Morte às Seis da Tarde

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Morte às Seis da Tarde

Suspense polonês faz o mínimo necessário para agradar fãs de tramas policiais tradicionais, mas é prejudicado por desenvolvimento pobre e protagonista sem carisma

Nicolaos Garófalo
29.04.2020
19h03

Um dos principais trunfos da Netflix nos últimos anos tem sido licenciar títulos produzidos fora do eixo tradicional de Hollywood e vendê-los internacionalmente sob seu selo de produção original. A tática resultou nos sucessos recentes O Poço e Milagre na Cela 7, que dominaram as discussões nas redes sociais após suas estreias na plataforma. Agora, a nova aposta da gigante do streaming é Morte às Seis da Tarde, suspense policial polonês de 2018 que traz a caçada de duas policiais a um assassino em série que revela suas vítimas sempre no mesmo horário.

À primeira vista, o longa parece uma cópia de Se7en – Os Sete Pecados Capitais, já que sua história gira em torno de um homicida que acredita estar limpando a cidade polonesa de Breslávia ao matar criminosos inocentados pela justiça local. Por mais que as premissas sejam semelhantes, Morte às Seis da Tarde, adaptação da obra de Marek Krajewski, utiliza contos locais, criando uma personalidade própria já em seus primeiros 20 minutos. Diferentemente do assassino interpretado por Kevin Spacey em 1995, o vilão do longa polonês não se apoia nos pecados capitais apontados pela bíblia, e sim nos pecados morais condenados por um antigo governante.

Na história, originada no século XVIII, criminosos condenados por roubo, corrupção, degeneração, calúnia, mentira e opressão eram executados publicamente sempre às seis da tarde. Apoiado nisso, o assassino do filme decide repetir a “limpeza” promovida há 300 anos, eliminando o que chama de “pragas” na Breslávia.

No geral, Morte às Seis da Tarde não traz nada inovador para o gênero. Com uma trama pouco surpreendente, o filme aposta mais em cenas violentas e chocantes e mostra sem censura desmembramentos, decapitações e autópsias. O desenvolvimento da história acontece naturalmente com os avanços no caso, dando ao longa uma cara de série policial no estilo CSI ou Law & Order, em que os personagens são apresentados por meio de exposições dadas ao longo das investigações. Essa semelhança com procedurais americanos, tanto no tema quanto no tom, ajuda a produção a se conectar com o espectador, que se mantém preso à tela graças à atmosfera tensa criada.

Infelizmente, os personagens de Morte às Seis da Tarde não têm o mesmo nível de desenvolvimento que os atos cometidos por seu vilão. A protagonista, a detetive Helena (Malgorzata Kozuchowska), passa o filme todo emburrada, encarnando os clichês básicos do “policial genial traumatizado”. Embora seja a personagem principal do filme, seu desenvolvimento é quase nulo e tudo o que o espectador aprende sobre ela é dito em um rápido diálogo expositivo com sua parceira recém-chegada, a inteligente e informal Iwona (Daria Widawska). Assim como a protagonista, Iwona não conquista o público e toda a sua vida é resumida em falas densas e espalhadas pelo filme.

O elenco coadjuvante também não chama atenção. Recheado de lugares comuns como o policial brucutu ou a repórter sensacionalista, Morte às Seis da Tarde não consegue criar um momento sequer de empatia ao longo de seus 93 minutos, mantendo o espectador acordado apenas por causa das cenas sanguinolentas. Mesmo a identidade do assassino, grande mistério do filme, pode ser facilmente descoberta com o mínimo de atenção do espectador, anulando uma das poucas qualidades da produção.

A mensagem final do filme também é preocupante. Ao invés de criticar os crimes grotescos e execuções públicas, a trama de Morte às Seis da Tarde parece apoiar o mote de justiça a todo custo, como se os assassinatos mostrados fossem justificáveis.

Embora faça o bastante para agradar fãs casuais de séries policiais, com carnificina impressionável e tensão típica do gênero, Morte às Seis da Tarde em nenhum momento consegue ir além disso. O longa, dirigido por Patryk Vega, desperdiça todo o seu potencial em longas cenas explicativas, protagonizada por personagens apáticos e mal desenvolvidos. Puxado por outros sucessos europeus da Netflix, o filme está fadado a ser apenas mais um no longo catálogo do streaming.

Nota do Crítico
Regular