Sempre Bruxa - 2ª temporada

Créditos da imagem: Sempre Bruxa/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Sempre Bruxa - 2ª temporada

Entre piratas e viagens no tempo, Sempre Bruxa continua seu caminho superficial entre as narrativas fantásticas contemporâneas

Henrique Haddefinir
29.02.2020
19h39

No primeiro episódio da segunda temporada de Sempre Bruxa, a protagonista Carmem (Angely Gaviria) está no passado, nos anos 1600, junto com a amiga moderna Alicia (Sofia Bernal), procurando por Johnny Ki (Dylan Fuentes), que foi parar na época no final da temporada passada. Em dado momento, após encontrá-lo, as meninas descobrem que ele pretende ficar mais um pouco e Carmem, preocupada, lhe diz: “Eu carreguei o seu telefone. Se você demorar eu vou te ligar”. Considerando que estamos falando de um personagem que ficará nos anos 1600, a ideia de que linhas telefônicas de última geração funcionem a ponto de atravessarem séculos, parece, no mínimo, ridícula.

Esse é só um dos aspectos descuidados da dramaturgia da série, que de tão ansiosa em contar sua história sobrenatural, esquece coerências básicas que afastam o espectador do envolvimento com a produção. O mundo de Carmem é tomado dessas questões sobrenaturais, mas a ideia de levá-la para os tempos modernos parecia ter o intuito de colocar a personagem num contexto dinâmico, em que as particularidades dos anos 2000 influenciassem sua vida. Vimos pouquíssimo disso na primeira temporada e agora, na segunda, a sensação é de que nunca houve real peso dramático nessa mudança de ares. Os anos 2000 só repetem as mesmas características do passado.

Carmem surge nessa nova empreitada mais segura do que nunca em sua posição de “garota universitária que faz feitiços”. Esse, inclusive, é outro aspecto falido da série. Ela situa seus personagens numa faculdade onde não há rotina, não há estudo, não há interações básicas para servirem ao enredo. Carmem estudar lá, por si só, já configura outra maluquice injustificavél da trama. Mais ainda quando seus conhecimentos de buxaria começam a se espalhar pelo campus e ela se torna “famosa”. Sem nenhum ponderamento, o roteiro simplesmente forma uma fila de clientes e a moça passa a atender indiscriminadamente, envolvendo um monte de gente inocente em seus problemas (o que chega a um apogeu absurdo na reta final da temporada).

Nem Sempre Bruxa

Dessa vez os inimigos de Carmem são mais contemporâneos. A série usou Alicia como uma aliada fiel e aprendiz da bruxaria da amiga. Do outro lado, contudo, Amanda (Laura Archbold) é outra personagem do mundo moderno que começa a se envolver nessas mesmas questões, seguindo pelo lado mais sombrio da força, rivalizando com Carmem pelo poder não só de ser uma bruxa, mas de acessar os segredos mitológicos que foram estabelecidos no primeiro ano. A temporada passa muito mais tempo no ano 2020 e também abre mão de alguns envolvimentos românticos enfadonhos, o que não deixa de ser uma grande vantagem para quem conseguiu assistir até aqui.

Os exageros, entretanto, seguem seu curso. A inserção de piratas na dinâmica da série é estranha e mal utilizada, com o roteiro se atendo apenas a levar Kobo (Òscar Casas), o pirata protagonista dessa trama paralela esdrúxula, para o mundo moderno, onde ele passa o tempo todo numa pseudo caça ao tesouro que soa cômica e infantil. A dramaturgia o aproxima de Alicia, se esforça para dramatizar seu destino, tenta envolvê-lo de um charme que possa fazer correlações até mesmo com o Hook, de Once Upon a Time... Mas, a coisa toda é só incoerente e desnecessária. E que acaba também rebaixando a posição de Johnny Ki nos eventos.

Quando estamos nos aproximando do final, a história começa a sugerir a trama da perda dos poderes de Carmem e comete um ato de ousadia: para que volte a ser uma bruxa seus amigos precisam cometer um estapafúrdio sacrifício. A linha de raciocínio de Ana Maria Parra (a criadora) é a grande prova do descaso que tem por todos os outros personagens que não sejam a protagonista. Carmem é autocentrada e egoísta em vários momentos, mas apesar de estarem sempre em perigo por causa dela, não há da parte de seus amigos nenhuma sensatez ao lidarem com a situação. Ela não é confrontada e nem desafiada. Todos só fazem o que ela quer e a história vai perdendo suas chances de discutir, ao menos um pouquinho mais, que relações são essas que a protagonista construiu.

Por fim, é muito difícil salvar qualquer coisa do que Sempre Bruxa apresentou nesses dois anos. Se for para celebrarmos a série por alguma razão, que seja por ser uma produção estrangeira, protagonizada por uma atriz afro-latina forte e que abriu o mercado para outras que possam vir depois dela. Isso já é bem bacana; e o que de melhor podemos dizer até aqui.

Nota do Crítico
Regular