Netflix

Crítica

Assustadora e adorável, Sweet Tooth traz releitura incrível da HQ de Jeff Lemire

Adaptação da Netflix honra essência da distopia pós-apocalíptica dos quadrinhos sem abrir mão de criar seu próprio caminho para Gus, Jepperd e companhia

Nico Garófalo
02.06.2021
15h37
Atualizada em
03.06.2021
20h38
Atualizada em 03.06.2021 às 20h38

A Netflix tem um histórico instável quando o assunto é adaptação de quadrinhos famosos. Para cada Demolidor ou The Umbrella Academy, a plataforma entrega um Punho de Ferro ou Legado de Júpiter, criando assim uma pulga atrás da orelha sempre que uma nova produção baseada em HQ é anunciada, por melhor que seja o material original ou a equipe envolvida. No entanto, qualquer dúvida que possa ter existido no caso da adaptação de Sweet Tooth, HQ da Vertigo escrita e ilustrada por Jeff Lemire, é completamente esquecida nos primeiros cinco minutos da série.

Tal qual o gibi publicado em 2009, a série da Netflix retrata um mundo pós-apocalíptico assolado por uma misteriosa pandemia conhecida como Flagelo, doença que surgiu de forma simultânea aos híbridos, crianças que nascem com características animais. Com o passar dos anos, os sobreviventes do Flagelo passaram a se dividir em tribos, milícias e cidades, com cada grupo desenvolvendo sua própria crença e tratamento para com as crianças-animais. O híbrido que protagoniza Sweet Tooth é Gus (Christian Convery), um garoto-cervo que cresceu isolado em uma reserve natural com seu pai (Will Forte) e, após uma sequência de eventos trágicos, parte em uma aventura em busca de sua mãe.

Mesmo que adapte o mundo criado por Lemire quase à perfeição, a versão da Netflix de Sweet Tooth muda alguns detalhes chave da trama dos gibis para manter a história surpreendente até para os mais fanáticos dos fãs. O Jepperd de Nonso Anozie, por exemplo, é um ex-jogador de futebol americano de grande coração e não o mal-intencionado jogador de hóquei que engana Gus no começo do quadrinho. Já o menino-cervo, vivido aqui pelo talentosíssimo Convery, tem uma fala menos travada que sua contraparte das páginas, além de ser menos desconfiado dos seres humanos que encontra. Essas diferenças, no entanto, não contradizem a natureza da criação de Lemire e ajudam o espectador a se conectar mais facilmente aos personagens, sejam coadjuvantes do gibi como Singh (Adeel Akhtar) e Wendy (Naledi Murray) ou personagens criados para o seriado, como Aimee (Dania Ramirez).

Sem os traços retos e propositalmente grotescos de Lemire para reforçar os horrores do mundo pós-Flagelo, Sweet Tooth usa uma supersaturação de cores para realçar borrões de sujeira, hematomas e manchas de sangue, reforçando o terror e violência que domina os cenários coloridos criados para a série. Seguindo a atmosfera do quadrinho, a produção da Netflix alterna momentos de esperança e carinho familiar com sequências de terror e desespero, com a natureza humana sendo o principal combustível para as ações de mocinhos e vilões. Enquanto não apela para jump scares, a série usa a onipresença da Milícia de Abbot (Neil Sandilands) para deixar o público com medo por seu trio principal, que além de Gus e Jepperd, ainda conta com a jovem Ursa (Stefania LaVie Owen), líder de uma facção adolescente que idolatra crianças híbridas.

Sem grandes rodeios ou discursos expositivos, o roteiro de Sweet Tooth torna fácil a tarefa de se envolver com a produção. Mesmo a presença de um narrador, que nem sempre é bem utilizada em séries episódicas, torna mais agradável a experiência de assistir à adaptação, cuja trama é, em retrospecto, pesada no cenário atual da pandemia. Sem pressa para desenvolver cada personagem, os capítulos de 50 minutos dão espaço para respiro entre uma lágrima e outra. Mesmo puxando dezenas de fios condutores em apenas oito episódios, os roteiristas desenvolvem a história de Gus e sua nova família de forma simples e concisa, otimizada por uma direção delicada que ajuda a compreender tanto o olhar do jovem híbrido quanto de seu gigantesco protetor.

Se estender em elogios a Sweet Tooth é desnecessário e redundante. Apesar de ter qualidade de sobra, a série foi claramente concebida para ser assistida com o coração. Acompanhar a viagem de Gus e Jepperd, e todas as histórias que a cercam, é uma experiência tão emocional, que avaliá-la de maneira racional se torna uma tarefa ingrata e até mesmo injusta. Se as próximas temporadas da versão da Netflix forem capazes de recriar esse sentimento, a série pode entrar para a história como a melhor produção original da plataforma.

Sweet Tooth
Em andamento (2021- )
Sweet Tooth
Em andamento (2021- )

Criado por: Jim Mickle, Beth Schwartz

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

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