Peaky Blinders

Créditos da imagem: Divulgação

Netflix

Crítica

Peaky Blinders - 5ª temporada

Mais político, quinto ano abraça a vida real e dissolve a família Shelby em conflitos e traumas psicológicos

André Zuliani
04.10.2019
09h00
Atualizada em
04.10.2019
18h09
Atualizada em 04.10.2019 às 18h09

Em outubro de 1929, o mundo estava à beira do colapso. A bolsa de valores de Nova York havia quebrado e milhares de pessoas perderam suas fortunas de uma hora para outra. O nível de desemprego era altíssimo e os “sobreviventes” tentavam juntar os cacos dessa crise para não perder o pouco que lhes restavam. Era o início da chamada Grande Depressão. 

Começar a quinta temporada a partir dessa premissa foi uma maneira do criador/roteirista Steven Knight mostrar o que esperava Tommy Shelby (Cilliam Murphy) e os Peaky Blinders no novo ano: caos.

Equilibrar ficção e vida real nunca foi um problema para a série, que já apresentou algumas figuras históricas ao longo dos anos para contracenar com seus personagens. Agora, a trama abraça de vez a realidade. Com a população descrente com o rumo do país após a quebra da bolsa, o período entre o final da década de 20 e início dos anos 30 foi palco do surgimento de um movimento que marcou para sempre a história da humanidade. Representada na figura de Oswald Mosley (Sam Clafin, perfeito no papel), nascia na Inglaterra a União Britânica dos Fascistas, célula que reunia os nacionalistas britânicos que, nos anos seguintes, apoiariam líderes populistas como Benito Mussolini e Adolf Hitler. Durante os seis episódios, a jornada enfrentada pelos Shelby os leva a encarar o aumento da ameaça fascista pouco a pouco, politizando mais a trama sem a tornar, de fato, política. 

Abusando de sua qualidade, o texto de Knight está mais afiado do que nunca. Diminuíram os embates entre gangues e aumentaram os diálogos ácidos e afrontosos.  Ouvir Mosley expor o caráter opressor de sua filosofia política é tão encantador quanto aterrorizante. Clafin rouba a cena enquanto discursa para a nobreza britânica, seja na Casa dos Comuns ou durante uma simples festa. Sua atuação transmite com nitidez a sedução da oratória de um líder político que banca o salvador em tempos de dificuldades.

É nessa análise do discurso que entendemos o que torna o deputado mais ameaçador do que qualquer outro vilão de temporadas anteriores. Mosley não é um gângster que pode ser apagado com um simples tiro ou suborno. Ele representa uma ideia, uma ideologia tóxica que arrasta seguidores por onde passa. 

Outro grande acerto da narrativa é recuperar o sofrimento psicológico dos personagens. Durante a primeira temporada, era comum a ver Tommy e Arthur (Paul Anderson) sofrerem com os traumas da Primeira Guerra Mundial. Anthony Byrne, diretor escolhido para comandar a os novos episódios, eleva as consequências das ações dos irmãos Shelby para a saúde mental de cada um. Enquanto Tommy delira com a esposa morta e referências de autoflagelação, Arthur é incapaz de conviver com a própria existência. Em Small Heath, nem todo o ópio da Inglaterra consegue apagar uma vida de crimes e perdas.

Essa fragilidade apresentada pelos protagonistas os expõe e traz vigor novo para a produção. O patriarca dos Peaky Blinders finalmente atingiu o seu limite. É o encontro de um homem com a sua própria escuridão e sua luta para não perder o trono e cair no esquecimento. Apesar de Mosley ser o antagonista físico, a mente de Tommy também se torna um inimigo à altura. É preciso lutar contra si mesmo e reencontrar a calma característica do personagem para poder enfrentar o fascista. Ao mesmo tempo, ele lida com a paranoia de ter um traidor dentro de sua própria gangue.

Com o retorno de Byrne garantido na direção da próxima temporada, é possível que a trama explore ainda mais os surtos da família Shelby e coloque à prova a fidelidade de cada um  – os eventos do season finale abrem espaço para rumos inexplorados na série. Enquanto os Peaky Blinders ainda estiverem no topo, o perigo sempre estará por perto. E pelo que foi visto até agora, pode estar mais próximo do que nunca.

Nota do Crítico
Ótimo