Marianne

Netflix

Crítica

Marianne

Série francesa de terror da Netflix é um emaranhado de clichês altamente maratonável

Arthur Eloi
27.09.2019
20h24

A Netflix encontrou bastante sucesso com produções de terror - assim como na época das locadoras, o gênero tem um público amplo que sempre está vasculhando o catálogo por conteúdo para consumir. Isso incentiva a plataforma a investir em séries e filmes para encher a seção com títulos de variados graus de qualidade. Marianne, seriado francês do streaming, não é nenhum destaque, mas é altamente maratonável.

A trama acompanha Emma, uma escritora de sucesso por trás de uma famosa saga literária de horror. Durante uma sessão de autógrafos, ela é confrontada por uma antiga amiga que indica que algo sombrio está a caminho e que precisa retornar à sua cidade-natal. Chegando lá, a autora é atormentada por Marianne, bruxa satanista descrita em suas histórias. Logo de cara o programa já deixa claro que se sente confortável em aproveitar conceitos batidos: toda a ideia de Criador contra Criação é frequentemente vista em narrativas sobre escritores, tendo dado as caras tudo desde contos de Stephen King, filmes de John Carpenter e até videogames, como Alan Wake.

Conforme o ritmo que avança pelos seus oito episódios, a série invoca muitos outros clichês, sejam eles relacionados à trama - como a noção de controlar um inimigo sobrenatural através do uso de seu nome real -, ou mesmo na linguagem visual, que bebe fortemente da técnica e jogo de câmera que James Wan popularizou há anos com os primeiros Sobrenatural (2010) e Invocação do Mal (2013). Considerando que o cinema de gênero sabe como torturar seu público, com exemplos brutais vindos de Mártires (2008), Raw (2016) e outros, Marianne é especialmente decepcionante na sua falta de inovação e estética genérica, provavelmente pensada para atrair o mercado internacional.

Ainda assim é um seriado realmente agradável de se assistir. Isso se dá a forma como todo o confronto é enquadrado como um mistério - ainda que de soluções previsíveis -, e também pelo foco na jornada de Emma por consertar suas problemáticas relações com praticamente todos que conhece. O quinto capítulo, por exemplo, é chamado de “You Left Her” e ambientado no passado, e contextualiza tanto a origem da assombração quanto as memórias traumáticas que moldaram a protagonista. Alguns momentos, em que há maior experimentação visual, também entregam bons jumpscares, chegando até a referenciar um momento clássico de O Exorcista III. Além disso, a sombria Madame Daugeron, interpretada por Mireille Herbstmeyer, rouba toda cena que dá as caras, por si só segurando a barra de metade da temporada.

Infelizmente, essa confiança e desenvolvimento são tímidos aqui, com a regra sendo questionar a capacidade do espectador com constantes flashbacks e diálogos explicativos, combinados com “sustos” artificiais, que tentam chocar pelo barulho ao invés de construir tensão. Marianne não é o melhor do que a Netflix ou o cinema de gênero francês conseguem fazer. A série é bastante industrializada e sem vontade de arriscar. De qualquer forma, mesmo que seus pontos altos sejam entregues à conta-gotas, o programa nunca se torna ruim ou ofensivo - apenas sem sal. É um caso em que a distribuição ajuda bastante o projeto: mesmo sendo mais ou menos, é uma boa e rápida maratona para intercalar com filmes e séries melhores.

Nota do Crítico
Regular