Lost Girls: Os Crimes de Long Island

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Lost Girls: Os Crimes de Long Island

Netflix desperdiça o que poderia ser uma boa série documental com filme irregular

André Zuliani
13.03.2020
21h49
Atualizada em
14.03.2020
18h21
Atualizada em 14.03.2020 às 18h21

Liz Garbus é uma documentarista de sucesso. Duas vezes indicada ao Oscar de Melhor Documentário, uma delas pelo excelente What Happened, Miss Simone?, baseado na vida da lendária cantora e ativista Nina Simone, a cineasta tem em sua carreira diversos títulos que explicam o seu status dentro da Academia. Com um currículo desses, é complicado entender o motivo para fazer de Lost Girls: Os Crimes de Long Island a sua estreia em um filme tradicional. Após os 95 minutos da nova produção original da Netflix, essa dificuldade se torna ainda maior.

Baseado no livro Lost Girls: An Unsolved American Mystery, de Robert Kolker, o filme conta a história real de Mari Gilbert (Amy Ryan) e sua busca desenfreada para resolver o caso do desaparecimento de sua filha mais velha, Shannan (Sarah Wisser), uma garota de programa que desapareceu em 2010 na região de Long Island, nos Estados Unidos, após uma visita a um cliente. Inconformada com o descaso da polícia mesmo dias após o sumiço da filha, Mari começa a investigar por conta própria, atrapalhando os planos do comissário Richard Dormer (Gabriel Byrne), que não queria atrair a atenção da imprensa. A situação piora quando quatro corpos femininos são encontrados próximos ao condomínio onde a moça foi vista pela última vez, mas nenhum era o seu.

Todo o mistério envolvendo o desaparecimento da filha de Mari já era material suficiente para que Garbus transformasse a tragédia em uma produção interessante. O fato de Shannan ser uma prostituta causava uma nítida repulsa nos policiais designados à operação, o que apenas aumentava a angústia de sua mãe. A introdução das famílias das outras vítimas, que estavam desaparecidas desde 2007, não só aumenta o trabalho de Dormer para que o responsável pelas mortes seja capturado, como eleva a dimensão dos acontecimentos para quem está assistindo. O problema é que a cineasta não sustenta toda essa expectativa dentro do roteiro escrito por Michael Werwie.

Para começar, em nenhum momento fica clara a passagem de tempo do início da investigação até pouco depois da metade do filme. A montagem de Camilla Toniolo não esclarece há quanto tempo Shannan está desaparecida, nem mesmo com a ajuda das imagens dos telejornais da época. Isso atrapalha na compreensão do porquê, em certo momento, a filha do meio de Mari, Sherre (Thomasin McKenzie, a Elsa de Jojo Robbit, totalmente subaproveitada), estar tão conectada às outras famílias. Claro que a tragédia é capaz de unir essas pessoas, mas são informações que deixam a narrativa mais completa e compreensível.

Atriz com experiência tanto em drama quanto em comédia, pode-se dizer que Ryan carrega todos os sentimentos negativos do mundo nas costas. A protagonista se destaca nas cenas de dor e de fúria, o que ajuda na aceitação da personagem mesmo nos momentos em que seu próprio caráter é questionado. Mas nem Ryan foge dos problemas de Lost Girls. Por se tratar de um filme de mistério, a diretora transforma Mari o fio condutor da própria investigação, uma escolha que, apesar da história baseada em fatos, se torna incompreensível pelo tamanho do caso. Visitas sozinhas a lugares-chave, conversas à noite com possíveis suspeitos: tudo é muito irreal. Quem também acaba preso nessa irregularidade é o comissário Dormer de Gabriel Byrne. Prestes a se aposentar, o detetive é apático em vários momentos, e não fica claro se tal apatia é característica do personagem ou apenas desinteresse.

Tanto potencial desperdiçado fica ainda mais evidente com as últimas cenas do longa, ao conhecermos o destino dos personagens reais. O filme tem uma provocação: enquanto os moradores ricos do condomínio têm o apoio imediato da força policial, as jovens vítimas são constantemente chamadas de prostitutas, garotas de programa e acompanhantes, mas nunca como filhas, irmãs ou mulheres.  Isso fica ainda mais claro nas palavras de um dos policiais: “Quem perderia tanto tempo procurando uma prostituta?”.

No final, não há como não ter empatia pela história da família Gilbert, mas o sentimento de que havia mais para contar também permanece. Fosse talvez uma série documental de quatro a seis episódios, poderíamos conhecer mais sobre as vítimas, as investigações e o real trabalho feito pelas autoridades, principalmente pela conclusão do caso. Quem sabe no futuro, não é, Netflix? 

Nota do Crítico
Regular