Foto de Mentiras Perigosas

Créditos da imagem: Mentiras Perigosas/Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Mentiras Perigosas

Suspense interessante não salva roteiro irregular do novo filme da Netflix

André Zuliani
07.05.2020
12h12
Atualizada em
07.05.2020
19h00
Atualizada em 07.05.2020 às 19h00

Encontrar um nicho para definir Mentiras Perigosas, novo suspense da Netflix, não é difícil. Dentro do catálogo do serviço de streaming, há dezenas de produções dos mais variados gêneros que chamam a atenção dos usuários pelo título, elenco ou pela breve descrição de sua sinopse. Terminada a sessão, grande parte deles se tornam esquecíveis – e é aqui que podemos encaixá-lo. 

Há dois sentimentos constantes que nos acompanham ao longo de seus quase 100 minutos de duração. O primeiro (e principal) é de irritação. Como em um filme do gênero que se preze, o longa dirigido por Michael M. Scott nos provoca aos poucos, entregando detalhes que servem para colocar uma pulga atrás da orelha. Mas apesar do esforço de seu elenco para sustentar essa expectativa, várias são as situações em que questionamos o que está sendo exibido em tela – começando já em suas primeiras cenas. 

O casal principal, Katie (Camila Mendes, de Riverdale) e Adam (Jessie T. Usher) se vêem em meio a um assalto dentro da lanchonete em que a garota trabalha. Em um momento de bravura, o jovem ataca o criminoso e salva todos os presentes. O filme corta para alguns meses à frente e os encontramos com dificuldades financeiras e em crise no relacionamento. Aprendemos que Katie agora trabalha como cuidadora de Leonard (Elliot Gould, único realmente à vontade no papel), cuja solidão da velhice a tornou uma parte importante na última parte da vida do idoso. Quando Leonard morre repentinamente, o casal encontra um grande estoque de dinheiro dentro de sua residência. É nesse ponto que começa uma grande jornada de... mentiras perigosas.

Como o próprio título entrega, esperar que reviravoltas aconteçam por causa das famigeradas mentiras se torna previsível. O grande problema aqui, porém, é tornar essas viradas previsíveis demais. Personagens caricatos, como o agente imobiliário Mickey Hayden (Cam Gigandet, que parece ter nascido com o rótulo de vilão na testa) são apresentados sem causar nenhum efeito de dúvida, e as ações de Katie e Adam são batidas demais para um filme de 2020. Se houve uma tentativa de invasão à casa de Leonard a ponto de agredir quem atrapalhe, por que a pressa para se mudar para a residência? Se há pessoas suspeitas surgindo e acontecimentos estranhos com frequência, por que não pensar friamente onde está se metendo? Tantas atitudes contraditórias, somadas a um elenco que parece ter aceitado o trabalho sem muitas ambições torna a experiência realmente incômoda, o que nos leva ao segundo sentimento constante: a curiosidade.

Se nos indignamos, por exemplo, com o descarte da intrigante apresentação dos personagens no início do filme tão logo começam as perguntas, é no suspense que o longa recupera o interesse muitas vezes perdido. Pouco a pouco, o roteiro escrito por David Golden adiciona elementos que enriquecem a confusão criada na mente de Katie.

O ritmo do terceiro ato causa o efeito adicional de não poder desviar a atenção da tela, pois muito é revelado rapidamente - e sempre pouco fundamentado nas partes anteriores. No entanto, para quem assiste a filmes com frequência, a surpresa nunca de fato chega. 

Não há nada de ousado na história de Mentiras Perigosas. Não chega a ser um suspense de tirar o fôlego, as atuações são quase todas protocolares e as ações que envolvem os protagonistas nos faz sentir um pouco de angústia tamanha a imbecilidade de certas escolhas. Ainda assim, de maneira irregular, a nova produção da Netflix consegue fisgar a atenção com pequenos detalhes que fazem pensar: Ok, vamos ver onde isso vai dar

Nota do Crítico
Regular