Sabrina Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

O Mundo Sombrio de Sabrina - 3ª temporada

Série continua adoravelmente profana, mas perde completamente o foco

Natália Bridi
24.01.2020
22h34
Atualizada em
25.01.2020
11h32
Atualizada em 25.01.2020 às 11h32

Na primeira temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina, o satanismo servia de metáfora para a passagem da infância para adolescência. No segundo ano, a palavra de ordem era emancipação — do diabo e de velhos padrões. Para a terceira parte, entre expandir sua mitologia, manter a aura libidinosa e seus triângulos amorosos, combater golpes de estado no inferno e criar momentos musicais, o caminho da série se tornou um tanto sinuoso. 

Não há uma linha narrativa clara, o que por si só pode ser entendido como uma alegoria para as confusões da puberdade. Ainda assim, a falta de foco entre os oito episódios, todos com 1h de duração, torna esse terceiro arco cansativo. Ignorando as particularidades do streaming, o showrunner Roberto Aguirre-Sacasa segue a fórmula da TV aberta, aproximando ainda mais O Mundo Sombrio de Sabrina de Riverdale.

Além de ter o mesmo showrunner, as duas séries têm a mesma origem, as histórias da Archie Comics, e flertam com o mesmo universo ainda que abrigadas em diferentes casas (Sabrina na Netflix, Riverdale na CW). O que antes eram apenas easter eggs praticamente se formaliza nesta parte três pela forma como Sacasa conduz a série, mais preocupado em atender desejos adolescentes do que com consistência. 

Assim, O Mundo Sombrio de Sabrina atira para todos os lados. É preciso manter o cerne da sua protagonista (Kiernan Shipka a dualidade entre a vida de bruxa e a vida mundana , ao mesmo tempo em que mantêm as boas referências ao cinema de horror; cita grandes nomes da literatura como Dante e Baudelaire; coloca seu elenco para cantar, dançar e “se pegar”; amplia a bruxaria para além do satanismo; apresenta a ameaça dos pagãos; retoma, e também renega, elementos da temporada anterior; estabelece novas relações entre seus personagens; e apresenta um rival para o trono do inferno, uma mistura de David Bowie com Chris Hemsworth que atende pelo nome de Caliban (Sam Corlett). 

A apresentação gratuita do personagem, que constantemente relembra que é feito de barro, sintetiza a dinâmica dessa terceira temporada. Nada faz muito sentido, mas todo mundo é muito bonito. A própria Sabrina assume constantemente não entender o que está acontecendo. Muitas cenas ao longo dos oito episódios surgem apenas para resumir e retomar o problema para o espectador, ainda que poucos eventos sejam de fato significativos. Há também muitos núcleos, espalhando os personagens em missões próprias que, não fosse o carisma do elenco, dispersariam completamente a atenção —  muitas vezes o interesse se mantém mais por vê-los em cena do que pelo significado das cenas em si. 

Em suma, O Mundo Sombrio de Sabrina continua adoravelmente profano, mas pouco acontece para levar a história adiante — dois ou três episódios fariam o mesmo que oito, o que mostra um péssimo aproveitamento de tempo, principalmente pela forma como os roteiros simplificam sua protagonista, a ponto de tornar literal a sua ambiguidade. Uma via interessante pode ser seguida na parte quatro, mas tudo depende do entendimento de que a ousadia da série está além de subverter velhos clichês como o da virgem sacrificada. Sabrina, suas tias, seu primo e seus amigos (tão leais que pouco questionam uma ida ao inferno) têm muito a dizer (ou cantar) em um mundo que faz da defesa do divino uma heresia.

Nota do Crítico
Bom