Foto de Sergio

Créditos da imagem: Sergio/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Sergio

Wagner Moura vive o diplomata brasileiro em filme que engana a si mesmo com suas reverências

Marcelo Hessel
09.04.2020
00h02

Das baixas sentidas durante a invasão ao Iraque em 2003, nenhuma foi mais impactante, do lado dos ocidentais, do que a morte do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Representante da ONU que mediaria a transição política após a queda de Saddam Hussein, Sérgio ("todos conheciam ele pelo primeiro nome", diz em discurso o Secretário-Geral Kofi Annan) era tido como sucessor de Annan. O fiasco diplomático abalou as Nações Unidas, que hoje vê esvaziado seu papel de árbitro de conflitos mundiais.

É a partir dessa gravidade, e à luz dos desencontros entre as lideranças políticas do mundo hoje, que o filme Sergio se organiza. Sua força precede o filme de certa forma, e vem desse contexto. Então Wagner Moura interpreta o diplomata, logo de cara, com altivez e firmeza no discurso, com voz impostada, gravando um vídeo para novatos na ONU ou dando ordens aos seus comandados. É como se seu status de protagonista também o precedesse, e é curioso notar como o filme dirigido por Greg Barker - que já havia feito um documentário sobre Sérgio em 2009 - assume isso como dado consumado e passa a tratar de outras questões na construção do personagem.

Essas outras questões não estão necessariamente explicitadas no texto mas transpiram ao longo do filme; na dinâmica com seu jovem interesse amoroso, nas cenas de demonstração de atletismo e vigor físico, nos sorrisos fáceis de Moura enquanto caminha tranquilo pela rua no Timor Leste, na liberdade com que acelera a sua moto, o que temos é nada menos que um protagonista que, ciente do privilégio do seu próprio protagonismo, usa-o para se impor. Uma vez que o diplomata já surge no filme consolidado como mestre do seu ofício, a narrativa não-linear acaba, talvez inconscientemente, lidando mais com as repercussões morais disso. É como se Sérgio fosse James Bond, o curioso agente secreto que todo mundo conhece, e que usa amoralmente a fama que o precede a seu favor.

A comparação com 007 se insinua em escolhas de mise-en-scène que lembram thrillers sensuais nos Trópicos, o tipo de coisa que não se esperaria num relato sobre a ONU. De qualquer forma, Barker não parece muito empolgado em contar uma história sobre jogo político, e quando o faz soa bastante simplista. Seu filme é mais interessante quando tateia um jogo de influência e poder, aproveitando-se da química entre Wagner Moura e Ana de Armas. Na falta de intrigas políticas consistentes, o filme irradia o deslumbramento com o jogo de cintura e os impulsos sanguíneos do homem latino, um papel que Moura já fez vezes o suficiente para dominar sem esforço.

Nas mãos de um narrador ciente desses potenciais "secretos", e não de um apologista comovido, Sérgio poderia aproveitar melhor as contradições de seu personagem e se aprofundar nelas, ao invés de traçar relações de causa e efeito de entrega rápida, pensadas para adequar a jornada do diplomata aos manuais de heroísmo e martírio do cinema. É um filme que se pretende uma história de amor e vocação, mas que no fim se aproxima mais de um relato de vaidade e força, num caso de autoengano atroz.

Nota do Crítico
Regular