Quem Matou Sara? dobra a aposta nos mistérios de soluções adiadas

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Quem Matou Sara? dobra a aposta nos mistérios de soluções adiadas

Segunda temporada da série mexicana fica mais longe de responder o que quer que seja

Henrique Haddefinir
20.05.2021
17h54

No texto sobre a primeira temporada de Quem Matou Sara?, falamos sobre os riscos de assumir uma narrativa que faz promessas vazias. O princípio básico de se apostar no esquema do “quem matou” é dar ao público uma resolução coerente com o que se apresenta ao longo do mistério. O ano um já termina perigosamente hesitante. Depois dezenas de reviravoltas rocambolescas, o espectador deparava com um final ambíguo, que dava uma explicação plausível mas não definitiva. Com uma segunda temporada garantida, era de se esperar, então, que outro mistério fosse encomendado para segurar o espectador.

À primeira vista, o esqueleto encontrado no quintal de Alex (Manolo Cardona) parecia cumprir essa missão. Porém, na segunda temporada, a série decide assumir outros riscos. Séries como How To Get Away With Murder, por exemplo, amarram um nó antes de abrir outro ponto, por mais inverossímil que seja. José Ignácio Valenzuela, criador de Quem Matou Sara?, resolveu dobrar a aposta nas pontas soltas.

Já sabemos que a série está apoiada nos clichês mais ultrapassados do folhetim clássico, mas por conta de uma técnica bem cuidada, as loucuras daquele roteiro e a pobreza daqueles diálogos são escudados pela sensação de que se está assistindo a algo que foi bem produzido. Pois outro golpe de reviravolta é esconder a fragilidade do texto com grandes orçamentos.

Alguém Matou Sara?

O mistério do esqueleto no quintal de Alex era só um embuste. A segunda temporada começa mesmo a investir em outro setor: a própria Sara (Ximena Lamadrid). O comportamento da vítima se torna o foco das investigações do protagonista, num movimento de especulação para culpabilizar Sara. Através de muitos flashbacks, os episódios revelam mais eventos traumáticos distribuídos para chocar. O DNA da novela mexicana se impõe na série; os vilões são terríveis, sem humanidade nenhuma, unidimensionais, e recorrem aos métodos mais clichês, do sequestro ao fingimento da própria morte.

A estratégia de dobrar a aposta no drama e no mistério implica que nada pode dar certo: não há alívios cômicos nem momentos de ternura. O que se permite, claro, são as doses cavalares de apelo sexual. Abusos, estupros, torturas, traições... Tudo se amontoa no sensacionalismo sem dar ao espectador um respiro. Tudo é tão dramático que no fim das contas nada tem verdadeira importância, porque tratamos o sofrimento como uma coisa indissociável desses personagens.

A relação entre Alex e Elisa (Carolina Miranda) não se desenvolve, já que ele ou ela está sempre em perigo. A relação quase bela entre Chema (Eugenio Siller) e Lorenzo (Luiz Roberto Guzman) repete o lamentável ciclo da interferência de uma mulher (recorrente em produções latinas). É como se o criador da série estivesse implodindo os próprios núcleos de elenco. Na já confirmada terceira temporada, é provável que todos passem a agir como agentes solitários, uma vez que, com exceção do fio que segura Alex e Elisa, não sobrou um só laço que não tivesse sido desfeito. Na ressaca das verdades negadas e desfeitas, fica a impressão de que enquanto houver Quem Matou Sara?, ninguém terá matado Sara.



Quem Matou Sara?
Em andamento (2021- )
Quem Matou Sara?
Em andamento (2021- )

Criado por: ¿Quién Mató a Sara?

Duração: 2 temporadas

Nota do Crítico
Ruim

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