Não Provoque - 1ª temporada

Créditos da imagem: USA Network/Divulgação

Netflix

Crítica

Não Provoque - 1ª temporada

Produção do USA Network chega à Netflix para unir-se aos títulos adolescentes que têm em comum crimes misteriosos, sexo e violência

Henrique Haddefinir
22.03.2020
12h01

Existem alguns nomes muito importantes a serem considerados quando falamos de Não Provoque (Dare Me, no original). O primeiro deles é o de Megan Abbott, autora do livro homônimo que ela mesma adaptou para a TV. Ao lado dela, Gina Fattore pareceu uma escolha calculada para garantir o sucesso da produção. Fattore foi produtora executiva e roteirista de séries como Dawson's Creek, Gilmore Girls, UnReal e Californication. Ela tanto tinha experiência no universo adolescente quanto na ilustração da autodestruição humana. O último nome é o de Peter Berg, criador de Friday Night Lights, uma das séries adolescentes mais respeitadas pela crítica americana.

Esse grande time cria um cenário sintomático a respeito do que está acontecendo na Netflix nos últimos anos. Além de ter passado a dar uma atenção especial a títulos juvenis (o que se confirma pelo sucesso de Stranger Things e Cheers, por exemplo), uma espécie de fórmula narrativa atingiu as produções da plataforma de streaming e elas começaram a demonstar uniformidade: são sempre jovens com uma aparência menos adolescente, vivendo vidas descontroladas, regadas a sexo e drogas e com um crime que precisa ser desvendado conforme os episódios transcorrem. Elite, Riverdale (que não é uma produção original, mas tem grande atenção da plataforma) e Não Provoque têm quase exatamente o mesmo DNA.

Não Provoque, contudo, é uma reunião de traços primordiais de todos esses títulos. E com um ingrediente a mais: toda essa autodestruição e todo esse mistério criminal estão apoiados no mundo das líderes de torcida, o que é, para a Netflix, uma bela conveniência se considerarmos que Cheers ainda está fresquinha na mente dos espectadores. A estranha atenção que as instituições de ensino americanas dão para essa atividade se tornou notória no mundo depois do documentário que mostrou a pesadíssima rotina de treinamentos e o alto senso de competividade que cerca o ambiente. Corpos levados ao limite, pressão psicológica, desníveis de tratamento de acordo com a popularidade de cada um.

Porém, se você esperava ver tudo isso em Não Provoque vai se frustar. Na história, Addy (Herizen Guardiola) e Beth (Marlo Kelly) são melhores amigas e também representam o topo da pirâmide entre os estudantes do colégio. Junto com isso, um certo comportamento maledicente exala de ambas. As coisas começam a mudar quando uma nova técnica chega e interfere na dinâmica entre as duas. Collete (Willa Fitzgerald, a mocinha Emma da versão MTV de Scream, parecendo anos mais velha) chega para conseguir levar o time às maiores competições do estado e do país, mas seus métodos rígidos se mesclam a uma estranha necessidade de invadir a vida de suas duas melhores competidoras. Não Provoque, em muito pouco tempo, deixa de ser uma série sobre líderes de torcida e vira outra coisa.

Só Provocação

Depois de Elite ter acabado de alcançar todos os tops de maior audiência da Netflix, é alarmante que Não Provoque comece dentro da mesma premissa de “crime misterioso que será desvendado durante os episódios”. Sabemos que a série foi exibida há algum tempo, que se baseia num livro, mas ainda assim o cheiro de oportunismo comercial torna o ar quase irrespirável. Esse tipo de recurso, usado exaustivamente na atualidade, demanda um controle de narrativa e um clímax que precisam ser acima da média, ou a coisa toda perde completamente o sentido. Em se tratando de Não Provoque, cada um vai poder julgar como a resolução do mistério os impactou, enquanto, de fato, ele não parece saído de um enredo dos mais surpreendentes. Ele é, na verdade, medíocre.

A série também faz um check-in em vários outros maneirismos, como os personagens adolescentes caindo na espiral de destruição, como as sequências em festas, as cenas de abuso, como nas duas personagens femininas que não necessariamente são lésbicas, mas acabam criando uma dependência com certa tensão sexual... Sexo, violência e suspense. Aparentemente, com exceção de Sex Education, nenhum outro título voltado para adolescentes pode fugir da métrica crime-sexo-choque ou os números param de ser satisfatórios. O fato de termos tão poucos personagens secundários piora o quadro, já que essa narrativa central não tem complexidade o suficiente para preencher competentemente os 10 episódios que compõem a primeira temporada.

O triângulo formado por Addy, Beth e Collete é objetivo maior dos roteiros, mas, enquanto as motivações de Beth são claras (ela foi trocada por outra amiga), nunca conseguimos entender claramente porque Addy fica tão próxima de Collete, nem porque Collete atrai a menina para tudo de errado que há na sua própria vida. Os roteiros capengam nessa questão e acabam falhando no seu objetivo final, que se fosse honrar o livro, faria parecer que Addy era muito mais calculista do que demonstrava. Isso, porém, esbarraria em outro problema: investiram tão pesado no envolvimento de Addy com o mistério, que esqueceram de dedicar tempo a retratar uma jovem que gostaria muito de estar no lugar mais privilegiado das líderes de torcida.

A frustração se concretiza quando colocamos em perspectiva o panorama geral da temporada. Com exceção do ótimo episódio focado na tentativa egoísta de Tacy (Alison Thornton) de fazer um movimento que ela não domina (e que acaba gerando um grave acidente), há muito pouco do mundo das líderes de torcida sendo retratato na série. Tudo se resume a uma relação doentia e pouco justitificada entre uma adolescente e uma técnica que não tem motivo nenhum para insistir em envolver a jovem nos seus dramas. Não ajuda o fato de Willa Fitzgerald não emprestar absolutamente nenhum carisma para Collete, que soa o tempo todo como uma mulher sem vida.

Por fim, embora a série queira passar a impressão de que deixou muitas perguntas no ar, nenhuma delas é interessante e a esperança é de que numa segunda temporada, com o livro já tendo sido coberto, algo de realmente substancial seja apresentado. Tendo em seu time nomes tão fortes, a série fica devendo em identidade e enredo. Do jeito que está, superficialmente pretensiosa, Não Provoque decididamente não provoca.

Nota do Crítico
Ruim