Crítica | Quem Matou Sara? erra ao estacionar em clichês de novela

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Crítica

Crítica | Quem Matou Sara? erra ao estacionar em clichês de novela

Série não consegue invocar um suspense nos moldes de Agatha Christie

Henrique Haddefinir
02.04.2021
13h25
Atualizada em
02.04.2021
14h29
Atualizada em 02.04.2021 às 14h29

Todo gênero narrativo tem suas diretrizes e nossa forma de olhar para uma obra está diretamente ligada a como nos relacionamos com esses códigos. É por isso que muitas vezes quando assistimos a uma série dizemos coisas do tipo “isso é coisa de cinema” ou quando vemos um filme dizemos “isso dava uma série”. De forma consciente ou não, essas características são absorvidas e todo espectador sabe um pouco de cada uma delas. O bom e velho “quem matou” é um ótimo exemplo, trazido na série Quem Matou Sara?, produção mexicana da Netflix.

Os mais velhos nem precisarão se esforçar muito para lembrar de casos famosos de “quem matou” na dramaturgia brasileira, como a identidade do assassino de Odete Roittman em Vale Tudo. Até hoje, para esquentar um pouco as coisas, autores de telenovelas lançam mão do recurso e conseguem despertar o interesse de uma audiência que antes poderia estar entediada. O segredo é: a revelação precisa ser surpreendente e, ao mesmo tempo, fazer sentido.

Séries como The Killing mostram que o público pode ser implacável. Se ele perceber que está sendo enrolado demais, se desconecta imediatamente. Quem Matou Sara? começa exatamente no dia da morte de Sara (Ximena Lamadrid). O irmão dela, Álex (Manolo Cardona, que já fez novela no Brasil), é acusado e preso pelo crime. Como nos folhetins latinos, o caso envolve uma família rica e poderosa com um patriarca que faz qualquer coisa para proteger o patrimônio, e César (Ginés García Millán) convence Álex a assumir a culpa para proteger Rodolfo (Alejandro Nones), seu filho e melhor amigo do rapaz.

A série usa essa premissa que desafia o bom senso - por que Álex aceitaria se sujeitar a 18 anos de prisão nessas condições? - para estabelecer o obrigatório conflito de classe. Desvendar a morte de Sara se torna uma inevitabilidade no processo. Com essa base estabelecida, os coadjuvantes se espalham para garantir à obra sua “profundidade”. A matriarca da família se violenta, Rodolfo se corrói de culpa e sua esposa tem um romance secreto, o filho mais novo é gay (o que é usado como moeda de chantagem e manipulação o tempo todo) e filha Elisa se envolve romanticamente com Álex. A sucessão de tragédias periféricas se pauta no choque gratuito, esteticamente deslumbrante mas sem nenhum escopo emocional. É o truque que o Globoplay já está usando faz tempo.

Entre idas e vindas no tempo, o público reconhece a métrica das séries latinas imediatamente: ação, música pop e sexo. A necessidade de impressionar com “reviravoltas” é tamanha que passados criminosos vão sendo revelados como numa competição de quem aterroriza mais. Competição essa que Elroy (Héctor Jimenez) vence com larga vantagem. Com a fotografia certa e uma trilha mais teatral, o público pode até acreditar que todo aquele show de drama superficial tem alguma importância. A série tenta ser socialmente engajada ao falar de feminicídio e tráfico sexual, mas comete o crime da contradição ao desenvolver o assassinato de Sara em torno do que deveria estar defendendo. Isso sem falar na segunda temporada, que já tem trailer e insinua que a vítima, de certa forma, “não é tão vítima assim”.

Todos esses pontos parecem criar uma cortina de fumaça cacofônica porque no fundo Quem Matou Sara? não se dedica a responder bem a pergunta que levanta. Então a solução de emergência, também clássica, é emendar outro mistério para manter o interesse - sendo que Quem Matou Sara? sequer esclarece completamente o primeiro. Depois de 10 episódios, o espectador não é capaz de dizer objetivamente que sabe o que aconteceu. Começa a importar cada vez menos saber quem matou quem, e Sara que se vire no além-túmulo.

Quem Matou Sara?
Em andamento (2021- )
Quem Matou Sara?
Em andamento (2021- )

Criado por: ¿Quién Mató a Sara?

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ruim

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