O Assassino Confesso Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Reprodução

Netflix

Crítica

O Assassino Confesso

Pela vida de um dos mais notórios serial killers dos EUA, Netflix atinge a excelência de suas produções sobre crimes reais com história sobre a natureza humana

André Zuliani
17.01.2020
16h25

O que será que prende tanto a atenção do público quando se depara com histórias sobre crimes e assassinatos reais? Há décadas acompanhamos produções que abordam o mundo das investigações criminais, sejam elas exibidas na telinha da televisão ou no cinema. Crimes não resolvidos, a busca por serial killers, o nível de brutalidade que o ser humano consegue chegar – todos esses elementos prendem o espectador em frente à TV, principalmente quando se trata de uma narrativa coesa e detalhada ao máximo. Após o sucesso de produtos originais como Making a Murderer e Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, a Netflix vem se tornando referência em documentários baseados em fatos e, enfim, atingiu a excelência com O Assassino Confesso.

Dirigido pelo indicado ao Oscar Robert Kenner (Alimentos S.A.) e Taki Oldham, a minissérie documental relembra a história de Henry Lee Lucas, famoso serial killer norte-americano que confessou ter assassinado mais de 300 pessoas durante as décadas de 70 e 80. Preso pelos Texas Rangers, força policial que era sinônimo de heroísmo para o cidadão americano comum, ter assumido a autoria das centenas de mortes espalhadas em diferentes estados dos EUA tornou Lucas conhecido no país, assim como os responsáveis por sua prisão. A repercussão de suas ações levou à criação de uma força-tarefa para que detetives de todos os cantos viessem ao seu encontro para resolver casos inacabados.

Com imagens de arquivo que abrangem o período da prisão de Henry até a sua morte, é notório o trabalho de pesquisa feito por Kenner e Oldham. A produção teve acesso aos vídeos de interrogatórios feitos pela força-tarefa, liderada pelo xerife Jim Boutwell e acompanhada pelo jornalista Hugh Aynesworth, convidado a cobrir o caso após a publicação do seu livro sobre uma entrevista feita com Ted Bundy. Com o número de assassinatos resolvidos aumentando exponencialmente, o espectador é levado a acreditar que Lucas é nada menos que a pessoa mais cruel a habitar o continente. E é aí que entra o trabalho de Aynesworth: notando algumas incoerências nos relatos do acusado, a visão do jornalista indica outro rumo para a produção e vira a mente do espectador do avesso.

A estrutura utilizada pela dupla de diretores é a de um clássico documentário sobre crime real. As imagens recuperadas se misturam com os entrevistados, todos peças importantes no caso Henry Lucas. Advogados, procuradores, policiais e parentes de vítimas se juntam para recontar uma das histórias mais macabras dos EUA.

Nada ali é novo. O serial killer apareceu em inúmeras reportagens ao longo dos anos e sua história repercutiu até na eleição de George W. Bush para presidente. Sua vida já foi adaptada ao cinema – Retrato de um Assassino, protagonizado por Michael Rooker, o Yondu de Guardiões da Galáxia – e recontada em outros documentários. Mas O Assassino Confesso estabelece paralelos importantíssimos para descobrirmos quem, de fato, foi Henry Lee Lucas e o que envolve a natureza humana quando nos deparamos com um personagem assim.

Durante os cinco episódios, a minissérie nos leva a um carrossel de emoções, retratando com primor o trabalho dos procuradores e jornalistas para desvendar a história real dos assassinatos e questiona a ação de quem deveria estar lá para nos proteger. Diferente de Don’t F**k With Cats: Uma Caçada Online, a produção vai além de apenas narrar os fatos e explora a mente de Lucas no que poderia ser o roteiro de mais um excelente episódio de Mindhunter. Entendemos as suas dificuldades, os seus traumas e estudamos o assassino para compreendermos de onde vem tamanha patologia.

No final, o gosto amargo na boca é inevitável. Cada elemento da história é questionável: Henry Lucas, os Texas Rangers e até o Sistema de Justiça Criminal dos EUA. Mais do que a retratação de um serial killer, O Assassino Confesso é uma história sobre como nós, enquanto sociedade, nos permitimos enxergar um personagem tão soturno em busca de uma resposta que acalme nossos anseios – mesmo que a dor para algumas pessoas seja eterna.

Nota do Crítico
Excelente!