Cartaz de Legado nos Ossos

Créditos da imagem: Divulgação

Netflix

Crítica

Legado nos Ossos

Continuação de O Guardião Invisível entrega suspense bem elaborado, mas falha com explicações em excesso e final preguiçoso

André Zuliani
19.04.2020
15h20

Pode ser que você não saiba, mas, apesar de tratado como um filme solo, Legado nos Ossos, longa espanhol que entrou recentemente no catálogo da Netflix, é a segunda parte de uma série cinematográfica. Baseado nos livros de Dolores Redondo, o longa é a continuação de O Guardião Invisível (também disponível na plataforma) e ambos fazem parte da Trilogia Baztan. Apesar de continuar a história iniciada em outra produção, centrada nos crimes investigados pela inspetora Amaia Salazar (Marta Etura), a sequência se sustenta com um novo mistério a ser resolvido.

A história de Legado começa em 1611, uma época onde a bruxaria era comum na região de Navarra, na Espanha. O inquisidor Alonso de Salazar chega ao local para investigar eventos obscuros praticados pelos moradores. Tais atos eram segredos muito bem guardados por todos e a caça às bruxas se tornou implacável. A história corta para 2019 e reencontramos a inspetora Amaia, agora mãe de um filho recém-nascido. Logo em seu retorno ao trabalho, novos crimes começam a surgir em Baztan, município basco nos arredores de Navarra e sua cidade natal. Os crimes, como em todas as boas histórias de suspense, são um tanto quanto macabros. Após assassinar suas vítimas e decepar um dos braços, os criminosos cometem suicídio e deixam apenas um bilhete com uma palavra escrita: Tarttalo.

O mistério em torno das mortes é a verdadeira atração do longa, que envolve antigos rituais da região basca. O fato de ir tão fundo em suas referências acaba tornando as explicações um tanto recorrentes e detalhadas, não deixando a mente do espectador trabalhar por si mesma. O filme se modela no diálogo e sua fotografia soturna faz a narrativa parecer mais lenta do que realmente é.

O diretor Fernando González Molina trabalha o longa com um tom pesado, se aproveitando bastante do material original de Redondo, que aqui também ganha créditos como roteirista. O fato de alguns aspectos da produção mencionarem a igreja e a Opus Dei fortalecem esse tom sombrio, muitas vezes destacado nos diálogos que envolvem a origem do mal. Há um claro embate entre a visão dos religiosos e a propagada por Freud e outros teóricos da psicologia, que muitas vezes relacionam as más condutas das pessoas com algum problema durante seu crescimento ao invés de abordarem o mal oriundo das maldições e energias negativas.

Outro bom atrativo da produção para os fãs de cultura pop são alguns integrantes do elenco. O responsável por viver o legista San Martin é Paco Tous, famoso por interpretar o assaltante Moscou em La Casa de Papel; Francesc Orella, que dá vida ao detetive Fermín Montés, fiel parceiro de Amaia, protagonizou a série Merlí, outra produção espanhola da Netflix. Para os amantes de cinema, o ator argentino Leonardo Sbaraglia, intérprete do juiz Javier, já atuou em filmes como Dor e Glória e Relatos Selvagens, ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

No entanto, com tantos detalhes a serem solucionados, o filme se perde em seus momentos finais, deixado em aberto explicações que enriqueceriam ainda mais a narrativa. Talvez pela certeza de que a terceira parte será produzida – Ofrenda a la Tormenta, que tinha previsão de estreia para junho de 2020 – a conclusão de Legado nos Ossos se tornou preguiçosa demais para que um longa que prometia entregar muito mais.

Nota do Crítico
Bom