Mank

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Mank

David Fincher revisita Cidadão Kane em exercício de domínio técnico

Marcelo Hessel
03.12.2020
15h12
Atualizada em
03.12.2020
15h31
Atualizada em 03.12.2020 às 15h31

Quando as pessoas navegam pela Netflix, certamente The Other Side of the Wind não é um nome que aparece com frequência no menu, mas a versão finalizada do filme que Orson Welles deixou incompleto em vida é um divisor de águas no serviço, especificamente nas intenções da Netflix de inscrever sua breve história entre os estúdios hollywoodianos mais prestigiados. Ao firmar uma autoridade sobre Welles - um cineasta que também desafiou o sistema para fazer filmes como bem quis - na prática a Netflix está pleiteando para si, por simbiose, esse mesmo prestígio dos artistas outsiders.

É um encontro no mínimo oportuno, então, que a Netflix tenha pago David Fincher para fazer Mank, a história de como o roteiro célebre de Cidadão Kane - o filme de estreia de Welles - ganhou vida. De um lado, a Netflix coloca seu carimbo em um filme de outsiders por excelência: aos 25 anos, Welles era o garoto-prodígio do rádio e do teatro que toma Hollywood de assalto, acompanhado do roteirista Herman J. Mankiewicz, cujas tendências de esquerda rapidamente o convidam a virar persona non grata nos anos do perigo comunista. Do outro lado, Fincher encontra em Mankiewicz mais um pária que dê vazão a comportamentos obsessivo-destrutivos - tema que perpassa seu cinema de Tyler Durden a Mark Zuckerberg.

A origem de Mank é bem anterior, data dos anos 1990, quando o pai de David Fincher, o jornalista e roteirista Jack Fincher, ainda era vivo. Não é raro que David Fincher se pegue melhorando, na direção, um material que não parece acima da média no papel, e é o que ocorre em Mank - cujo roteiro de Jack Fincher talvez tenha para o cineasta um valor acima de tudo sentimental. O texto emula a estrutura elíptica de Cidadão Kane e se enche de idas e vindas no tempo para construir a Mankiewicz uma imagem consolidada de gênio injustiçado. Todo momento que pode relembrar a genialidade do roteiro de Cidadão Kane é aproveitado, e da mesma forma os engravatados de Hollywood se dispõem em cena a todo tipo de demonização.

Nas mãos de um diretor “de Oscar”, poderia sair uma típica cinebiografia solene, que pesa a mão no conflito à moda Davi e Golias. Fincher e seus caprichos de encenação, porém, conseguem soprar vida em Mank. Dos estúdios de som nos backlots de Hollywood, às mansões de Los Angeles e às extensões dos bulevares, tudo em Mank é organizado para contrapor o tamanho do homem e o tamanho agigantado dessa bolha de fantasia, prosperidade e poder. De um lado, o bunker de Mankiewicz no rancho em Victorville parece um pesadelo de claustrofóbicos, do outro Hollywood segue sua rotina de longas tomadas de cavalos e caubóis em campos abertos. Se no capitalismo tardio somos submetidos todo o tempo a evidências da nossa pequenez humana diante das engrenagens colossais do sistema, então Mank amplia essas dimensões desproporcionais, enevoadas em sonho, como se cruzasse Crepúsculo dos Deuses e Alice no País das Maravilhas

É um filme sobre as assombrações que povoam os velhos palácios da Era de Ouro de Hollywood, em outras palavras, e sobre como esses palácios oferecem preciosos dioramas de opressões e dinâmicas de classe que transcendem o dia a dia de Hollywood e alcançam as vidas na Califórnia, nos EUA, no mundo. Para os aficionados em escala e os cenografistas, é um prato cheio, e ao mesmo tempo presta tributo a uma das grandes inovações técnicas de Cidadão Kane, a profundidade de campo que amplia os cenários e nos anos 1940 ajudou a emancipar o cinema da estética do proscênio teatral.

Deve ter sido uma experiência enlouquecedora não só para Gary Oldman, que no papel de Mankiewicz precisa atender as dezenas de takes pedidos por Fincher com falas entregues em velocidade dobrada, mas principalmente para os profissionais de iluminação. Desde os anos 1990, Fincher sempre quis fazer o filme em preto-e-branco, e o resultado meticuloso - assinado pelo diretor de fotografia Erik Messerschmidt, parceiro relativamente recente do diretor - está plenamente em sintonia com essa megalomania. Todo cenário parece cheio de detalhes obsessivos, cada um iluminado com dezenas de discretos holofotes de luz, como se capturados e miniaturizados em globos-de-neve, como aquele que representa a infância pura de Charles Foster Kane. Mas no álbum de globo-de-neves feito por Mank não há mais traços de inocência, e a própria fotografia em preto e branco denota o gosto agridoce dessa realidade deslocada, artificial.

Esse paralelo então entre Cidadão Kane e Mank funciona muito bem; ambos são filmes sobre um fim de inocência, sobre a desilusão com o sonho americano, e no caso de Mank a deterioração só parece bem mais avançada, estabelecida. Não deixa de ser uma obra de cinismo que está bem inserida em 2020, e nisso também serve ao projeto de marca da Netflix - que pinta o studio system como uma estrutura viciada, balcão de vendas e palco de politicagens. O filme suprime a importância da RKO na criação de Cidadão Kane justamente para centrar fogo na Metro, a grande corporação vilã, o Golias que eclipsa os outsiders.

Encarar essa história como um “true crime” pode ter sua curiosidade, especialmente para quem, 80 anos depois, se interroga sobre essa proverbial genialidade de Orson Welles e seu filme de estreia, mas Mank traz um viés muito claro e que interessa essencialmente à Netflix - inclusive no movimento de tirar Welles de cena e substitui-lo por Mankiewicz. Porque, afinal, depois de conseguir para si, via Welles, o prestígio dos outsiders, o passo seguinte é reescrever o passado, e isso também é totalmente 2020.

Mank
Mank

Ano: 2020

País: EUA

Duração: 131 min. min

Direção: David Fincher

Roteiro: Jack Fincher

Elenco: Gary Oldman, Charles Dance, Tom Burke, Lily Collins, Amanda Seyfried

Nota do Crítico
Ótimo

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