Steve Carell e elenco de Space Force

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Space Force - 1ª temporada

Apesar de personagens carismáticos e premissa naturalmente engraçada, inconstância dos episódios e pontas soltas prejudicam nova comédia de dupla do The Office

Mariana Canhisares
29.05.2020
17h46

Quando o presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciou a criação da Força Espacial pela primeira vez, em 2018, o projeto não foi lá muito bem recebido. Segundo o secretário de defesa Jim Mattis, tratava-se de um empreendimento "caro e inútil". Dois anos depois, o chefe do executivo até conseguiu concretizar seu plano, mas o departamento não perdeu sua fama de ridículo. Além de ser acusado de plagiar o símbolo da Frota Estelar, de Star Trek, a Força Espacial se tornou a premissa da nova comédia do duo por trás de The Office, Steve Carell e Greg Daniels, que realmente parece ter usado as palavras de Mattis como inspiração para imaginar o dia a dia de um inusitado grupo de cientistas e militares.

Em Space Force, o recém-criado departamento é comandado pelo experiente general Mark Naird (Carell) que, assim que assume uma cadeira na mesa dos mais importantes líderes militares do país, é surpreendido com a missão de colocar o homem mais uma vez na Lua até 2024. Aliás, não apenas colocá-lo lá, mas criar uma base no satélite e começar a habitá-lo. Sua inadequação para o trabalho é evidente. Não porque seja sem noção ou simplesmente incompetente como o gerente da Dunder Mifflin Michael Scott. Na realidade, falta a Naird o conhecimento técnico necessário para tomar decisões. Por sorte (ou azar), ele tem ao seu lado um cientista e tanto para guiá-lo nos pormenores da missão, o refinado Dr. Adrian Mallory (John Malkovich).

Naird e Mallory não poderiam ser mais diferentes. Enquanto a resposta do general para tudo o que não entende é lançar uma bomba, o cientista é contra violência e prefere resolver as situações sempre na base do diálogo. Embora tenham visões bastante antagônicas do mundo e, por isso, não sejam poucos os momentos de conflito, ao longo da série nasce entre os dois uma fofa amizade. Este inesperado relacionamento fraternal é de longe o ponto mais alto da série. É claro que parte da razão para isso funcionar está na própria contraposição de personalidades, mas é a química entre Carell e Malkovich que realmente faz o trabalho pesado.

De um modo geral, a primeira temporada se sustenta e muito no talento e carisma do seu elenco, principalmente quando se formam duplas curiosas, como a Capitã Ali (Tawny Newsome) e o Dr. Chan (Jimmy O. Yang). Infelizmente, isso se deve a uma inconstância da série, que tem tanto episódios muito bons, quanto alguns meramente medíocres.

O núcleo familiar de Naird é um dos fatores que atrapalha o desenrolar da trama. Esse resultado chega a ser surpreendente, tendo em vista que Lisa Kudrow interpreta a esposa do general, Fred Willard, seu pai, e a novata Diana Silvers, sua filha. No entanto, como fica claro na trajetória da jovem, praticamente abandonada pelo pai em toda a temporada, os Nairds estão ali sem muito propósito. Quando não são esquecidos, como é o caso do divertido personagem de Willard, seus dilemas são repetitivos e não acrescentam muito à trajetória do protagonista. Fato é que, apesar de ser claro como o general Naird os ama e a família queira o militar em casa, ele não é capaz de conciliar a vida doméstica aos deveres e responsabilidades da Força Espacial.

Diante desse verdadeiro cabo de guerra pela atenção do militar, a narrativa perde um pouco do seu charme, sensação que é potencializada quando se nota erros de continuidade pontuais ou outros personagens deixados pelo caminho. Uma pena, sobretudo para o fã de The Office que estava ansioso pelo reencontro de Carell e Daniels.

Apesar das falhas, Space Force também tem seus méritos. Tendo em vista o quão recente é a Força Espacial, os criadores realmente tiveram uma folha em branco para conceber como seriam os preparativos dos Estados Unidos para colonizar a Lua. A liberdade foi tamanha que confiar a um macaco no espaço a tarefa de consertar uma sonda caríssima é apenas a ponta do iceberg das situações cômicas e ridículas enfrentadas pela equipe nessa jornada ambiciosa.

Papo científico à parte, é interessante também como o departamento é apresentado como um ambiente de trabalho relativamente comum, com colegas inconvenientes, perdidos ou apenas idiotas. Essa representação, que por vezes beira o escolar e não o profissional, facilita a identificação e empatia do espectador pelos personagens por mais absurdos e específicos que sejam seus problemas. Por isso, não é estranho se pegar gostando até dos nomes mais insuportáveis do time, como o assessor vivido pelo engraçado Ben Schwartz.

Space Force ainda espertamente inclui comentários políticos na sua narrativa. Nada polêmico, nem levantando bandeira partidária. Mas pela própria natureza do projeto, Trump é uma presença constante no dia a dia da Força Espacial - mesmo que não apareça, nem seja citado nominalmente. De modo semelhante, a primeira-dama Melania Trump, uma deputado evidentemente inspirada pela democrata Alexandria Ocasio-Cortez e um político terraplanista completam o time que interfere nos planos de Naird, adicionando ainda mais camadas cômicas e desafios à missão espacial.

Quem esperava ver uma história ou um humor mais parecidos com The Office provavelmente se frustrará com Space Force. Aqui, Carell e Daniels tentam se adaptar ao formato maratonável e, nas suas experimentações, às vezes acertam, às vezes erram. Por sorte, a dupla construiu personagens interessantes e tem ao seu favor um baita elenco. Ironicamente, eles tiveram uma experiência semelhante de altos e baixos com o icônico mockumentary. Se até The Office precisou de duas temporadas para engatar de vez, por que Space Force também não mereceria uma segunda chance?

Nota do Crítico
Bom