O Assassino de Valhalla – 1ª temporada

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

O Assassino de Valhalla – 1ª temporada

Primeira produção original islandesa da Netflix resgata elementos de suspense noir e entrega trama empenhada em surpreender o público

André Zuliani
17.03.2020
19h43

Com um catálogo tão vasto, a Netflix já possui séries originais em dezenas de países. Além das tradicionais produções em língua inglesa, o público brasileiro também aprendeu a amar sucessos vindos da Espanha, como La Casa de Papel e Elite; e Dark, produzida na Alemanha, além de séries e filmes do leste asiático. Quem pede passagem agora é a Islândia, que com O Assassino de Valhalla, registra a sua primeira série original do serviço de streaming.

A trama gira em torno do departamento de polícia de Reiquiavique, capital e maior cidade da Islândia. Com cerca de 350 mil habitantes – em termos de comparação, é um pouco maior que a população de Franca, cidade do interior de São Paulo – é compreensível que quase tudo que ocorre na região entre no radar da população. Quando uma série de assassinatos começa a assombrar a capital, a policial Kata (Nína Dögg Filippusdóttir) se torna a responsável por investigar quem está por trás destes crimes. Quando a cena toma grandes proporções e a imprensa rotula o caso de “maior crime da história da Islândia”, ela recebe a ajuda de Arnar (Björn Thors), um competente detetive islandês residente em Oslo, na Noruega, e que aceita retornar ao país de origem para auxiliar na missão.

A série segue a fórmula “quem matou?” com muita fidelidade. Cada morte parece não ter ligação com a outra, até a polícia descobrir que uma mesma foto está sendo enviada a todas as vítimas. A imagem, tirada no final dos anos 80, mostra as vítimas, os funcionários da Casa dos Meninos de Valhalla, uma instituição do governo feita para abrigar garotos órfãos ou problemáticos e que foram separados dos pais. Ao lado dos funcionários estão os meninos que residiam no lugar durante o mesmo período. Feitas as ligações, o quebra-cabeça está armado e os oito episódios se prontificam a colocar sempre uma nova pulga atrás da orelha de quem está assistindo.

Com um estilo que resgata os ares de um suspense noir, O Assassino de Valhala oferece exatamente o que você espera para confundir sua cabeça de maneira lenta e provocativa logo depois. Mesmo quando a série entrega momentos previsíveis, as reviravoltas finais entram com um gancho inesperado. 

Nunca há um momento de tédio, mesmo com suas subtramas. Famílias desfeitas e abuso de menores são temas recorrentes na produção, que retrata tudo com um sentimento de compaixão. Arnar tem que lidar com seu próprio passado quando retorna à Islândia, enquanto Kata luta com o relacionamento dela com seu filho. A série analisa a magnitude do abuso infantil com suas explorações das vítimas e sobreviventes, ambos de Valhalla, e o que se seguiu no decorrer dos anos.

Com o foco principalmente na dupla de detetives, fica evidente, porém, a dificuldade dos roteiristas de manter a qualidade da história principal em todas as tramas paralelas. Mesmo sendo a protagonista de fato, Kata sofre com a dificuldade em lidar com os problemas com o caso e os vividos dentro de casa. Em certos momentos, fica difícil acreditar que a personagem sustenta o respeito que aparenta ter de todos, inclusive do próprio filho. Por outro lado, Arnar se mostra um personagem mais interessante, com seu jeito introvertido e incapacidade de socializar. Ao longo da trama, conhecemos mais do seu passado complicado e entendemos quem realmente é o detetive. Coadjuvantes como o comissário de polícia Magnus (Sigurður Skúlason), o delegado Hakón (Víkingur Kristjánsson) e o procurador do estado Pétur (Sigurður Sigurjónsson) vão ganhando mais espaço após os desdobramentos da investigação e provam que tudo sempre foi mais do que aparentava ser, ao mesmo tempo em que mantém a responsabilidade de chocar o público.

As paisagens e o clima da Islândia também contribuem para o mistério de assassinatos em série. A fotografia faz uso da vastidão da neve da Islândia e do escurecimento do céu com uma paleta relativamente suave, trazendo uma sensação de mau presságio mesmo em dias mais ensolarados.

A escolha de produzir uma segunda temporada vai depender da resposta da audiência, embora os instantes finais deixem espaço para um futuro. Caso o contrário, O Assassino de Valhalla é uma ótima estreia para produções islandesas e abre as portas para que outras cheguem ao catálogo da Netflix.

Nota do Crítico
Ótimo