Ragnarok, série norueguesa da Netflix

Créditos da imagem: Ragnarok/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Ragnarok - 1ª Temporada

Série norueguesa da Netflix tem boa ambientação inspirada na mitologia nórdica, mas esquece que precisa ter histórias para contar

Arthur Eloi
31.01.2020
16h17

A expansão global da Netflix não se limita a disponibilizar a plataforma em vários países, mas também inclui ter conteúdo original de todos os cantos do mundo. Foi assim na Espanha, Brasil, Polônia e agora o streaming chega à Noruega com Ragnarok. Os vários deuses, heróis e contos que compõem a mitologia nórdica são o maior sucesso de exportação do norte europeu. Basta observar Vikings que, mesmo em uma emissora amadora para ficção, conquistou o mundo. A nova produção entende isso e questiona como esses elementos funcionariam no mundo moderno ao trazer a história do jovem Magne (David Stakston), que descobre ter os poderes de Thor, o deus do trovão. Mas o seriado não pode ser descrito apenas como uma história de origem. Na verdade, é uma enorme mistura de gêneros.

A série adolescente combina o autodescobrimento e treinamento do protagonista com um arco de high school, que explora relações e popularidade na escola, mas também toca paralelamente uma conspiração governamental. Para fechar com chave de ouro, há um lado sobrenatural, em que a família que comanda a pequena cidade de Odda através de dinheiro e influência são criaturas anciãs disfarçadas. Ragnarok se bagunça tanto nas abordagens e possibilidades narrativas que até esquece que precisa de algo para contar. Nenhuma trama ganha destaque como a principal e, como consequência, tudo é desenvolvido pela metade.

O programa não parece valorizar muito bem a noção de construir suas viradas. Toda a motivação de Magne em derrubar a família poderosa da cidade vêm da suposta morte acidental de sua única amiga da escola, já que ele suspeita que a polícia e seus professores encobrem a verdadeira causa. O problema é que tudo isso acontece ao longo dos 45 minutos do piloto - que começa com o protagonista, seu irmão e sua mãe chegando na cidade em questão. Quando a garota morre, é difícil sentir qualquer coisa. Porém ela não é a única que desperta esse efeito, afinal nenhum personagem é realmente marcante, fácil de se conectar ou tem algum semblante de naturalidade. Tanto o roteiro quanto as atuações são tão frias quanto os cenários congelados em que Ragnarok se passa. O mais próximo de carisma encontrado aqui é Laurits (Jonas Strand Gravli), o sarcástico irmão de Magne que é uma alusão bastante óbvia a Loki, o deus da trapaça.

O que salva o seriado de ser completamente monótono é sua boa ambientação. Odda não só tem belíssimas vistas montanhosas, muito bem aproveitadas pela fotografia e direção, como também se liga diretamente à premissa. Como informa um professor no primeiro episódio, a pequena cidade norueguesa foi a última do país a se converter ao cristianismo, ou seja, é o lugar onde ocorreu o fim de todos os deuses antigos - evento conhecido na mitologia como Ragnarok. Simbolismos do tipo não são apontados com muita sutileza (geralmente são expostos em diálogos), mas enriquecem o resgate dos contos nórdicos clássicos. Sem esconder o tom ambientalista, o programa olha para a situação atual da Noruega e do mundo, e usa o contraste com conceitos clássicos como forma de crítica política. Mesmo que seja raso e discursivo, há alguns paralelos interessante com as histórias originais. A relação com a natureza era parte integral das crenças dos povos nórdicos, que até usavam os deuses como justificativa para diversos fenômenos naturais.

Quando trazidos para o mundo moderno, os heróis são representados como os jovens ativistas, e os inimigos - criaturas com fome de adoração e destruição chamadas de gigantes - viram as famílias ricas, donas de indústria, cujo poder os livra de qualquer consequência. Ainda que não seja tão bem construída, é a combinação que soa ousada e original. Mesmo sendo facilmente o elemento mais explorado, esse comentário social sofre de desenvolvimento precário e falta de uma conclusão, já que a série apenas termina, sem fechar nenhuma das várias tramas que abre.

Há certa frieza em todo aspecto da obra, seja no texto pró-meio-ambiente, nas atuações, nas lutas sobrenaturais ou no drama adolescente. No fim das contas, Ragnarok surpreende por ser uma mistura de tantas abordagens diferentes que não chega em lugar algum.

Nota do Crítico
Regular