Netflix O Silencio da Cidade Branca

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

O Silêncio da Cidade Branca

Longa espanhol da Netflix utiliza elementos clássicos para criar expectativas, mas cai em sua própria armadilha para confundir

André Zuliani
20.03.2020
16h35

É gratificante encontrar filmes que te fazem mergulhar no mundo dos thrillers psicológicos, que não apenas oferecem uma experiência emocionante, mas também refletem sobre nossos medos de diferentes maneiras. Quando a narrativa em torno de um mistério é coerente com a experiência quase sufocante de quem está assistindo, é quase impossível que o resultado final seja decepcionante. Se Hannibal Lecter entrou para a história como um dos maiores personagens da história da cultura pop, não foi apenas pela chuva de prêmios entregues a O Silêncio dos Inocentes e ao ator Anthony Hopkins. Todo o desenvolvimento construído ao longo do filme, a química com a Clarice Starling de Jodie Foster e as nuances que fizeram do doutor canibal único culminaram no final catártico conhecido por muitos. O mesmo pode-se dizer de Seven – Os Sete Pecados Capitais, que figura não só em listas dos melhores suspenses do século XX, mas também nas dos finais mais surpreendes – Brad Pitt e Kevin Spacey que o digam.

Produções como essas utilizaram elementos que continuam reaparecendo ano após ano, algumas sustentando as expectativas criadas, outras nem tanto. O fato de tais elementos terem se tornado tão característicos pode resultar em certas armadilhas. Se o roteiro cria muitas peças para serem encaixadas, a urgência em cumprir esse objetivo pode criar uma sensação agridoce. Sabemos que há qualidade no que estamos assistindo, mas parece faltar alguma coisa. O Silêncio da Cidade Branca, novo longa espanhol original da Netflix, cai em uma dessas armadilhas.

O filme é uma adaptação do best-seller de Eva García Sáenz e conta a história do serial killer conhecido como O Assassino do Sono, que assombrou a população de Álva, província que compõe a região do País Basco, na Espanha, há 20 anos. Ele se tornou notório por cometer crimes macabros contra duplas, sempre formadas por um menino e uma menina. Seu padrão era pitoresco: as primeiras vítimas tinham cinco anos de idade; a segunda dupla foi morta aos dez, enquanto a última tinha quinze anos. Os corpos eram encontrados sempre na mesma posição, nus e com um girassol cobrindo as partes íntimas. As mortes aterrorizaram as pessoas até a prisão e condenação do responsável, um homem chamado Tasio, que se tornou ainda mais conhecido nos anos seguintes por se tornar escritor e ganhar diversos seguidores nas redes sociais por conta de textos em um perfil criado por fãs. Quando sua saída da prisão está prestes a acontecer, novos assassinatos são cometidos em Álva, repetindo o mesmo padrão do Assassino do Sono, mas desta vez vitimando um casal em torno dos 20 anos. A polícia, suspeitando de um imitador, recruta o detetive Unai Ayala (Javier Rey), que estava afastado do cargo, para resolver o caso.

As características (ou homenagens) às obras clássicas se destacam logo no início. Para tentar entender o que motivou alguém a repetir as ações de décadas atrás, Unai vai até a cadeia para conversar com Tasio (Alex Brendemühl), o homem condenado pelos assassinatos. A dinâmica tenta evocar a mesma relação vista entre Hannibal e Clarice, e aqui se observa o primeiro erro da produção. Para começar, Brendemühl não tem um terço do talento de Hopkins. Por mais que tente fazer frente ao detetive, Tasio está sempre um passo atrás, muito por conta de seu jeito intempestivo, tornando os diálogos irregulares.

Como alguns bons filmes do gênero, O Silêncio da Cidade Branca faz um trabalho decente ao apresentar personagens moralmente ambíguos, todos ligados a um motivo comum. O longa atrai gradualmente, reunindo as peças de sua premissa intrigante ao mesmo tempo em que entrega respostas para confundir. A revelação do assassino feita de maneira rápida pode parecer um pouco anticlimática, mas logo percebemos que são as motivações dos crimes que tornam a trama tão interessante. Assim como John Doe em Seven, o Assassino do Sono traz alguns simbolismos e referências religiosas para explicar a mensagem que quer enviar com cada morte. Isso torna o antagonista um personagem muito mais interessante do que Unai, sofrendo com fantasmas do passado que, por conta da atuação de Rey, parecem mais lembranças ingratas do que traumas reais.

Com tantos detalhes em torno dos assassinatos, é preciso destacar o trabalho meticuloso dos roteiristas Roger Danès e Alfred Pérez Fargas em juntar as explicações que reúnem Adão e Eva, a alma do ser humano e a sociedade das abelhas para justificar as ações do vilão. Contudo, são esses excessos de sinais e informações que fazem o filme cair em sua própria armadilha para confundir o espectador. A importância nunca explicada de um apelido, o trauma de um acidente, uma atração injustificada entre colegas: O Silêncio da Cidade Branca parece não querer deixar de lado nenhuma trama da obra original, mas não se prontificou em separar tempo para resolver tudo.

Toda essa urgência em explicar o objetivo das mortes e unir o passado com o presente faz com que a reação ao término do terceiro ato seja de: “é sério?”. No fim, fica claro que a adaptação carece de substância e fica em dívida com explicações prometidas ao longo do filme. Por mais que tenha uma premissa satisfatória, o resultado final não sustenta a expectativa construída no início e impede que a obra seja elevada ao mesmo status dos filmes em que tanto se inspirou.

Nota do Crítico
Bom