Timothée Chalamet

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

O Rei

Timothée Chalamet estrela versão “simplificada” de Henrique V

Marcelo Hessel
05.11.2019
19h54
Atualizada em
05.11.2019
20h06
Atualizada em 05.11.2019 às 20h06

Não vale para O Rei a regra de Roma e O Irlandês, de que a Netflix é a casa para onde cineastas de renome levam seus filmes "difíceis". O épico histórico de David Michôd não é um projeto arriscado ou de vaidade, e inclusive parte do seu apelo passa por algumas facilidades narrativas que são associadas com o cinema de massa americano.

A principal dessas facilidades é a forma como o roteiro se apoia em relações de causa e efeito previsíveis para transportar o espectador sem percalços à Europa do fim do período medieval e tornar mais familiar para nós o arco dramático de Henrique V (Timothée Chalamet). Estamos diante da típica jornada do herói reticente, convencido a contragosto a ocupar seu lugar de direito como protagonista, e que ao fim de duas ou três lições de vida terá deixado suas inocências para trás.

A interpretação de Chalamet é consistente, apesar dessas relações de causalidade bem básicas. Muitas delas são criações do roteiro de Michôd e Joel Edgerton e não têm base histórica (como a escolha de nomear Thomas rei antes de Hal; na realidade Thomas só morreria durante o reinado de Hal) e também alteram as versões shakespeareanas (Edgerton advoga em causa própria e superestima o papel de John Falstaff na guerra contra os franceses, para deixar mais demarcada a importância do amigo de Hal como seu contrapeso moral).

O filme de Michôd se aproxima mais da versão de Henrique V filmada por Kenneth Branagh em 1989; ambos valorizam os traços de discurso pacifista identificáveis na peça de Shakeapeare. Como O Rei chega a nós em 2019, em meio ao Brexit e ao exacerbamento do isolacionismo político no mundo todo, o relato de Michôd se presta a ser lido como uma grande defesa não necessariamente da arte política ou da arte da guerra mas sim da diplomacia, num mundo marcado pelo instinto de antagonizar.

Ainda assim, os momentos mais fortes do filme são os de violência: seja a agressão da transformação de Hal (dentro de uma tradição dramática de tratar os coroamentos dos regentes ingleses como um ritual de desumanização), posicionado em cena em planos milimétricos calculados para isolá-lo dos seus seguidores, seja a violência visual propriamente dita. Nisso, O Rei lembra o David Michôd de começo de carreira, de Reino Animal (longa australiano que permitiu toda a sua carreira hollywoodiana), um filme que se assemelha a O Rei na forma como a violência pode ser algo breve e impactante quando se manifesta, mas pode ser também insidiosa e lenta quando germina dentro das pessoas, nas relações do dia a dia.

O tratamento da violência é o que Michôd traz de mais particular a este filme. De resto, tanto o arco dramático de Hal quanto as atrações do épico de guerra (fãs de Bernard Cornwell podem se interessar particularmente na recriação da batalha de Azincourt) visam tornar O Rei mais uma narrativa confortável para quem é fã desse gênero - ainda que Michôd filme o discurso pré-batalha de Henrique V sem muito jeito para a grandiloquência.

Nota do Crítico
Bom