Pearl Thusi em Queen Sono

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Queen Sono - 1ª Temporada

Primeira produção africana da Netflix reúne clichês do mundo da espionagem, mas de forma honesta

Henrique Haddefinir
03.03.2020
09h30

Existem alguns tipos de narrativa que estão culturalmente atreladas à própria geografia. Histórias de espionagem, por exemplo, nos remetem aos Estados Unidos imediatamente. Um pouco, também, às narrativas britânicas. Nas histórias, eventualmente viajamos para países latinos e, em quase todos os casos, para a Rússia. Mas, os personagens e os métodos são muito centrados nos códigos norte-americanos. Contudo, não existe nenhum livro de regras que proiba outras culturas de contar histórias que bebam nessas mesmas fontes.

Queen Sono, da Netflix, é um exemplo de retransmissão dessas sistemáticas narrativas. Ela é a primeira produção original da plataforma que tem raízes 100% africanas, com elenco, equipe e ambientação situadas na África do Sul, onde o mercado do entretenimento busca crescimento a despeito das limitações técnicas que são reais por lá de uma forma até chocante. Ainda em pleno 2020, o acesso a internet em boa parte do continente é problemático e muito restrito, o que torna o investimento em streaming um negócio que depende de um olhar muito mais panorâmico.

Justamente por precisarem pensar em apelo e em conquistar o público de outros países, os códigos genéticos da série foram planejados para serem reconhecíveis. Ainda que estejamos na África, ainda que as cores e a cultura apareçam, o miolo narrativo da produção foi buscar referêrencias que deixassem a série confortável para todos. A questão da espionagem, enfim, acabou sendo uma opção amplificadora, já que através desse conceito eles poderiam explorar politica externa, terrorismo e territorialismo, questões vigentes no país e que são relacionáveis com outras partes do mundo. Nem sempre isso foi bem feito na temporada, mas acabou sendo uma estratégia inteligente.

Na história, Queen Sono (Pearl Thusi) é uma jovem espiã que traz junto com sua ousadia um legado que pesa todos os dias em seus ombros. Ela é filha de uma grande revolucionária do país, morta quando Queen era só uma menina. Toda a África do Sul celebra a vida dessa revolucionária, mas a própria Queen não tem uma memória positiva da mãe. Mesmo assim, ela deseja descobrir as verdadeiras circunstâncias dessa perda, o que, é claro, leva a história até um ponto de ruptura que começa a envolver a política, empresas obscuras e até mesmo a agência onde a protagonista trabalha. É uma trama muito típica, mas escorada com cautela.


A Rainha

É claro que se estamos falando de uma série que vai usar os códigos do gênero da espionagem, uma rivalidade pessoal entre Queen e sua antagonista se faz necessária. É possível ver a forma comos os produtores pensaram nesses códigos de uma maneira quase ingênua, basta pensar na construção da vilã Ekaterina Gromova (Kate Liquorish), a responsável por liderar uma empresa de segurança terceirizada para o governo, mas que esconde envolvimento com atividades terroristas. Ela não só é uma das poucas pessoas brancas do elenco, como também acabou ficando com a nacionalidade mais óbvia: russa.

Assim, usando descaradamente todas as cores desse conjunto de referências norte-americanas, Queen Sono vai levando sua trama usando o mínimo de efeitos especiais, mas caprichando nos embates físicos. O valor de produção é claramente limitado, mas os roteiros acertam tentando contextualizar as tramas dentro da realidade local, com patriotismo sendo colocado em perspectiva junto com decisões governamentais e ameaça terrorista. Os diálogos ajudam na missão, sem muita inventidade, apenas servindo a um propósito honesto e objetivo. Ekaterina, a vilã russa, ameaça a verossimilhança das próprias palavras em vários momentos, mas a série consegue equilibrar o exagero.

As paisagens africanas e a boa decisão de manter diálogos em língua nativa conferem um charme a mais a Queen Sono. O Zulu, o Afrikaans e o Swahili são falados em comunhão com o inglês que também pode ser comumente ouvido na África do Sul. O elenco é todo muito correto e Pearl Thusi alcança uma protagonista forte e vulnerável, ao passo em que a história avança e as perdas e limites vão se acumulando. Há um gancho válido para uma segunda temporada e, mesmo que levada por identidade não muito original, a série merece nossa atenção e um voto de confiança. Queen Sono não é memorável, mas é um pontapé inicial sincero e digno.

Nota do Crítico
Bom