Leia a crítica da 1ª temporada de Sky Rojo

Créditos da imagem: Divulgação/Netflix

Netflix

Crítica

Sky Rojo abre mão do drama em favor de perseguição e pancadaria

Criador de La Casa de Papel continua sua duvidosa jornada para se tornar Quentin Tarantino

Henrique Haddefinir
20.03.2021
17h18
Atualizada em
20.03.2021
17h28
Atualizada em 20.03.2021 às 17h28

O espectador que for atrás de Sky Rojo por conta da chancela de Álex Pina, o criador de La Casa de Papel, não vai se decepcionar. Em 5 minutos de exibição já fica claro que a ideia aqui é cumprir uma cota de produções gêmeas, não idênticas em tudo, mas suportadas pelas mesmas diretrizes: violência, ação, sexo, capangas perseguidores, mulheres boas de briga e superficialidade. É uma fórmula assumida, descarada, que tem a única e derradeira intenção de divertir, com uma boa direção de cenas e uma fotografia que romantiza e embeleza as paisagens mais áridas da Espanha. E tudo isso numa piscadela... Sky Rojo não te enrola. Ela tem apenas oito episódios de no máximo 31 minutos cada um.

Os fãs mais atentos, contudo, podem acabar refutando o argumento de que os trabalhos de Pina são recorrências absolutas. De fato, seu maior sucesso – La Casa de Papel – é o título que mais se distancia dessa síndrome de Quentin Tarantino que acometeu o roteirista. Tanto La Casa de Papel quanto Vis a Vis (que fez um sucesso tardio) falavam de espaços confinados. Isso até as protagonistas dessa última ganharem o mundo num derivado que beirava o delírio, mas que já apresentava os sintomas dessa fascinação de Pina pelo universo Tarantinesco. De repente, o deserto, o alaranjado do sol, o suor, as perseguições empoeiradas, as lutas, as mortes chocantes... tudo isso foi se tornando o DNA criativo de Álex.

Junto com Esther Martínez Lobato, Álex Pina planejou uma história que gira em torno de três prostitutas. Coral (Verónica Sanchez) é a líder do trio, uma personagem com um mistério que gira em torno de sua chegada ao prostíbulo de Romeo (Asier Etxeandia). As outras duas são Wendy (Lali Espósito, um rosto conhecido da música europeia) e Gina (Yany Prado), as típicas parceiras de fuga, com personalidades limítrofes, cada uma à sua maneira. Wendy é mais sanguínea e Gina mais romântica. Cada uma tem sua história para ter se tornado prostituta e é aí que está a tentativa do criador de dramatizar sua narrativa. Em dado momento, Romeo informa ao público que a Espanha é o terceiro país do mundo no ramo da prostituição. O que a série pretende é a desglamourização do serviço, com sequências que revelam o preço alto que algumas meninas pagam e a forma como muitas vezes elas são sequestradas para o ofício.

Pode parecer promissor em teoria, mas com um ritmo tão nervoso quanto o da série, esses investimentos dramáticos são dados em doses homeopáticas. O enredo nem está interessado nisso, na verdade. Ele precisa desse escopo dramático somente para que haja uma desculpa para começar a perseguição e a pancadaria. Intercalando as sequências de ação, monólogos de Romeo sobre o serviço da prostituição soam a coisa mais interessante de todo o roteiro. Ele faz dezenas de observações machistas, usa estatísticas duvidosas e filosofa não só sobre o trabalho das mulheres, mas sobre o papel dos homens na engrenagem. O trabalho de Asier é esmerado e mais consistente do que o de seus comparsas, vividos por Enric Auquer e Miguel Angel Silvestre (o Lito de Sense 8). Porém, muito da direção de ator da série confunde boa interpretação com atores gritando ou babando.

Tarantinando

A inspiração em Quentin Tarantino é evidente, mas um pouco descriteriosa. Esse é, na verdade, um problema que já se via lá no caótico Vis a Vis: El Oasis. A forma como a identidade visual e a narrativa de Sky Rojo se distribuem nas sequências é desorganizada. Há muita ação, muita violência, com desajeitadas pitadas de comédia, constrangedoras narrações em off que ilustram um drama superficial e liberdades criativas que beiram o realismo fantástico (como numa determinada manobra do roteiro, ilustrada com uma lua gigante no fundo do quadro). Sky Rojo quer muito ser uma peça de reverência ao trabalho de Tarantino (personagens lutam com katanas numa das sequências), mas na maioria do tempo essa reverência soa oportunista, com recursos usados sem contexto.

Entretanto, se for para destacar um um investimento dramático da série que é ligeiramente positivo, podemos destacar o trabalho de Yany Prado, como Gina. Os episódios informam muito rapidamente o passado da personagem como uma garota cubana enganada por aliciadores, mas esse background gruda na atuação de Yany e pauta tudo que acontece com Gina no decorrer da história. O romantismo da personagem também ajuda a trazer um pouco de leveza e humanidade para o trio, o que é essencial para que torçamos pela fuga que elas tentam executar. Esse seria o papel de Coral na estrutura, o que só é mais um sinal da frouxidão com que a dramaturgia foi criada.

Em muitos momentos, inclusive, há uma incerteza de até que ponto as mulheres estão sendo usadas na história como exemplos de força ou só como peças de fetiche. É claro que em produções onde a violência e o sexo são as bases fundamentais, a ideia do fetiche é uma inevitabilidade. A questão é que Sky Rojo ensaia uma espécie de “conscientização” a respeito dos males do mercado sexual. As duas ideias – a do fetice e a do engajamento – ficam em choque o tempo todo. Apreciar a série como uma coisa ou como outra, se torna uma tarefa realmente complicada. O ideal é se distanciar completamente e curtir as sequências de ação. São elas as coisas que Sky Rojo faz realmente bem.

A série estreou no Netflix no último dia 19 e uma segunda temporada é esperada (até porque o final vai deixar os nervosos mais nervosos ainda).

Sky Rojo
Em andamento (2021- )
Sky Rojo
Em andamento (2021- )

Criado por: Álex Pina

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Regular

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.