Sky Rojo continua frenética em sua segunda temporada

Netflix

Crítica

Sky Rojo continua frenética em sua segunda temporada

Série da Netflix se mantém latina até a raiz dos cabelos

Henrique Haddefinir
24.07.2021
13h09
Atualizada em
24.07.2021
13h21
Atualizada em 24.07.2021 às 13h21

Em determinado ponto da segunda temporada de Sky Rojo, um dos personagens perde um dos olhos ao ter um gancho de açougueiro lançado contra o próprio rosto. A sequência é gráfica, como se de repente a série tentasse fazer alguma espécie de citação ao gênero do horror. Contudo, logo em seguida, a vítima do ataque surge usando um tapa-olho. O texto da série – latino até a raiz dos cabelos – enfeita o momento com seu exagero essencial. Subitamente, somos levados até os primórdios das produções mexicanas, com suas vilãs unidimensionais, que também usavam o mesmo acessório. Sky Rojo vive desse jeito: referenciando.

Em outro momento, Wendy (Lali Espósito) passa por uma grande ruptura pessoal. Para ilustrar isso, o criador Álex Pina (La Casa de Papel) mantém a ambiguidade do discurso da série - desequilibrada entre fetiche e empoderamento – usando a personagem para sua “lavagem cerebral”. Wendy surge em cena parecidíssima com a Arlequina de Margot Robbie, só trocando o taco de baseball por uma espingarda. É mais uma das “homenagens” implícitas da série, que se desenvolve quase como se tentasse esconder mensagens subliminares em suas sequências: reunir tudo que agrada dentro do gênero da ação e torcer para dar certo.

Esse não é exatamente um defeito. De fato, apesar de esconder entre suas perseguições e explosões uma evidente fuga para a superficialidade, Sky Rojo é extremamente competente no que faz. Seu modelo de temporada (8 episódios muito curtos, de no máximo 28 minutos) também ajuda a deixar a audiência atenta, sem nenhuma sensação de cansaço. Há algumas considerações a serem feitas, mas tal qual várias produções de língua espanhola vem fazendo, Sky Rojo se comunica com um tipo de público e é fiel a ele, se dando somente ao trabalho de dentro de seu estilo, cumprir com o papel de parecer cara e acessível.

Outro fator positivo para a equipe de criação foi saber que as duas primeiras temporadas seriam filmadas em sequência. Assim, os arcos foram planejados para 16 episódios, divididos em duas partes de 8, com o cuidado de inserir alguma grande mudança no episódio que passava de uma temporada para a outra. Com isso, os acontecimentos parecem fluídos e o ritmo é mantido no nível mais alto. Não há perigo de perda de elenco, não há fragilidade narrativa e nem nenhuma interferência externa. Fica muito claro que os autores sabem onde querem chegar e apesar de salvarem seus personagens da maioria dos riscos de morte, há algumas boas surpresas e ousadias. O tapa-olho, inclusive.

Sky Red

Quando a segunda temporada começa, os personagens estão no meio do turbilhão deixado pelos acontecimentos do ano anterior. Embora a narração em off tenha diminuído, é ela que acaba sendo usada como ponte e como preparação nos episódios mais emblemáticos. Ela funciona melhor quando é mesmo em off. Nas ocasiões em que Coral (Verónica Sanchéz) fala diretamente com o público, ela não consegue proteger o texto, que soa um tantinho mais cafona. Mas, nesse começo ela precisa estar em evidência, já que sua captura por Romeo (Asier Etxeandia) é o que domina os primeiros episódios.

Coral, inclusive, continua sendo um problema para a série. Apesar de ter sido construída para ser complexa, com seu vício e a doentia paixão por Moises (Miguel Ángel Silvestre), Coral não consegue convencer o espectador a torcer por ela. Àlex Pina tem uma profunda atração pela toxicidade das relações, mas perde o ponto com Coral e Moises. O que deveria ser uma torcida aberta do público para que eles fiquem juntos se transforma numa torcida para que eles acabem logo um com o outro. E é mais ou menos o que também acontece com Moisés e Christian (Enric Auquer). São tantas cenas entre eles na mesma dinâmica de “fico no crime ou saio do crime”, que perdemos o interesse em vê-los fazer qualquer uma das duas coisas. Christian, aliás (e assim como Coral), é um personagem odiável em 99% do tempo.

Wendy e Gina (Yany Prado) seguem intactas. Wendy, inclusive, tem um arco na temporada que envolve um antigo cliente e esse arco acaba servindo muito bem como comparativo para o que os criadores não conseguem fazer com o casal principal. Em poucas cenas, Wendy e o antigo cliente criam uma conexão imediata. A maneira como o roteiro o coloca dentro da ação ajuda muito, mas tanto ela quanto Gina são despretensiosas, reais. Coral, Moisés, Christian e também Romeo, forçam uma complexidade, exigem o drama, babam, suam, gritam... E entre eles pelo menos Romeo se salva, já que sua filosofia de bordel continua esperta e interessante.

O fetiche do mercado de produções em língua espanhola é pela autodestruição e pelo sexo. Esse é um problema que assola quase todos os títulos que recheiam a Netflix. Em Sky Rojo, a receita vem com esteróides. É tudo tão regado a sexo, drogas e sangue, que falta espaço para construir relações de afeto. Nada parece verdadeiro entre os personagens. Nada pode durar. Mas, a série tem uma proposta de ter uma ação vertiginosa. Ela propõe e ela cumpre esse papel. É a isso que ela se dedica, o que resulta num bom trabalho técnico, mas também em desertos sensoriais. As emoções são vazias, mas com tanta pressa de atirar e explodir coisas, quem está interessado em “sentir”?

Assim, a segunda temporada termina com boas decisões, alguns sacrifícios necessários e resoluções promissoras para o futuro. Se um ano 3 não vier (o que é muito improvável), tudo terá sido satisfatório. A história que Sky Rojo quis contar pode não ser a mais substancial do mundo, pode não ser povoada de camadas. Mas, a série definitivamente soube como contá-la.

Sky Rojo
Em andamento (2021- )
Sky Rojo
Em andamento (2021- )

Criado por: Álex Pina

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Bom

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