Omar Sy como Lupin

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Lupin - Parte 1

Com carisma de sobra, clássico personagem da literatura francesa ganha releitura divertida e sarcástica na Netflix

Mariana Canhisares
11.01.2021
16h29
Atualizada em
11.01.2021
17h01
Atualizada em 11.01.2021 às 17h01

Por mais politicamente corretos que sejamos, não se pode negar que há um charme particular em personagens que cometem os mais engenhosos crimes e, contrariando todas as expectativas, nunca são pegos pelas autoridades. É isso que nos atrai, por exemplo, a figuras como o Professor em La Casa de Papel, ou mesmo Robin Hood. Na literatura francesa, um nome é a personificação desta destreza: Arsène Lupin.

Criado por Maurice Leblanc no início do século XX, ele é conhecido como um ladrão sofisticado e esperto, especialmente habilidoso na arte dos disfarces - logo, não é de se estranhar que já tenha protagonizado variadas adaptações. A mais recente é Lupin, série da Netflix estrelada por Omar Sy. Aproveitando-se da personalidade irreverente que tornou o personagem um ícone, a produção deixa a cartola e o monóculo característicos de lado e faz uma releitura divertida e sarcástica da obra de Leblanc, trazendo-a para a França do século XXI.

Em Lupin, Sy é Assane Diop, um imigrante senegalês que, na adolescência, viu seu pai ser incriminado pelo roubo de um colar valioso. Antes de ser mandado para a prisão, porém, o velho motorista deixou um último presente para o filho: um romance de Arsène Lupin. Mais que um refúgio, a obra se torna uma inspiração para o jovem elaborar sua vingança contra os patrões milionários que mancharam o nome do seu pai.

Não faltam referências a Arsène Lupin por toda a série, algumas mais escancaradas do que outras. Porque, embora o seriado até brinque com acenos mais sutis para agradar os fãs hardcore dos livros, Diop nem sequer tenta esconder sua admiração pelo personagem nos seus planos mirabolantes. Pelo contrário. Seus pseudônimos são anagramas para o nome do ladrão de casaca, e as situações em que se envolve remetem a contos de Leblanc a ponto destas “coincidências” chamarem a atenção de um dos detetives que o procuram. Afinal, ele, como Assane, também é aficionado pelos livros.

A dinâmica de gato e rato com a polícia, somada à dramaticidade dos esquemas, é atraente por si só. Mas, para Lupin ser esta homenagem contemporânea interessante e maratonável, era necessário que seu protagonista tivesse um apelo sedutor semelhante ao do ladrão original. Neste sentido, não poderiam ter escalado alguém melhor que Omar Sy para o papel. Mais até que a elegância exigida para ser esse Arsène Lupin moderno, o ator francês esbanja carisma e acrescenta uma dose de malícia ao personagem de tal modo que não dá para desviar o olhar. Não à toa é tão fácil torcer para o sucesso dos seus crimes. Assane é irresistível.

Além disso, é notável como debates sociais relevantes se entrelaçam com a jornada de Assane nos pequenos detalhes e o despem quase completamente dessa fachada de anti-herói. Um olhar torto ou um comentário sobre a aparência do protagonista são o suficiente para ilustrar o racismo da sociedade parisiense e até validar moralmente alguns de seus crimes. Como condená-lo, por exemplo, por roubar as joias de uma senhora que diz sentir saudades dos tempos do Congo Belga?

Com um protagonista cativante, dotado deste quê de Robin Hood, o espectador fica preso ao seriado mesmo quando ele perde um pouco do ritmo na reta final. Enquanto os primeiros episódios são ágeis e enérgicos, focando em artimanhas ousadas, os seguintes são mais pé no chão, explorando a vida pessoal de Assane para além da vingança através de numerosos flashbacks. Assim, se descobre que sua ambição e seus segredos já lhe custaram o casamento e, pouco a pouco, prejudicam sua relação com seu filho Raoul - nascido em 11 de dezembro, data do aniversário de Maurice Leblanc.

Ainda que tenha seu mérito olhar para o passado de Assane, esse desacelerar da história coincide com muitas conveniências de roteiro, sobretudo envolvendo a investigação policial, e a série acaba perdendo parte daquela faísca que a tornou tão emocionante no início. O impacto só não é mais dramático porque Sy e o restante do elenco fazem realmente um ótimo trabalho a tempo de manter o espectador diante da TV para o último episódio, quando finalmente o passado do protagonista alcança seu presente.

Deixando ganchos intrigantes, Lupin se prova, portanto, uma grata surpresa neste início de ano. Engraçada, irônica e envolvente, a série é um resgate notável do legado do clássico personagem, capaz de despertar a curiosidade dos espectadores e fazê-los ir atrás de ao menos um conto com o ladrão de casaca. Mas, mais importante ainda, trata-se de uma história original e criativa, que funciona quer você conheça as obras de Leblanc ou não.

Enquanto Arsène tem mais de um século de vida, entre livros, filmes, anime e até videogame, Assane só escreveu um capítulo da sua história - e, ao que tudo indica, esse é apenas o começo. Que venham outros.

Lupin
Em andamento (2021- )
Lupin
Em andamento (2021- )

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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