1968. Mas, o ódio e a opressão ainda existem em abundância e reproduzem em looping os conflitos e fraturas internas que acabam padronizando os comportamentos e as emoções de quem passa por tais experiências. The Boys in the Band não tem momentos em que os rapazes são agredidos ou humilhados nas ruas. O que o roteiro revela é o que eles acabam levando consigo para dentro de casa.


I'll March My Band Out

O texto é o maior trunfo e por isso ele consegue existir enquanto espetáculo teatral dentro de um único cenário: a sala da casa do maledicente Michael (Jim Parsons). O diretor Joe Mantello usa o recurso cinematográfico para ilustrar situações específicas, saindo daquela sala em flashbacks poetizados que ajudam a demarcar a narrativa como uma obra cinematográfica e não como um “teatro filmado”. Os cortes e ângulos procuram dinamizar os fatos sem perder a elegância, sobretudo, porque, da segunda metade para o final, a casa inteira de Michael estará severamente desconstruída, desorganizada, como as relações que o aniversário de Harold (Zachary Quinto) termina por testar.

A premissa é simples: reunidos para o aniversário do amigo, os homens vão destrinchando as tensões que eles negam existir entre si a partir da chegada de um estranho, o engravatado Alan (Brain Hutchison). Michael tem uma relação de antagonismo cruel com Harold, Larry (Andrew Rannells) está numa relação desequilibrada com Hank (Tuc Watkins), que acabou de deixar a esposa para ficar com o amado. O problema é que Larry não quer e não consegue ser monogâmico (Andrew e Tuc são, inclusive, casados na vida real). Além deles, Bernard (Michael Benjamin Washington) e Emory (Robin de Jesús) se polarizam respectivamente nos papeis de “gay discreto” e “gay afeminado”, enquanto Donald (Matt Bomer) é o único que tentar ser racional. O elenco se fecha com o “cowboy” (Charlie Carver), um stripper que Emory contrata para ser o “presente” de Harold.

Em duas horas de duração, a história cria uma tensão crescente que pode ser sentida em toda sua gradatividade. Os diálogos inicialmente triviais escondem a ameaça que se torna evidente no momento em que Michael descobre que Alan, seu antigo colega hétero da faculdade, vai aparecer na festa. Há tantos problemas latentes entre os amigos que basta a chegada de um elemento estranho para que esses pesares e ressentimentos comecem a vazar. A ideia é aprisioná-los, criar um clima de claustrofobia, que se constroi com uma precisão aguda, tomando até mesmo a providência de fazer chover na cidade, o que obriga todos os nove personagens a saírem da varanda, do ar livre, e a dividirem o mesmo e minúsculo espaço.

O ritmo agitado da primeira hora de filme é quebrado pela chegada do aniversariante. A escolha de Zachary Quinto como Harold, contudo, atrapalha a fluidez desse momento. Acostumado a fazer vilões cartunescos, Zachary não consegue se distanciar dos registros ameaçadores que fizeram seu nome na TV. Harold talvez seja o personagem mais unidimensional, que é defendido por um ator unidimensional, e que consegue a façanha de ainda vender a ideia de ser complexo. Compensando essa limitação, é interessante ver Andrew Rannells se distanciar dos bons moços que sempre defende; e Robin de Jesús faz de Emory uma bomba de carisma. Mas, nenhum deles é tão eficiente na construção de emoções implícitas quanto Jim Parsons. Sua performance é soberba.

Enfim, a coleção de silêncios eloquentes que a narrativa ostenta do início ao fim tem raízes profundas, estabelecidas por uma existência em que seguro é não atravessar fronteiras. Existe um jogo e os que sabem jogá-lo podem viver com o mínimo de estragos. “Engrosse a voz”, “contenha os gestos”, “esqueça demonstrações públicas de afeto”, “entenda que o amor NÃO é incondicional”... Vivemos entre heterossexuais tacanhos que acham que a modernidade encheu as minorias de privilégios. Mas, uma olhada atenta, de perto, reforça que essas fronteiras ainda fazem parte das hesitações da comunidade gay. É como o cãozinho que passou a vida sendo agredido e que mesmo que esteja com um dono que não bate mais, continua se encolhendo ao menor sinal de ameaça. The Boys in the Band não conta uma história datada, simplesmente porque a vontade de viver para ser, ainda termina sendo vencida pela obrigação de ser para viver.

Nota do Crítico
Excelente!

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