Resident Evil: No Escuro Absoluto é repetição medíocre do que já vimos na saga

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Resident Evil: No Escuro Absoluto é repetição medíocre do que já vimos na saga

Primeira temporada da série da Netflix não justifica formato e desperdiça Claire e Leon

Eduardo Pereira
16.07.2021
17h18
Atualizada em
21.07.2021
17h09
Atualizada em 21.07.2021 às 17h09

Resident Evil: No Escuro Absoluto é a primeira série de animação da Netflix dedicada a adaptar o universo homônimo de games da Capcom, tornando-se parte oficial do cânone dos jogos e se posicionando entre as histórias contadas nos consoles por Resident Evil 4 (2005) e Resident Evil 5 (2009). Ela é, também, uma decepção. Ao invés de trazer algo novo em um formato nunca antes explorado pela franquia, carrega apenas um emaranhado de referências que só não surgem soltas em tela graças a um fiapo de história. Pior: nada de realmente novo é apresentado para quem acompanha, há mais de 20 anos, outros derivados audiovisuais da marca Resident Evil.

Desde 2008, com Resident Evil: Regeneration, a Capcom extrapola as narrativas dos jogos em filmes animados protagonizados insistentemente por Leon Kennedy, personagem original de Resident Evil 2 (1998). Com alterações aqui e ali, a fórmula típica das histórias não é diferente de uma versão condensada das tramas interativas dos consoles: ao lado de um parceiro rotativo, Leon se envolve em alguma conspiração ligada a bioterrorismo (e zumbis!), expõe alguma maracutaia de interesses escusos dos poderosos e enfrenta um ser mutante assustador em um terceiro ato digno das mais genéricas boss fights dos games. Foi assim em Resident Evil: Damnation (2012) e Resident Evil: Vendetta (2017).

A regra das produções é, portanto, o fan service, mas No Escuro Absoluto é tão derivativo do que já foi visto antes que nem isso parece funcionar tão bem. A trama coloca Leon a serviço da Casa Branca, no encalço de uma conspiração envolvendo uma tragédia ocorrida no Oriente Médio, justamente em área que é ponto de interesse para Estados Unidos e China. Paralelamente, Claire Redfield trabalha em um centro de assistência na região, partindo em busca das mesmas respostas que Leon. O co-protagonismo entre ambos, entretanto, não é pleno: ele monopoliza as grandes sequências de ação e descobertas, enquanto ela é instrumentalizada a ponto de cair no clichê da “donzela em perigo”.

Dar o pontapé inicial das produções de Resident Evil na Netflix com uma trama dedicada a Leon e Claire, dois dos mais populares personagens da saga se reunindo após Resident Evil 2, trazia grande promessa. Portanto é uma pena descobrir, ao longo dos quatro episódios de No Escuro Absoluto, que os roteiristas Shogo Moto e Eiichirō Hasumi (que também dirige a série) optaram por separar a dupla em quase toda a jornada, reduzindo a maioria das interações entre eles a diálogos triviais. A cena mais importante dividida pelos dois, inclusive, deve irritar fãs mais antigos do ex-policial de franja esvoaçante: Leon faz uma escolha questionável que parece forçada apenas para abrir opções narrativas em futuras temporadas. Se houver alguma, é claro.

Netflix/Divulgação

O resultado disso é que as tramas paralelas de Leon e Claire precisam ser muito envolventes para sustentar o interesse ao longo de quatro episódios, mas esse também não é o caso. Com diálogos genéricos, alegorias políticas já bem datadas (a história se passa em 2006) e personagens de apoio com pouco tempo de desenvolvimento, o desenrolar dos eventos não empolga muito mais do que qualquer cutscene de jogo da franquia. Assim, uma maratona que deveria ser fácil e rápida acaba exigindo mais olhadas no celular do que deveria.

Resta como chamariz, portanto, as grandes cenas de ação — não à toa, Paul W. S. Anderson emplacou seis adaptações bem questionáveis dos jogos no cinema só com o apelo de sequências megalomaníacas com sangue falso e câmera lenta. Só que No Escuro Absoluto esbarra em limitações técnicas também nesse quesito. A animação em CGI assinada pelo estúdio japonês Quebico parece quase fotorrealista em planos estáticos, mas quando o movimento em tela abunda, imperfeições saltam aos olhos e colocam a qualidade gráfica da produção no nível já ultrapassado de Final Fantasy (2001). O resultado é que não há tanta ação assim; e, quando há, ela falha em empolgar ou surpreender.

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Colocando tudo isso na balança, não há muita coisa jogando a favor dessa primeira temporada de No Escuro Absoluto. Até o formato serializado não se justifica, já que todos os episódios compõem um mesmo arco de menos de duas horas de duração. Se, nos games, Resident Evil conseguiu se reinventar para abraçar diferentes gêneros, expandir o apelo de nicho e voltar a ser um dos maiores títulos de games do mundo, talvez seja a hora de aprender a ousar mais fora deles. Especialmente tendo a Netflix como vitrine global da franquia.

Resident Evil: No Escuro Absoluto
Em andamento (2021- )
Resident Evil: No Escuro Absoluto
Em andamento (2021- )

Criado por: Capcom

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Regular

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