Elenco de Os Irregulares de Baker Street

Créditos da imagem: Os Irregulares de Baker Street/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Crítica: Irregulares de Baker Street traz universo de Sherlock Holmes aos jovens

Série baseada no universo de Arthur Conan Doyle faz mudanças convenientes para público adolescente, mas tem produção caprichada

Henrique Haddefinir
04.04.2021
16h53
Atualizada em
05.04.2021
17h04
Atualizada em 05.04.2021 às 17h04

O primeiro livro publicado com uma história de Sherlock Holmes foi Um Estudo em Vermelho, de 1887. Nele, foram feitas as primeiras menções ao grupo de meninos de rua que ajudavam Sherlock com pistas para seus casos. Esse grupo voltou a aparecer em mais um romance e, mais tarde, em um conto. O papel deles nas histórias era totalmente terciário, com uma função única e específica: prover informações em troca de compensações. No curso da dramaturgia, vimos isso acontecer muitas vezes em outras produções, indo desde o informante criminal clássico até o contemporâneo “nerd da cadeira”.

Essa relação entre investigador e trabalho terceirizado é muito reconhecível em séries procedurais, com algumas variações de posicionamento, mas sempre com a função de ajudar o protagonista a chegar onde ele precisa. Nas histórias de Sherlock o grupo que vivia na rua era formado de crianças e esse também acabava sendo um fator determinante para que não houvesse nenhum desenvolvimento deles enquanto personagens. Esse não era o objetivo do autor Arthur Conan Doyle, que estava colocando no papel o detetive mais importante da literatura, que precisava ser mais competente que qualquer outro.

Contudo, o objetivo do roteirista e produtor Tom Bidwell, criador de Os Irregulares de Baker Street,não é enaltecer o ícone e sim desmistificá-lo. Segundo ele mesmo, sua série é sobre um grupo de jovens que faz o trabalho duro enquanto Holmes fica com os créditos; sendo esse, enfim, o diferencial mais importante da produção. Além de ter envelhecido os personagens (para atingir o sempre lucrativo público adolescente da Netflix), eles se tornaram o centro da narrativa. Sherlock (Henry Loyd Hughes) e Watson (Royce Pierreson) são os adultos coadjuvantes e de caráter duvidoso que pagam pelo serviço.

Há uma outra mudança muito importante e que sinaliza ainda mais intensamente esse aspecto comercial da série. Os Irregulares já apareceram em outras adaptações, claro. Em Elementary, por exemplo, eles eram um grupo de especialistas que o protagonista acessava quando precisava de informações específicas. Porém, em nenhuma dessas adaptações o fator sobrenatural era parte importante da história. Essa união de jovens com poderes fantásticos já é um filão na Netflix. O trabalho de Tom Bidwell, por conta desses detalhes, acaba se tornando questionável. A história que acompanhamos na série tem tantas diferenças que poderia funcionar sozinha, sem precisar da chancela do icônico personagem de Doyle.

Irregulares Regulares

A história da série, aliás, é bastante complexa. Tudo começa quando Watson decide procurar o grupo de jovens desajustados liderado por Bea (Thaddea Graham). Ele oferece dinheiro para que o grupo ajude com algumas informações, quando, na verdade, eles acabam resolvendo tudo sozinhos. A razão pela qual Watson procura por eles e seu real interesse nos jovens faz parte dos mistérios que a temporada reserva. Apesar de termos um caso para cada episódio, uma costura é feita através de outra irregular: Jesse (Darcy Shaw). Ela é irmã de Bea e tem poderes sobrenaturais, conseguindo acessar lembranças e outros planos existenciais.

Essa costura dramatúrgica e os casos da semana se entrelaçam justamente porque através de Jesse fica claro que a Londres vitoriana – escura e suja – está sendo ameaçada por uma força superior, que espreita por uma “fenda” que os meninos e meninas precisam descobrir onde está e como fechar. O trabalho de Bidwell na inserção desses elementos de forma gradativa é muito importante, já que o foco inicial precisa ser investigativo, para que a história mantenha uma coerência com seus princípios. O ótimo episódio 3, por exemplo, reúne elementos clássicos das histórias de Sherlock, com uma festa numa mansão sendo palco de assassinatos relacionados a uma ordem que realmente existiu, a Ordem Hermética da Aurora Dourada. Todo o desenvolvimento e resolução do caso é um deleite para os fãs do gênero.

Como estamos falando de um núcleo jovem marcante, as questões românticas fazem parte da equação e para manter seu público com rédeas ainda mais apertadas, Bidwell providenciou um enredo cansado sobre o príncipe que se apaixona por uma plebeia. Apesar de seu compromisso com a diversidade na escolha do elenco, lá está o Príncipe Leopoldo (Harrison Osterfield), loiro e de olhos azuis, que após testemunhar a força de Bea nas ruas, se apaixona por ela e vive todos aqueles dilemas recorrentes que já sabemos onde vão parar. O personagem (baseado no verdadeiro Príncipe) é carismático e funciona em todos os momentos em que o dilema não é romântico e sim existencial. É interessante ver como um “nobre” se envolveria naquela vida de incertezas compartilhada pelos irregulares.

Mas, e Sherlock? Se é ele que você espera ver, pode precisar ter mais paciência. Como dito, as presenças de Sherlock e Watson são coadjuvantes e funcionam como uma pilastrinha frouxa onde se apoiam as conexões entre os personagens. Mesmo assim, o brilho de Os Irregulares de Baker Street não é ameaçado. A série tem uma produção deslumbrante, roteiros bem escritos e histórias razoáveis. Os oito episódios da primeira temporada poderiam ser menores, mas o resultado final é bastante digno.

Agora é torcer para que “investigar” seja mais importante que expandir o universo sobrenatural. Inteligência é sempre mais atraente que raios saindo das palmas das mãos.

Os Irregulares de Baker Street
Em andamento (2021- )
Os Irregulares de Baker Street
Em andamento (2021- )

Criado por: Tom Bidwell

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Bom

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