Onisciente - 1ª temporada

Créditos da imagem: Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

Onisciente - 1ª temporada

Nova série do criador de 3% mostra potencial, mas se perde com protagonista apática

André Zuliani
11.02.2020
16h29

Distopias não são novidades no universo da cultura pop. Centenas de obras que possuem essa premissa como base já foram criadas e entretêm o público há várias décadas. Enquanto algumas apresentam uma proposta um pouco mais original, outras apenas se inspiram em produções anteriores para conquistar o público com uma história que, no fundo, já foi assistida muitas e muitas vezes. Onisciente, nova série brasileira original da Netflix, se encaixa na segunda categoria.

Após a popularização de Black Mirror, a adição de novos títulos no catálogo do serviço de streaming com a proposta parecida se tornou recorrente. Não por acaso, Pedro Aguilera, criador da série, também é o responsável por 3%, outra produção brasileira situada em um mundo distópico e com algum sucesso entre os assinantes da plataforma. Acontece que, em Onisciente, cada ingrediente que compõe o produto final já foi visto antes de alguma forma. Nina, a protagonista interpretada por Carla Salle, vive em uma cidade onde cada habitante é acompanhado por um drone do tamanho de uma mosca. Tal dispositivo foi criado pela empresa que dá nome à série e observa a tudo e a todos. Nada passa batido pela mosquinha: ela está lá na hora do banho, na hora de dormir e até mesmo nos momentos de intimidade. A semelhança com o Big Brother de George Orwell e seu 1984 não é mera coincidência.

Após a implantação do sistema, o crime na cidade foi praticamente erradicado. Em cinco anos, foram contabilizados apenas quatro homicídios. Ao pressentir que uma ocorrência está para acontecer, o drone é ativado e a pessoa que a cometeria é logo reconhecida. Com o sucesso, o produto da Onisciente foi rotulado como infalível. O problema é que o pai de Nina é encontrado morto em sua casa com um tiro nas costas e a mosquinha não impediu que o crime acontecesse. Isso faz com que a heroína, que não por acaso trabalha como programadora na mesma empresa dos robôs, vá em busca de respostas para descobrir o motivo da morte de seu pai.

Por se tratar de uma distopia futurística, as semelhanças de Onisciente com outras obras não param com 1984. Sua estética relembra a Los Angeles tecnológica que Spike Jonze criou em Ela, com uma direção de arte igualmente minimalista. Mesmo que essas similaridades incomodem a princípio, a direção é bem executada na hora de criar o suspense que gira em torno do mistério sobre o assassinato. A discussão sobre o uso do sistema de drones também é pertinente e faz diversas reflexões ao longo dos seis episódios. Valeria a pena a perda de nossa privacidade para garantir nossa segurança? Mesmo que as imagens sejam acessadas apenas por um computador central, como bem pontuado pelos criadores logo no início, a natureza humana sempre se destacou por sua busca por liberdade. E esses são os argumentos utilizados por quem cometeu infrações após a criação dos drones.

Com um debate filosófico que poderia instigar o espectador, assim como um suspense que trabalha bem a construção do clímax, fica a cargo do elenco transformar essa promessa em uma narrativa interessante. E é aí que encontramos o principal problema da produção.

Encarregada de ser o fio condutor da história, Salle não traduz sua responsabilidade como carisma para que o público torça por Nina. Mesmo que esforçada, a atriz não esboça mais do que três expressões durante toda a temporada. Seja no luto pela morte do pai, nas relações com os amigos ou na tentativa de criar um romance, a heroína parece apática em todos os momentos. Guilherme Prates, que interpreta Daniel, o irmão da protagonista, se mostra um personagem mais interessante por conta de seu contexto na sociedade. Rebelde quando mais novo, o jovem sofre para estabelecer o seu lugar em uma cidade que leva em conta qualquer ocorrência que você tenha em seu currículo, mesmo que a principal seja estourar uma bombinha na privada na época do colégio. Infelizmente, o ator sofre pela falta de destaque no decorrer da trama, renegado ao papel de sidekick da irmã. 

O roteiro também não auxilia no desenvolvimento de Nina. Em alguns minutos ela passa de garota certinha a alguém capaz de prejudicar quem ama para conquistar seus objetivos, e faz os dois sem muita convicção.  A impressão é que nem a direção, nem os roteiristas sabiam qual seria exatamente o papel de sua heroína na história além da resolução do mistério para melhor definir a sua personalidade. O que não faltam são diálogos verborrágicos entre ela e algum companheiro de cena, principalmente com o par romântico Vinícius (Jonatan Haagensen). Com a sua peça principal não funcionando bem, seus coadjuvantes também ficam aquém do esperado.

Ainda assim, o mundo de Onisciente tem espaço para explorar mais os questionamentos de se viver sob vigilância constante e o que os seus habitantes – e os do mundo afora – tem a dizer sobre isso. O final abre lacunas interessantes para serem preenchidas em uma possível segunda temporada. Resta torcer para que Nina seja capaz de estabelecer o seu lugar na trama para levar essas ideias adiante.

Nota do Crítico
Regular