Joias Brutas

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Netflix

Crítica

Joias Brutas

Adam Sandler encontra o papel perfeito em filme frenético dos irmãos Safdie

Natália Bridi
31.01.2020
20h08

Adam Sandler já comprovou muitas vezes a sua capacidade profissional. Dono do próprio gênero cinematográfico, o famoso, goste ou não, “filme do Adam Sandler” — como Billy Madison (1995), Um Maluco no Golfe (1996) e Gente Grande (2010) — ou do subgênero “filme do Adam Sandler com a Drew Barrymore” — como Afinado no Amor (1998) e Como se Fosse a Primeira Vez (2004) — o ator não se atém a sua zona de conforto (o que vale até para momentos embaraçosos como Cada um tem a Gêmea que Merece, de 2011). Embriagado de Amor (2002), sua colaboração com Paul Thomas Anderson, talvez seja a “evidência” mais conhecida do seu alcance dramático, com outros papéis, como o de Reine Sobre Mim (2007) e Os Meyerowitz (2017), figurando no seu lado criticamente aclamado.

Joias Brutas (Uncut Gems, 2019) entra facilmente nessa última categoria, mas é bom esclarecer que não se trata apenas de mais uma reafirmação do talento de Sandler. Seu personagem, Howard Ratner, um judeu falastrão e viciado em apostas dono de uma loja de joias no Distrito dos Diamantes de Nova York, é o papel perfeito, a fusão de todas as suas facetas: o comediante besta, o perdedor adorável e o ator competente.

Construído numa crescente em torno de uma pedra de aura mística, uma opala negra não lapidada extraída por mineiros judeus na Etiópia, o filme dos irmãos Joshua e Benjamin Safdie deixa a figura de Sandler sempre ao centro. Enquanto Howard Ratner fala sem parar arquitetando o golpe de sorte da sua vida, a câmera comandanda por Darius Khondji se posiciona quase sempre em primeiro plano ou plano médio, o que pela montagem exata de Ronald Bronstein e Benny Safdie, traduz a urgência do texto (também escrito por Bronstein e os irmãos Safdie). Quase não existe respiro. Ou melhor, há uma briga frenética por ar, como se o filme estive constantemente empurrando o espectador para baixo d’água.

Ao redor do personagem de Sandler circulam figuras misteriosas que amplificam a aura mística do longa, como Demany (LaKeith Stanfield), responsável por trazer clientes ilustres para a joalheria, quase uma versão sombria do Darius de Atlanta. Esses papéis secundários, criados em torno de estereótipos que aos poucos se dissolvem, manipulam a narrativa para que a percepção das cenas seja constantemente questionada. As figuras da amante gostosa (Julia Fox) e da esposa infeliz (Idina Menzel) são bons exemplos dessa condução do roteiro, sempre além da expectativa criada por suas aparências. É assim que Ratner ganha complexidade em interações aparentemente banais.

Existe também um aproveitamento do espaço habitado por esses personagens. As ruas de Nova York, a boate lotada, o apartamento de solteirão, o porta-mala de um carro ou a apertada joalheria com sua porta de segurança defeituosa são cenários tangíveis e integrados à narrativa. O que é essencial em uma história que vai da Etiópia a um jogo decisivo de basquete e que poderia facilmente se tornar incompreensível. Os irmãos Safdie, porém, sabem como pecar pela precisão. Mesmo a piada maravilhosa com Furbys de diamante tem um porquê.

Ironicamente, esse é um longa complicado que pode ser definido por uma expressão manjada como “tirar o folêgo”. Imersivo sem deixar aparente seu empenho cinematográfico para tanto, Joias Brutas usa a simplicidade a seu favor, a começar pela escalação do seu protagonista, sempre visto com desconfiança por uma parte do público, não importa o quanto se prove. Esse é, para espanto de muitos, um “filme do Adam Sandler”.

Nota do Crítico
Excelente!