Narcos: México – 2ª temporada

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Narcos: México – 2ª temporada

Nova temporada compensa história batida com trama envolvente e reposiciona as peças de um jogo que parece não ter fim

André Zuliani
14.02.2020
20h00

É inegável, Narcos se tornou um fenômeno que abriu portas na Netflix. Quando a série estreou, ainda em 2015, o serviço de streaming ainda não tinha uma produção original de sucesso que não priorizasse o idioma inglês. Cinco anos depois, a série não só prosseguiu por mais duas temporadas, como ganhou um derivado situado no México e ainda abriu espaço para obras como La Casa de Papel, Vis a Vis e Elite

Mesmo com tanta repercussão positiva entre crítica e público, é perceptível que a série tem problemas para se reinventar. Enquanto as duas temporadas iniciais contaram a história da perseguição a Pablo Escobar (Wagner Moura), o terceiro era focado na luta do DEA, departamento de combate às drogas dos EUA, para desmantelar o poderoso Cartel de Cali. Já em Narcos: México, acompanhamos a ascensão de Miguel Ángel Félix Gallardo (Diego Luna) como o líder do Cartel de Guadalajara e a criação da Federação, organização responsável pelo tráfico de drogas em todo o território mexicano. Claro, não podemos esquecer os “mocinhos” do DEA tentando prender os criminosos. Como, então, convencer o público a continuar acompanhando uma história que já está batida? 

O segundo ano de Narcos: México começa onde o primeiro terminou, com o agente Walt Breslin (Scoot McNairy) e sua equipe tentando juntar as peças que os levariam aos responsáveis pela morte de Kiki Camarena (Michael Peña). Até aqui, nada muito novo – e nem seria, partindo do pressuposto que a guerra às drogas parece interminável em qualquer lugar do mundo. A escolha do showrunner Eric Newman foi, então, potencializar os conflitos políticos e tudo que uma guerra de egos pode acarretar em uma organização que aspira ao poder em todos os seus pilares.

Assim como nos conflitos em Medellín e Cali, no México existe uma coligação bem forte entre política e narcotráfico. Mesmo os policiais mais honestos fecham os olhos para as artimanhas de Félix e sua Confederação. Ciente de sua posição de destaque frente aos líderes das outras praças mexicanas e com influência entre os governadores, o Padrinho se sente cada vez mais à vontade para perseguir sua ambição de se tornar o maior traficante do mundo. O problema é que Diego Luna continua não sustentando o seu protagonismo. Muito por conta do jeito extremamente antipático do seu personagem, há certa dificuldade de simpatizar (na medida do possível, claro) com o crescimento de Félix em comparação ao que vimos com o Escobar de Wagner Moura e o quarteto que representou os Cavalheiros de Cali (Damián Alcázar, Francisco Denis, Pepê Rapazote e Alberto Ammann). Isso fica evidente sempre que somos lembrados de que a série pertence a um “universo compartilhado”.

Com o poder cada vez mais centralizado em Felix, a trama abre espaço para explorar os efeitos dessas mudanças nas outras famílias. As cabeças pensantes dos cartéis de Tijuana, Sinaloa, Golfo e Juárez ganham destaque e vão sedimentando o caminho inevitável que acompanhamos até clímax da temporada. Como é uma história baseada em fatos, a direção evoca tons de novelas mexicanas (afinal, estamos no México) para apimentar alguns confrontos retratados nos episódios, o que acaba se mostrando um acerto.

Outra novidade positiva é a adição de Breslin. Diferente do jeito certinho e ameno de Camarena, o novo agente responsável por perseguir o cartel se prova mais energético e capaz de tudo para atingir o seu objetivo. É o contraponto certo ao compararmos com o Félix de Luna, o nêmesis que o completa.

A produção também segue sem decepcionar no visual. Se aproveitando das paisagens desérticas do México, a fotografia se destaca como a melhor em todas as temporadas. Mesmo que em menor escala, as cenas de violência também estão lá, muitas vezes negando o pudor que algumas produções buscam.

O final, como sempre, é agridoce. A ineficácia da guerra contra as drogas é retratada em cada ação errada, seja do DEA ou do próprio cartel. Mesmo que as peças mudem, o jogo continua intacto. “Os gringos sempre precisam de alguma coisa. Não é nossa culpa se conseguimos fornecê-las”, diz um dos traficantes. A sérienão se reprime em destacar as consequências de todo o terror que envolve o narcotráfico dentro da população mexicana e como isso reverbera em seu jogo político. Com ares de Tropa de Elite 2 – o diretor José Padilha é produtor-executivo da série -, fica o sentimento de não se ter em quem confiar e o de que o futuro não será próspero.

Mesmo que uma terceira temporada (ou sexta?) ainda não tenha sido confirmada, existe espaço a ser explorado dentro do mundo de Narcos: México. Sabemos que os anos 90 foram palco de grandes guerras entre os cartéis mexicanos e a sombra de Joaquin “El Chapo” Guzmán está presente desde a primeira temporada. Infelizmente, ainda há histórias para serem contadas.

Nota do Crítico
Ótimo